Há dentro de ti, pai, o espaço mais verde, o lago mais azul, o ninho mais enraizado, a generosidade mais delicada, mais paciente e a lealdade dos que sabem amar para sempre com a serenidade doce de um ramo de alfazema. Contigo aprendi que as coisas importantes são, frequentemente, as ocultas, as não reveladas, singelas e presentes, novelos de magia aonde se resguardam tempos de prodígio redentor. Legaste-me o teu amor, a tua capacidade de sonhar e até as lágrimas que contiveste nos momentos de sobressalto e névoa. Em troca, pai, dei-te o temor de quem nunca ousou partir, o peso das minhas derrocadas, o remorso de não ter querido ouvir-te como devia. Sabe, porém, que sempre sinto - e sentirei - a tua mão pousada no meu ombro e a tua voz dizendo: gasta o coração mas não a vida.
O desejo é nota ofuscante no tumulto do corpo, é vertigem, combustão de sentidos nas raízes do sangue que, delirante, incendeia o caminho que me leva até ti.
Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser
se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer