folhasoltas
Quinta-feira, Junho 29, 2006
Banda larga


Sua Excelência, o Sr. Primeiro-ministro foi a Canhestros, no Alentejo, ligar todo o país por “banda larga”! Formidável! Assombroso!
Estamos assim na vanguarda, na dianteira, de todos os desenvolvimentos! Podemos dizer com indisfarçável orgulho que Portugal está “ligado”!
Agora sempre que um espanhol se rir na nossa cara porque os nossos bebés vão nascer a Badajoz, podemos calá-lo com superioridade. Diremos com ar pedante: “Sim mas, repare usted, nós temos todo o país com banda larga!”.
Também se um inglês, americano, dinamarquês perguntar pelo progresso científico ou tecnológico, pelo estado da economia ou da defesa, da agricultura ou do vinho do Porto, teremos sempre a banda larga como arma de arremesso, qual catapulta de azeite fervente. Ficarão sem um mícron de vontade de rir. Serão esmagados por esta “frente fria”, este anticiclone de evolução.

Preparemo-nos, portugueses! Se sentirmos vento, não, não é vento, é o país a avançar!
E antes que todos consigamos perceber o que se vai passando, atingiremos a tal velocidade de cruzeiro das grandes e promissoras nações!

Temos uma população envelhecida, uma taxa de analfabetismo funcional elevadíssima, não temos rede de cuidados continuados, os valores do recurso ao crédito e consequente endividamento das famílias são assustadores, os índices de poupança são baixíssimos, existe exclusão social… são questões de menos importância, quando comparamos com o êxito, o sucesso, o aprimoramento da mudança. São os concursos pela Internet, a obrigatoriedade da aquisição do selo do automóvel pela mesma via, o endereço electrónico implementado pelos CTT, os mega bytes, os...,as…

Uma amiga bancária contou-me que, explicando a um cliente como requisitar cheques numa caixa ATM (Multibanco), se viu entre o espanto e o riso, porque o senhor introduzia, na ranhura própria para o cartão, as moedas correspondentes ao valor da operação em curso. Elucidativo.
“Ontem fui ao Porto e sabe …” Ouvi esta conversa a duas senhoras, na década dos seus 60, no metro aqui na cidade. Vínhamos na linha amarela que liga o hospital de S. João ao centro da cidade. Para estas senhoras o Porto é, tão só, o centro, o miolo da cidade. Exemplificativo.
Sei de fonte mais que credível, que muitos reformados ao receberem as respectivas pensões, exigem que lhes sejam entregues determinadas notas (recusam as de 100 Euros) ou seja, contam o número de notas e não o seu valor facial. Esclarecedor.

“Portugal ficou hoje a pertencer ao restrito clube dos cinco países europeus que tem todo o seu território coberto com acesso de Internet em banda larga e alta velocidade” (…)“Sócrates comparou o acontecimento, em termos de importância para o desenvolvimento económico da país, com o aparecimento da electricidade (…) e salientou que hoje em cada 100 pessoas, 12.5 têm acesso à Internet de alta velocidade.” (in “Público”)

Passamos, num ápice, de uma dieta de batata e água, para caviar e champanhe. Claro que o estômago não aguenta e as indigestões estão aí. E não há “Alka-Seltzer” que nos salve…



*(No dia que me obrigarem, sem outra opção, a comprar o “selo do carro” pela Internet, deixarei de o fazer. Arrisco a multa.)

Eugénia Ribeiro
posted by Breakeven @ 18:02   16 comments
Terça-feira, Junho 27, 2006
Devolução


Devolvo-te o amor que, outrora, me ofertaste.
Já não o quero. Nele não vejo a essência do carinho,
da emoção, da partilha, do desprendido encanto
de um querer (te) tanto e tanto.
Caprichaste no invólucro que fazia imaginar
desejo só de olhar, jogos de luz aonde o fogo
ardia, cor e um amanhã a agarrar.
Mas o laço, reluzente de paixão, era frágil
de mais para abarcar o infinito, para prender
um coração ansiando um amor desenhado num
para sempre prometido, mas facilmente rasgado
em mil juras, distância no mais dentro do agora.
Devolvo-te o amor esmorecido. Remeto-o
em correio azul, pago e registado por mim.
Nada mais te devo. Adeus. É o fim.

A.R.

posted by digoeu @ 22:31   9 comments
Domingo, Junho 25, 2006
Poema Mestiço


Escrevo Mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer.


Mia Couto, À Sombra dos Palmares
posted by romeo_angel @ 17:41   17 comments
Sexta-feira, Junho 23, 2006
SHIPWRECK


waves
darkness
a shining darkness
a night with no stars
in my skies
I’m only
by myself

sailing
in a fragile boat

I wake up on a

Island
surrounded by
remains of a life

despair
my lost continent

my fantasy land
You
among
strange people
us
thoughts

words and pleasures
illusion

deception
love
faces and touches
dreams
reflections
of an eccentric person

A manhã apanha-me nas franjas deste naufrágio e esbofeteia-me com a realidade enrolada como o jornal do dia.
Perdurarão ainda rastos da ficção e restos da sensação.
Demoro a encaixar a verdade na vontade, custa-me reduzir prazer a dever.
Dói-me riscar ambições do meu livro de tarefas, fica uma linha vazia no lugar da utopia.
O que prefiro?
O naufrágio no sonho ou o naufrágio do sonho?


Eugénia Ribeiro



posted by Breakeven @ 00:14   11 comments
Quarta-feira, Junho 21, 2006
Uma questão de premonição... ou talvez não...

(Caricatura de Dali)

Era o galã lá do sítio. Loiro, olhos claros, bigode tipo Dali, impecavelmente vestido, andar de vedeta sempre à espera que lhe peçam autógrafos e um olhar que insinuava estar sempre pronto a incendiar o rastilho. Qual rastilho? O da paixão, claro. Era, em resumo, um refinadíssimo parvo. Mas, como dizia o meu avô, na vida tudo é útil… incluindo os parvos.
Vangloriava-se dos amores que acabavam, dos que ainda não tinham começado e dos que acabavam antes mesmo de começarem. O mulherio andava fascinado com este pinga-amor bem ao estilo radical-chic. Não sei bem o que a palavra significa, mas tem um certo toque de classe, rimando, na perfeição, com o nosso incandescente - e meloso - galã. Diziam - as lendas nascem deste modo - que os seus beijos sabiam a açúcar em ponto. Ainda se fosse a gelado com sabor a limão… O que é certo é que, desde que o mundo é mundo, as mulheres sentem-se terrivelmente atraídas pelo homem errado, convencendo-se que o milagre da afinidade acaba sempre por acontecer, e que a teoria da felicidade concentrada no umbigo - dele - não passa de timidez camuflando o retrato da perfeição.

Em suma, errar é a única certeza da vida adulta. E nós, mulheres, face a um petulante, fútil, vazio e estúpido cérebro, temos um prazer indecoroso em apresentar todos os requisitos para cometer erro atrás de erro. Percebem, agora, a razão pela qual perder, às vezes, pode ser uma libertação?!

Voltemos, porém, ao nosso herói. O Super-Homem farto de altos voos, penso eu, resolveu incarnar a figura de um Robin dos Bosques pós-moderno e, vendo em mim, adolescente insípida e distante do status de mulher fatal, uma nova versão de Lady Marian, decidiu mudar de ares, transformando-se numa espécie de vidente/protector de jovenzinhas um nadinha obtusas e (in)adequadamente ingénuas.
Assim, um dia, dou comigo a ouvir aquele protector de desamparadas a convidar-me para ir ao cinema. A minha resposta era previsível e até compreensível. Com pouquíssimos eventos divertidos na minha vida, aquele convite era uma espécie de degrau rumo a uma felicidade vaga. Muito vaga. Atendendo, todavia, à minha pouca idade - os dezasseis anos de outrora equivaliam aos seis de hoje - a minha tia deu-me autorização de acompanhar o perigo público... na condição de levar uma prima mais velha na devota missão de guarda-costas.
Como o homem põe e Deus dispõe!
Coitada da minha prima. Galvanizada pelo insinuante que, durante a fita, sentado entre as duas, tentara, em vão, aliciar-me com a teoria da premonição e das almas gémeas - fracassou, talvez, porque, na altura, eu nem sabia que a palavra existia - lançou-se, às cegas, para os braços da paixão mais deprimente e patética que possamos imaginar.
Aquele casanova lamecense era perito na arte de não amar ninguém e de amar todas. Sintetizando: o romance - que começara em regime de alternância devido à minha santa ignorância no domínio das coisas do oculto - vacilou, vacilou e vacilou… até acabar num deserto sentimental.
Meu Deus, a ingenuidade das mulheres. E a estupidez também. A minha prima, coitada, ia-se desmoronando intimamente, enquanto o cretino se pavoneava, no salão de chá, diante de adolescentes lingrinhas e pestanejantes - pelo menos eu era apenas inculta e anjinha - que ignoravam que aquelas poses eram um bom adubo para futuras crises de (des)enganos amorosos.


Uma bela tarde, farta de ouvir pela milésima vez a minha prima gabar o bigode do felino e porque, às vezes, faz bem cairmos no abismo por nossa conta e risco, disse-lhe:
- Telefona-lhe.

-
Para onde? - interrogou a dolorosa.
-
Ora… para o salão de chá. Ele só sai de lá para dormir ou…
A Dama das Camélias - que em questões de premonições estava um tanto ou quanto mais adiantada do que eu - aproveitando a boleia da ideia, e com o coração em forma de disco em brasa, ligou para o dito salão. Na altura, como é óbvio, para além do vocábulo “premonição” ser pouco conhecido, a palavra “telemóvel” era inexistente.
-
Desculpa estar (“tar” também ainda não era muito comum)
a ligar-te… Quem sou?!... Estou rouca?! Não!… Sim… sim… sim… claro… sem nenhum compromisso… amigos… sim… não... Esqueceste?!... Pois…. sim… não...
Enquanto ouvia aquele código mais maçudo do que os do Da Vinci, eu ia murmurando:

- Stop! Faz stop! Isso é tudo bazófia, patranhas. O meu sexto sentido está a dar sinal…
- Tinha acabado de iniciar-me, finalmente, no campo das premonições!
-
Mas… sim… Não podes?... Ah... nem sabes quando poderás?... O quê?! - soluços intermitentes - Então… beijinhos…
- nova crise de soluços abafados.
- Que te disse ele? Conta… conta…

- Disse que… que… (nova dose de soluços)... quando se lembrava de mim, não estava perto de um telefone… e que, quando estava perto de um telefone, não se lembrava de mim...


Olhámos uma para a outra entre surpreendidas e... surpreendidas. A coitada ainda hesitou: lágrimas ou risos? Optámos por uma sonora e sadia gargalhada. Começávamos a compreender que o cálice da decepção pode ser bebido gota a gota ou de um trago decidido, repetindo três vezes - Este filme não é o meu.
Provavelmente, ainda seria preciso um certo tempo para conseguirmos interiorizar que o grande amor não precisa de estratégias "casanovescas" nem de um malabarista de primeira (?) categoria. Teríamos de começar a separar o trigo do joio. Teríamos, sobretudo, de aprender que sofrer por amor será sempre melhor do que deixarmo-nos oprimir pelo peso do desamor. Porque a infelicidade só é reincidente se permitirmos que uma carente auto-estima e uma esmagadora aridez afectiva nos dominem.

A felicidade, acreditem, está por nossa conta e risco.

Mas... onde entram, afinal, as tais premonições?!

A.R.




posted by digoeu @ 20:24   16 comments
Segunda-feira, Junho 19, 2006
Carta a meus pais


Não sei, meus pais, que mundo será o nosso.
Olho em volta e vejo guerras, crimes, fome, injustiças e conflitos. Ouço os lamentos daqueles que se sentem inseguros, que têm medo do futuro e desconfiam do presente. Sinto que as pessoas são mais invejosas, egoístas, esquecem-se de ajudar os outros, de serem solidárias… Vivem mais sozinhas, mais voltadas para si próprias. Talvez sonhem menos ou tenham sonhos errados : o dinheiro, o poder, o prazer fácil da droga, do álcool ou da fama rápida. Mas não é isto que nos interessa para viver. Precisamos de paz, de segurança, alegria, confiança, honestidade, lealdade, respeito e, sobretudo, esperança de que estes sentimentos se tornem realidade – ou, pelo menos, a nossa realidade.
Desejo um mundo mais simples onde as diferenças de raça, nacionalidade, crença, sexo ou orientação sexual sejam respeitadas e valorizadas. Um mundo onde a música, a dança, a arte enriqueçam as nossas vidas. Um mundo onde a imaginação tenha lugar e onde seja importante sonhar.
Este é o caminho do mundo que eu sonho e o sonho para o qual caminho.


Liliana Gomes
nº200/ 10ºE
Esc. Sec. Carolina Michaëlis


Nota: Texto elaborado a partir do estudo do poema “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” de Jorge de Sena.
posted by digoeu @ 17:23   9 comments
Quinta-feira, Junho 15, 2006
Se eu te pintasse

(Diego Velázquez -The Needlewoman )

Se eu te pintasse, posta na tardinha,
pintava-te num fundo cor de olaia,
- na mão suspensa, nessa mão que é minha,
o lenço fino acompanhando a saia!

Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
em ar de infanta que perdeu a aia,
envolta numa luz que te acarinha,
- na luz que desfalece e que desmaia!

Com teu encanto os dias me adamasques,
linda menina ingénua de Velázquez,
a flutuar num mar de seda e renda!

Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho,
mas tão baixinho que só eu entenda!

António Sardinha - Chuva da Tarde
posted by romeo_angel @ 18:43   9 comments
Segunda-feira, Junho 12, 2006
Estátua de sal


Todos os dias no mesmo rochedo
me sento
desafiando o fio de navalha do horizonte.
O sol evaporou-me a vida,
transformei-me numa estátua de sal
que ruirá
ao teu mais brando sopro.

Eugénia Ribeiro
posted by Breakeven @ 23:10   9 comments
Sábado, Junho 10, 2006
O Amor


O amor é um sentimento maravilhoso. Faz-nos sentir bem em qualquer situação, dá-nos esperança nos momentos de desespero e inunda-nos de paz num mundo de confusão.
Quando gostamos de nós próprios, conseguimos ser felizes. Podemos amar todas as criaturas, todas as coisas, sem clausuras e sem medos. Acreditar no amor é acreditar no sol, mesmo quando este não brilha. Amar é como um vício: no princípio, vem a sensação de euforia, depois, o querer mais e mais… e estamos, finalmente, prontos a fazer qualquer coisa por amor, porque não há sombras a toldar o seu espaço.
Olharmos para os outros com amor no coração, torna-nos felizes. O amor é um incentivo à descoberta. O amor é uma dádiva. Uma bênção. Uma conquista. É, também, uma lição de vida.
Não importa que amemos uma, duas, dez vezes na vida. Acredito que, de cada vez que nos abandonamos a este sentimento, estamos diante de um novo amor que, no fundo, é sempre “o amor”. Na sua indefinição, ele é eternamente autêntico!

Filipa Fontes
10ºJ / nº 238
Esc. Sec. Carolina Michaëlis
posted by digoeu @ 17:07   10 comments
Quinta-feira, Junho 08, 2006
Escrever um livro, criar um filho, plantar uma árvore


Escrevi um livro.
Quantos anos a sonhá-lo,
a rascunhá-lo nas mesas dos cafés,
a escrevê-lo nos intervalos do emprego,
a vivê-lo,
a sofrê-lo
na província, nas cidades...!

Criei um filho.
Tanta alegria no meu coração!

Só ainda não plantei uma árvore.
O frágil caule como protegê-lo?
Como não deixar que os bichos
maculem as pequeninas folhas?
E como dialogar com uma árvore-menina?

Agora vai sendo tempo.
Os anos já me pesam.
Amanhã vou plantar uma árvore.

Saúl Dias
posted by romeo_angel @ 11:50   13 comments
Terça-feira, Junho 06, 2006
Maria


A vida é, decididamente, injusta, indócil. Tens cinco anos, não falas, andas com alguma dificuldade, não exploras o mundo como as outras crianças e habitam-te uns olhos enormes - parecendo desconhecer que sobre eles paira uma nuvem negra - que nos fitam, atentamente, ou nos ignoram e se fecham num mundo só teu.
Hoje, pela primeira vez, assisti a uma das tais crises que os médicos ainda não conseguiram explicar. Ali, junto de ti, sem nada poder fazer, pensava que tudo, ou quase tudo, tem a ver com os ludíbrios cruéis do destino. Entre aturdida e assustada, doeu-me o sofrimento da tua mãe, a sua terrível sensação de impotência perante o absurdo do que nunca se aceita. Deve ser uma mágoa infinita ver um filho sofrer, pedir ajuda com os olhos - esses teus olhos que parecem viver em dois mundos paralelos - e constatar que não está ao nosso alcance afastar esse sofrimento. A crise durou cerca de dois minutos e, de seguida, ficaste prostrada por um cansaço que transformou o teu frágil corpo numa espécie de boneca de pano.
Pelo que me é dado saber, nem aqui nem no estrangeiro foi ainda possível diagnosticar esse bloqueio, esses ataques, já que, aparentemente, não apresentas lesões neurológicas.
És uma menina muito amada, nota-se. As olheiras da tua mãe, as suas lágrimas contidas, o seu cansaço, disfarçado por um sorriso constante - a tua mãe é a personificação da coragem e da fé - mostram o quanto ela vive em função de ti.
- O pior de tudo isto é não termos nada a que nos agarrar e habituar, alguma coisa concreta com que lidar, alguma coisa para compreender - dizia-me, embalando-te, docemente, como se ainda fosses um bebé. Corrijo: ainda és o seu bebé. Sê-lo-ás sempre. O que me custa mais é que a única coisa que fazem, actualmente, é aumentarem-lhe as doses dos medicamentos, projectando-a neste estado de apatia, mas sem evitar que os ataques ocorram várias vezes ao dia. À noite, por intuição de mãe, acordo, quase sempre, um pouco antes do começo de uma nova crise… Parece que o cérebro da minha filha não pára, não sossega… Até para dormir é necessário dar-lhe sedativos…
E tu olhavas sem ver - ou estarias a olhar para muito longe? - mecanizando alguns movimentos, o cabelo húmido do suor e esses olhos imensos - e tão abertos - mergulhados num aparente vazio que nos envolvia.
- De todas as penosas situações por que já passámos, a mais dilacerante foi ouvir um famoso pediatra sentenciar - Não há cura. Nada a fazer. Nada a tentar. Assegurem-se de que é feliz. Isso é a única coisa que está ao vosso alcance.
Saí daquele consultório absolutamente arrasada. Mas, cá por dentro, uma voz gritava – não desistirei. Nunca desistirei.

Sabes o que mais admiro na tua mãe, Maria? É não fazer da tua diferença a grande tragédia da sua vida. É o facto de lutar com a serena convicção de que alguma aura ainda não esgotada se instale em ti e te dê a possibilidade de, um dia, poderes comunicar.
A mim, Maria, tu dás-me uma grande lição. Mostras-me a vida com um outro sentido. O fundo pode ser o topo. O vazio um lugar seguro. A dor pode ser irremediável, mas podemos senti-la sem que ela nos destrua. Porque há sempre a promessa - por mais remota - de um começo.
Desejo, do mais fundo de mim, que o teu “começo” - ainda que com muitas interrogações - tenha a força da coragem da tua mãe quando, persistentemente, reafirma - nunca desistirei!

A.R.
posted by digoeu @ 00:15   12 comments
Sexta-feira, Junho 02, 2006
Fábula da Disparidade


- PT Comunicações. Serviço 118. Pretende o telefone de um serviço ou instituição? Diga sim ou marque 1.
- Sim.
- Qual é a localidade?
- Lisboa.
- Qual é a instituição?
- CP.

(Tara,tara,tara,rara………………)

- Entendi: CP. Lisboa. Se confirma marque 1, se pretender….
Marco 1.
(Acendi um cigarro….)

(Tara,tara,tara,tara,raraa……….)

O número é 21003789. Se pretender a ligação de imediato pela PT Comunicações, marque 1, se pretender…
Marco 1.


(La,la,la,laa,lara,ra,ra………)

Boa tarde, fala Jacinta Marques. Em que posso ser útil?
-Pretendo informações sobre horários…
- Um momento, por favor.


(Larari,larara,larara,larari,…….)

-Para informações sobre horários, marque 800228088, se pretender a ligação imediata pela PT Comunicações diga sim ou marque 0, se pretend…
Marco zero.

(Tatst,tsst,tsst,tsst,ttt,tsst, tsstssstt,…)

Entretanto fiquei saber que o Dr. Fontes pretende começar o movimento para a implantação da República, o barão de Araruna toma café com a mulher Cândida e a filha Sinhá Moça…. Claro que estou a falar da novela da SIC.
(Apaguei o cigarro…)

(Zzzzzzzz……….)
(Tralala,tralala,tralala,…..)

- C.a.m.i.n.h.o.s.d.e.F.e.r.r.o.P.o.r.t.u.g.u.e.s.e.s.
- Se pretender informações sobre Alfapendular e Intercidades, por favor, marque 1, se pretende inform….
Marco 1.

(La,la,lalalaaa,larara,ra,ra,ra,…….)

Na TVI, a Holanda vence a França por 3-2, e é finalista do “Sub-21”.
Fernando Mendes distribui prémios, na RTP.

(Tssst,tssst,tststst,tsst.ttxxt,txxt,tt,….)

-Boa tarde. Marta Ferreira…em que posso ser útil?...
- Pretendo informações sobre horários de Alfapendular, a partir das 15 horas, Porto-Lisboa, …
-Sta. Apolónia ou Gare do Oriente?
- Gare do oriente.
- Tem às 15,10; às16, 15 com chegada às 19,15; às 17,15 com chegada às 20,15, às…
- Obrigada, 16,15 é o ideal. E reservas, por favor…
- Para reservas por favor marque…..
-Ok. Obrigada.

A minha capacidade de resistência estava drasticamente reduzida, respirei fundo…
Enfim!...
Por esta altura já as televisões abriam o telejornal das 20 horas.
Parece significativo…

- Credial, boa noite. Irene Pereira. Em que posso ser útil?
- Boa noite. Acabei de ver o vosso anúncio e quero saber as condições para um crédito.
- Estou a falar com….
- Maria José…
- Muito bem, D. Maria José, o processo é o seguinte….

Moral da história – É mais fácil obter um crédito pessoal que saber o horário dos comboios…

Eugénia Ribeiro
posted by Breakeven @ 21:50   9 comments
Quinta-feira, Junho 01, 2006
"E foi assim que eu ganhei a minha roupa de poeta. Eu fiquei lindo!..."


Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.

- Totoca.
- Que é?
- Idade da razão pesa?
- Que besteira é essa?
- Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era “precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença.
- Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua cabeça..
- Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou poder tirar retrato de gravata e laço.
- Por que gravata de laço?
- Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando tio Edmundo me mostra o retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço.
- Zezé, deixe de acreditar em tudo o que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso.
- Olhe ele é filho da puta?
- Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco.
- Você falou que ele era mentiroso.
- Uma coisa nada tem a ver com a outra.
- Tem sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: "o filho da puta do velho mente pra burro”… E ninguém bateu na boca dele.
- Gente grande pode dizer, que não faz mal.
Fizemos uma pausa.
- Tio Edmundo não é… Que é mesmo trongola, Totoca?
Ele girou o dedo na cabeça.
- Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força.
Totoca deu um pulo.
- Ele deu uma palmada em você? Quando?
- Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão.
- Vai buscar que eu dou.
- Eu fui no cesto da roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. – “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão.
Totoca riu.
- Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca.
Eu continuava pensando em Tio Edmundo.
- Totoca, criança é aposentado?
- O quê?
- Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo o mês.
- E daí?
- Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais.
- Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar.
Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe.

O MEU PÉ DE LARANJA LIMA
José Mauro de Vanconcelos
posted by romeo_angel @ 12:15   4 comments
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