folhasoltas
Segunda-feira, Julho 31, 2006
A Viagem
[“Todos os usos da palavra a todos”. Não para que sejam artistas, mas para que ninguém seja escravo.]

Viajar através da escrita é, definitivamente, um prazer e, simultaneamente, um desafio. Despertar as palavras, propagá-las em profundidade, em todas as direcções, fazer faiscar centelhas que recuperam a distância entre o ontem e o hoje é um jogo aliciante - imprevisível, fantástico - que desencadeia, no território da sensibilidade, sentidos vários sedentos de serem explorados e absorvidos com a urgência de um raio iluminando a noite escura. Essa é a escrita que assume a cumplicidade que as palavras requerem. Que alivia a dor da alma. Que não aprisiona. Que não empobrece quem a cria nem quem a lê.
Há, porém, necessidade de não descurar riscos, ou seja, de não cair na armadilha subtil de transformar, ainda que involuntariamente, a escrita num ajuste de contas entre a emoção do que cremos ser e as certezas e verdades que nos cabem - quantas vezes fustigadas por ventos adversos, caprichosos, volúveis.
Não é preciso viajar num paquete de luxo. Longe disso. O excesso é tão penalizador quanto a carência. E, de tão preocupados com a “bagagem”, esquecemos a quietude, o simples, a consciência do desafio maior que a todos nós se apresenta - viver genuinamente. Escrevendo a vida com dignidade. Sem artifícios. “Sem um buraco na alma e uma dor no corpo”. Só assim a escrita oferece a verdadeira liberdade na dimensão absoluta do maravilhamento que arrasta consigo.
Ao longo de todos estes meses, estas “folhas” realizaram-me no que busquei. Nelas edifiquei o que a imaginação e a realidade me reclamaram - a ousadia de não me esgotar no que sou. A humildade de perceber porque sou ninguém. E é essa percepção, ancorada nos malabarismos da emoção e na interpelação da razão, que me leva a recusar um subornável tanto faz. Tanto faz escrever… como não escrever; tanto faz a ponte levadiça da criatividade estar içada… como baixada; tanto faz libertar as palavras de um modo sentido… como enclausurá-las, friamente, numa jaula de futilidade sem expressão, muito aquém da luz que os nossos olhos alcançam.
Assim, e porque sei que é a partir do nosso interior que o exterior se pode modificar, recuso o facilitismo estéril do tanto faz e suspendo, sine die, esta viagem. Porque, enquanto espero, há a possibilidade de novo tempo me confrontar com seiva nova correndo, inconformada, rebelde, por entre as palavras que agora me fogem ou que se me sujeitam, passivas, vagas, diluídas na sombra e na poeira do momento que passa.
A viagem sem fim - mas que, hoje por hoje, interrompo - teve como acompanhantes pessoas especiais cujo coração era - é - uma luz mais alta que a do sol. Para elas, o usufruto de todos os sonhos, voos amplos num céu imensamente azul e um abraço sem muros.
Até sempre. No adeus, que não quero ou não sei aceitar, há uma estória centrada na busca de uma ponte, elo de ligação entre a partida e o regresso.

Boas férias!


A.R.
posted by digoeu @ 12:07  
Sexta-feira, Julho 28, 2006
Travessia


Era um domingo de manhã. O dia estava ensolarado. Eu estava sentado num banco duma praça pública observando a vida acontecer. Crianças enchiam o ambiente com seus folguedos barulhentos. Algumas soltavam pipa, outras jogavam bola, ainda outras andavam de bicicleta. Chamou-me a atenção um senhor parado do lado oposto da rua que margeava a praça. Sua intenção era atravessá-la. Parecia assustado. Olhava de um lado para o outro esperando o momento apropriado para executar a travessia. Fiquei torcendo por ele. Umas quatro ou cinco vezes eu esperei que ele atravessasse a rua, mas ele ainda achava que não era o momento apropriado. Está com medo, pensei. Depois de cerca de dez minutos de espera, quando ele sentiu segurança, arriscou a travessia. Só então percebi o motivo de toda aquela insegurança, pois ele não andava, apenas arrastava os pés centímetros a centímetros. Temi por ele. Torci para que nenhum carro aparecesse em nenhuma das extremidades da rua. Ele continuava resoluto na sua travessia. Não consegui desgrudar os olhos deles, a não ser para vigiar o movimento da rua. Ele alcançou o meio da rua. Olhou para mim. Parece que adivinhava minha torcida. Seu arrastar vagaroso afligia-me. Três quarto da rua estava vencida. Meus músculos estavam tensos. Aquilo foi pior do que um filme de suspense! Fui um alívio quando ele alcançou a calçada da praça. Ele sorriu. Seus olhos encontraram com os meus. Sua expressão de vencedor parecia querer dizer-me: Você viu o que eu fiz? Atravessei a rua sem ajuda de ninguém! Seus olhos sorriam! Já viu um par de olhos sorrindo? Eu vi. É lindo!

Roberto Policiano
posted by Roberto Policiano @ 19:42   17 comments
Quarta-feira, Julho 26, 2006
Carta


Não sei, meus pais, que mundo será o nosso.
Talvez seja uma pergunta angustiante, esta que vos faço, atendendo ao momento conturbado em que vivemos, sem que, possivelmente, me possais dar aquela resposta que gostaria de ouvir. No entanto, por mais obscuras que sejam as perspectivas no futuro, nunca poderei deixar morrer a esperança num mundo em que a vida seja valorizada, prevalecendo o respeito, a liberdade, a justiça.
Constatamos que a história se repete com outros contornos. Na realidade, assim acontece.
Todos os argumentos são válidos para despoletar qualquer conflito, ainda que as justificações sejam assumidas como verdadeiras.
É notório que o poder económico, a nível mundial, prevalece e, aqui, afigura-se-nos o interesse na venda de armamento. Fomentam-se guerras, porque é preciso vender…
Como sabeis, as grandes potências sempre tiveram o monopólio em armamento, cada vez mais sofisticado e destruidor. De que têm agora medo?!
Através dos media, damo-nos conta das catástrofes naturais que espalham a morte, a dor, a desolação, sem que o homem seja capaz de as evitar. Tão grande e tão impotente…
Muitas vezes, ouço-vos falar nas alterações climáticas que, pontualizadas pelas secas, fogos devastadores, conduzem à fome, doenças, males que atingem sempre as vítimas mais inocentes – as crianças. Vidas adiadas, talvez comprometidas para sempre por incúria humana. E, mais uma vez, o poder economicista é preponderante na sua ambição cega, já que pouco lhe importa preservar este Planeta. Que mundo nos vão deixar como herança?
Quando vós tínheis a minha idade, era, sem dúvida, mais fácil manter ideais de trabalho e, consequentemente, de vida. Todavia, pese embora a competição desenfreada, nos dias de hoje, que conduz a sobressaltos e incertezas, não podemos deixar morrer a esperança numa vida cheia de alegria, dignidade e respeito.
Será o impossível… possível? Quero acreditar que sim.
Nas mãos, a paz; nos olhos, a alegria; no coração, o amor. E o mundo será, de novo, mais humano, justo e tolerante.
O poeta diz – “É urgente sermos”.
Direi eu – Não nos adiem mais o futuro.

Filipa Leite
posted by digoeu @ 11:57   14 comments
Domingo, Julho 23, 2006
Soneto do Cativo


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão:

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo:

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso.


David Mourão-Ferreira
[Lisboa, 1927-1996
]
posted by romeo_angel @ 13:36   16 comments
Quinta-feira, Julho 20, 2006
Armadilha


Joguei
palavras como pedras
e os estilhaços do teu silêncio
cravaram-se
na minha carne.

Então entreguei-me,
displicente,
à espera da inanição e da morte.

Mas as mil feridas abriram-se em mil dores
estéreis de sangue vivo,
graves e profundas,
como incisões rigorosas
que cirúrgicos bisturis rasgaram no meu peito.

Joguei
palavras por pedras, contra mim própria,
agora
varro-me os pedaços
com o vagar das coisas sem uso,
à espera
que me devolvas a vida
no brilho de um intenso olhar.

Eugénia Ribeiro
04/05/06
posted by Breakeven @ 20:58   10 comments
Terça-feira, Julho 18, 2006
Tiquico

Como posso esquecê-lo? Tinha seus oito anos de idade. Cabeça pequena, corpo coberto apenas por um calção, deixando à mostra o corpo raquítico, e pés encardidos pela poeira das ruas descalças. Dia após dia era assim que ele andava. Seu nome? Não sei. Tiquico era o seu apelido, talvez em razão de seu pequeno tamanho. Mas naquele dia ele teve uma idéia. Não, não era uma idéia qualquer. Era a melhor e a mais importante idéia que aquele garoto já tivera, e ele sabia disso. Seu rosto, coberto por uma camada fina do pó das ruas, iluminou com um sorriso. Até isso era singular nele, pois ele sorria puxando os lábios para cima sem mostrar os dentes, ao mesmo tempo em que franzia a testa e arregalava os olhos. Aquela grande idéia fez com que o brilho do seu olhar tornasse mais intenso do que o costumeiro. Não é qualquer um que, à idade de oito anos, já sabe o que quer da vida, e ele, Tiquico, acabara de descobrir qual seria a sua profissão - escultor. Esfregando as mãos de contente, saiu em disparada para por em execução a idéia que tivera. Tudo o que ele precisava era de uma madeira para esculpir. Depois de procurar por cerca de dez minutos, encontrou um pedaço de peroba rosa de aproximadamente trinta centímetros de comprimento. Mirou por alguns instantes aquela peça de madeira deitada em suas pequenas mãos e anteviu a sua primeira obra de arte. Aquela cor, bonita e brilhante, enriqueceria ainda mais o seu trabalho. Só lhe faltava a ferramenta, pois o resto era com ele. Vinte minutos se passaram e, não obstante o seu empenho, não encontrou o que procurava. Desolado, sentou-se num dos degraus da porta da cozinha. Colocou o pedaço de madeira no chão, entre os seus pés; apoiou os cotovelos em seus joelhos; deitou as faces em cada uma das palmas de suas mãos, e quedou-se pensativo. Alguns segundos de meditação foram suficientes para ajudá-lo a achar a solução para o seu problema. Ficou em pé num pulo e entrou na cozinha. Logo depois estava de volta carregando uma faca que tirara do faqueiro que era guardado para ser usado em ocasiões especiais. Com a ferramenta e a matéria prima à mão, ocupou o seu atelier, que nada mais era do que o degrau da cozinha, e iniciou a sua primeira obra de arte. Quinze minutos depois concluiu que não nascera para aquilo. Como é difícil ser escultor, pensava ele, enquanto encarava os míseros fiapos que conseguira arrancar da madeira após tanto esforço. Seu corpo estava molhado de suor. A mão que segurava a faca tremia, em vista da força que fizera e da ardência proveniente das três bolhas de água que a fricção da ferramenta causara. Levantou; foi até a pia, lavou, secou e guardou a faca no lugar de onde tirara; jogou a madeira, quase uma obra de arte, no lixo e, batendo a parte de trás do calção para livrá-lo do pó do degrau da escada, disse para si mesmo:
- Esse negócio de ser escultor não é comigo.
E, ganhando a rua, foi em busca de uma atividade mais fácil e menos dolorosa.


Roberto Policiano
posted by Roberto Policiano @ 20:44   12 comments
Segunda-feira, Julho 17, 2006
pede a vida

pede a vida

palavras ditas devagar, castas de espinhos,
humedecidas em quietude, mansamente entreabertas,
em que cada sílaba é um gesto redentor - ensinando
e aprendendo - que teima, no cansaço dos dias,
tocar o rumo e o leme do sonho na exaustão do tempo

pede a vida

abraços cingidos devagar na emotiva
respiração dos corações afagados pelo sortilégio

de que a amizade, manso aconchego,
é tão simples como a mão, persistentemente
solidária, cortando lonjuras, fundeando ternuras

pede a vida

beijos sorvendo devagar - tão devagar como uma
lágrima escorrendo adeus nos vidros da despedida -
o amor e a paixão, esculpidos pelos deuses
no fogo envolvente das noites, que
desabrocham na leveza de um sopro feito eternidade

pede a vida

que caminhemos nela devagar, espalhando sorrisos,
dispersando ventos, elevando mastros, desenhando gaivotas,
multiplicando sonhos, refazendo esperanças, inaugurando
dias ébrios de poesia com a serena certeza de que só um passo
nos separa do regresso definitivo ao regaço das estrelas


A.R.

posted by digoeu @ 12:09   16 comments
Quinta-feira, Julho 13, 2006
Vaidade


Vaidade, meu Amor, tudo Vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o Luxo, a Glória, a Caridade,
Tudo Vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe.

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no Mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!


Hoje, lá voltam com seu ar composto,
Mas, eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre in "Só"
posted by romeo_angel @ 20:39   7 comments
Terça-feira, Julho 11, 2006
No fim


Vistam-me um vestido colorido
escolham anéis e relógio.
Leiam poemas em voz alta
ao som de um saxofone.
Não façam anúncios,
nem usem lenços,
não vistam preto
nem tão pouco entristeçam o olhar.
Espalhem-me as cinzas,
num local qualquer,
onde possam plantar uma flor.
Reguem-na com água.

Nunca com lágrimas!


Eugénia Ribeiro
(10 de Julho de 2006)

posted by Breakeven @ 13:21   10 comments
Sexta-feira, Julho 07, 2006
O milagre da vida


De repente a semente
Pequena, frágil,
Encontra um solo que a acolhe,
A umedece, a alimente.

De repente uma folhinha
Pequena, frágil,
A crosta do solo irrompe,
Procurando a luz do sol.

Enfrentando obstáculo.
Do solo a vida arranca.
Faz da vida um espetáculo,
De semente faz-se em planta.

O espetáculo continua
Ao sugar ainda mais o chão.
Para que a vida perpetue
Nasce o primeiro botão.

O botão se faz em flor
E, neste gesto augusto,
Deixa a vida mais contente.

Num grande ato de amor
Esta flor se faz em fruto
E, dentro dele, a semente!


Roberto Policiano
posted by Roberto Policiano @ 22:06   14 comments
Quinta-feira, Julho 06, 2006
A(Deus)


Adeus, isto é: encomendo-vos a Deus, homens tão descrentes dos outros homens!

Bagão Félix
posted by romeo_angel @ 13:16   8 comments
Quarta-feira, Julho 05, 2006
Madame Vitória

Mestra das Ciências Ocultas. Espírita. Vidente. Não há problema sem solução: empates, negócios, amor, insucessos… resultados garantidos. Consultas presenciais e à distância. Madame Vitória tem poderes absolutos.

Talvez estivesse ali a chave para a solução, ou melhor, para a selecção. O nome da vidente era, por si só, um bom presságio. Por que não entrar e ficar a saber o resultado antecipadamente? Na verdade, a tensão daqueles últimos dias tinha sido enorme e, se a dita Vitória tratava de empates e de insucessos, talvez o jogo contra a França se decidisse, afinal, naquela espelunca. Soltou um profundo suspiro e, qual Alice no País das Maravilhas - seria melhor escrever das feitiçarias, não? - resolveu navegar rumo ao oculto.

Mal entrou, porém, sentiu estar no sítio errado. Uma ruiva, exuberantemente artificial - tendo como décor um quebra-luz que deveria ter sido comprado nas Caldas, um papel de parede vermelho-vivo guarnecido de imagens de santos e santas de todos os feitios e tamanhos, como uma fila de patos numa barraca de tiro - dirigiu-se-lhe, em sussurro.
- Tem marcação, queriiiiida?
Por instantes, teve vontade de desatar a correr, fugindo daquele antro o mais depressa que as pernas lho permitissem. A razão prevaleceu: ninguém te está a ver. Limita-te a deixar-te ir na corrente. A vidente não pode ser pior do que “isto”.
- Não. Mas era tão importante ser atendida agora. Por favor, diga à Madame que é um caso de vida ou de morte.
- Queriiiiiida, Madame Vitória não abre excepções. Só com marcação…
- Que pena! É tão importanteeeeeeeee! O preço é irrelevante...
A relações-públicas da vidente pareceu hesitar. Inesperadamente, assumiu a forma de uma ave de rapina.
- Vai pagar com dinheiro ou com cheque, queriiida?
- Dinheiro, claro. A propósito, quanto é a consulta?
- Cinquenta euros sem rezas. Setenta com rezas e resultados mais que garantidos.

Ainda esteve tentada a pedir desconto, mas limitou-se a optar pelo serviço completo. Afinal, os fins justificavam os meios.
- Queriiiiida, entre para aquela sala e aguarde um momento.
O cubículo era ainda mais bizarro e soturno do que o hall. Não pôde, contudo, deixar de sorrir ao olhar para uma mesa redonda coberta com um pano lilás e tendo como acessório principal uma… bola de cristal. Em abono da verdade, parecia-se mais a um pisa-papéis, mas até as bolas de cristal, como os telemóveis, deviam estar em constante evolução - pensou. Aquela era, sem dúvida, um último modelo e… portátil.
A entrada de uma mulher de idade indefinida - as bruxas não têm idade, ou têm? - roupas extravagantes e garridas, rosto laranja-vivo e batom vermelho esborratado, interrompeu, subitamente, os seus pensamentos sobre os avanços da tecnologia.
Estava cara a cara com a Vitória. Durante um instante, na obscuridade da sala, ficaram a olhar, fixamente, uma para a outra, hipnotizadas, como um gato e um peixinho dourado.
De repente, uma voz cavernosa fez-se ouvir:
- Podes ir sossegada. Ele estava amarrado, mas já o desamarrei. Vai para casa e, em joelhos, à volta da cama, vais entoar cem vezes - Ele é amor! Ó!Ó!Ó!
Ele?! Em joelhos?! Óóóóó!?
- Desculpe, Madame Vitória, mas deve haver um pequeno engano. Eu só vim consultá-la para saber se a selecção vai ganhar o Mundial.
A megera não se deu por vencida.
- Volto a repetir-te: ele estava amarrado, mas já o desamarrei.
- Ele?! Mas… Madame Vitória… eu só… era só… o que me trouxe aqui não foi um ele… foi a selecção portuguesa… deve haver um pequeno equívoco…
- Ele! O Scolari!
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh! O Scolari estava amarrado… pois… mas agora já está desamarrado… claro… E o Raymond está bem amarrado? O Zidane também? E o Henri? E o Thuran?
A Vitória limitou-se a atravessá-la com um olhar típico dos alcoólicos anónimos da Al-Qaeda - intenso, profundo, glacial.
- Duvidas dos poderes de Madame Vitória? - contorceu-se a boca da vidente. O segredo está em manter os jogadores portugueses firmes e hirtos. E disso já se encarregou a minha mente com a ajuda dos espíritos.
Ainda se fosse com a ajuda do Ricardo - pensou. Para ser sincera começava a duvidar das qualidades da velhota relativamente a adjectivos tão… tão… específicos!? Mas… enfim… o poder do oculto é muito… oculto, não?!
- Agora sai! Sai e lembra-te - Quem joga contra a França ou perde ou avança!
Saiu, levando os“avançados” 70 euros bem atravessados na ala lateral esquerda. Aquele vaticínio - Quem joga contra a França ou perde ou avança! - tinha-a deixado em estado de grande penalidade. Grande Madame Vitória!

Bem, não fosse o Zidane tecê-las, o melhor seria ajoelhar-se e entoar cem vezes - Ele é amor! Óóóóóóó! A crendice dizia que sim. A razão dizia que não. O coração, esse, dizia-lhe que, se voltasse a roer as unhas, a dizer palavrões e a gritar que nem uma tolinha - Portugal iria ganhar. PORTUGAL VAI GANHAR! ( E, se não ganhar... firmes, hirtos, orgulhosos.)

A.R.

posted by digoeu @ 01:06   21 comments
Domingo, Julho 02, 2006
Palavras

(Mélodie des Mots - Artémis)

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
E saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
Para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
Em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
Para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
Roxas de silêncio. De que servem
Asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
As que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
As poderei navegar; se alguma vez
Dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
E faltam-me palavras para contar…

Egito Gonçalves
posted by romeo_angel @ 20:16   9 comments
Sábado, Julho 01, 2006
Força, Portugal!


Os jogadores por nós tão incitados,
Orgulho desta terra Lusitana
Fonte de feitos nunca imaginados,

Jogarão para além da força humana,
Com golos ou penaltis esforçados,
Com a persistência que de nós emana,
Contra os Ingleses a vitória alcançarão
Com engenho, bravura, glória e união!


Cale-se a voz de Eriksson, tão orgulhoso
Das façanhas e jogos já passados;
Cale-se a voz de Beckham tão famoso
Pelas vitórias e golos já marcados;
Que eu canto o peito luso glorioso,

Tendo a seus pés os ingleses dominados.
Cesse tudo o que a imprensa apregoar,

Que a selecção portuguesa vai ganhar!

A.R.

Nota: E se não ganhar... valeu pelo esforço. Obrigada, Felipão!
Ah... Camões que me perdoe o sacrilégio.
posted by digoeu @ 16:00  
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