folhasoltas
Terça-feira, Novembro 28, 2006
Escuta Amor...

escuta amor

talvez um dia
em que em mim já nada mais exista
te lembres de dois braços
que te abraçaram convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue
te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as...


Mário Henrique Leiria
posted by romeo_angel @ 19:51   14 comments
Quarta-feira, Novembro 22, 2006
Carência II


Da última vez que vimos o nosso homem, ele caminhava cabisbaixo e triste em direção a uma praça, enquanto Alice assistia-o da porta da casa. Ao chegar à praça sentou-se em seu banco preferido. Logo um bando de pombos pousou perto dele e esperou o milho que ele sempre trazia. As peripécias das aves não conseguiram animá-lo. Depois de alimentá-las caminhou em direção ao lago e, como fazia todas as manhãs, tirou um pãozinho que levava em um saco de papel e, picotando-o jogou os pedaços na água para alimentar os peixes. Não sentiu o mesmo prazer de antes. Deixou os peixes mordiscando o alimento e iniciou suas costumeiras cinco voltas na praça. Terminado o exercício sentou-se à sombra de uma grande árvore. À sua direita crianças faziam algazarras, supervisionadas por suas babás, que conversavam animadas. À sua esquerda uma roda de velhos amigos conversava barulhentamente. Incomodou-se com aquilo. Resolveu dar mais algumas voltas. Iniciou a jornada com as mãos nos bolsos e cabisbaixo. Ao chegar perto do lago dirigiu até sua margem. Viu sua imagem refletida na água. Lembrou-se do espelho, e, conseqüentemente, da Alice. “Que é isso agora”, disse para si mesmo enquanto balançava a cabeça negativamente. Voltou a caminhar. Viu um casal brincando como crianças num gramado. Os dois tinham a sua idade, aproximadamente. A alegria deles era contagiante. Parou para observá-los de longe. Quando caiu em si estava sorrindo. Retomou a caminhada, assim como o aspecto sombrio retomou seu rosto. Comparou sua vida com a do homem que vira brincando com sua amada. Veio-lhe à mente uma frase que ouvira num filme: “A gente se ocupa de viver ou se ocupa de morrer.” “Você está se ocupando de fazer o quê?” disse para si mesmo. Pensou novamente na Alice. “Se eu arriscar o que posso perder?” Tirou as mãos do bolso e voltou apressado para casa.
- Sabe onde usarei a camisa creme?
- Não senhor.
- Num jantar.
- Fico feliz pelo senhor.
- E eu ficarei feliz se você me acompanhasse. O que me diz?
- Mas... eu não esperava por isso e... não me sinto preparada.
- Ainda dá tempo de se preparar. Se você quiser pode voltar para casa agora. Até à noite há muito tempo ainda.
- E a Sophia?
- Leve-a também!
Alice saiu apressada em direção ao quarto para pegar suas coisas e “voar” para casa. Assim que fechou a porta atrás de si foi tomada pela emoção e as lágrimas banharam seu rosto. Dessa vez eram lágrimas de alegria. Se alguém a visse naquele momento ficaria confuso com sua expressão facial. Tentem mesclar mentalmente um rosto de riso e de choro. Assim estava Alice naquele instante.
As coisas aconteceram rápido demais. Os filhos receberam a novidade com bastante alegria. Assim como o pai, eles também gostavam muito da Alice. Que dizer da Sophia? Não cabia em si de tão feliz! Poucos dias antes do casamento, enquanto os noivos conversavam sobre os preparativos da recepção, ela abraçou Peter e disse:
- Logo, logo você vai ser meu pai!
- Sophia! Já não lhe disse que é para chamá-lo de senhor?
E o Peter soltou uma gargalhada gostosa, fazendo com que Sophia o acompanhasse. Vencida pela maioria, Alice se juntou aos dois . E sorria Peter; e sorria Sophia; e Sorria Alice! Não sei por quanto tempo os três ficaram sentados no tapete da sala e entrelaçados entre eles rindo, ou melhor, gargalhando de contentes!
A recepção foi maravilhosa. A alegria daquela recém formada família era tão poderosa que envolveu cada um dos presentes. Dizem que foi a festa mais feliz que já aconteceu em todo o planeta!
Alguns dias depois, quando os três passeavam no calçadão de uma cidade litorânea, depararam com uma agência de correio. Peter virou para Alice e perguntou:
- Está pensando o mesmo que eu?
- Exatamente a mesma coisa!
Entraram na agência e enviaram o seguinte bilhete:
Estimada amiga Ana Rodrigues:
Estamos eternamente gratos por seu pedido em nosso favor.
Saiba que este final feliz jamais aconteceria se não fosse por você.
Sua sensibilidade ficou evidente mais uma vez por este gesto tão gentil mesmo sendo a favor de personagens fictícios.
É verdade que existimos apenas na imaginação daqueles que lêem nossa história. Mas, por incrível que pareça, conseguimos, mesmo imaginários, ser eternos. Se daqui a mil anos alguém achar nossa história e a ler, seremos tão reais como somos agora. E ele ou ela saberá que o seu pedido mudou nossas vidas para sempre.
Eternamente gratos:
Peter
Alice
Sophia.

Roberto Policiano
posted by Roberto Policiano @ 16:39   7 comments
Sexta-feira, Novembro 17, 2006
Quase


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

.....................................
.....................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro
posted by Breakeven @ 21:49   11 comments
Segunda-feira, Novembro 13, 2006
Canto de amor


Amo meu pai
que me ensinou o silêncio
e a palavra certa

Amo minha mãe
que me ensinou o trabalho
e a coragem

Amo meu filho
que me ensinou o sentido
do riso e da alegria

Amo minha filha
que me ensinou a emoção
e a inutilidade do medo

Amo minha irmã
que me ensinou a servir
e a ultrapassar

Amo meus amigos
que me ensinaram a solidariedade
e a organização sistemática

Amo meus mestres
que me ensinaram a ver
e a pensar mais claro

Amo a morte
porque é um mistério
profundo e atraente

Amo a Deus
porque criou tudo isso
e em tudo se reflecte


Anna Maria Feitosa
posted by romeo_angel @ 19:23   4 comments
Terça-feira, Novembro 07, 2006
Carência


Era aposentado. Financeiramente levava uma vida tranqüila. É certo que tinha que usar seus recursos com uma certa parcimônia, mas estava contente com a sua porção. Era visitado pelos filhos e netos com uma freqüência razoável, embora desejasse que as visitas fossem mais amiúde. Enviuvara há sete anos. Nos dois primeiros anos fez questão de cuidar da casa ele mesmo, mas depois, cedendo às constantes insistências dos filhos, aceitou contratar a Alice para realizar os trabalhos domésticos. Enquanto tomava seu suco de laranja sua vida se desenrolou em sua mente como em uma retrospectiva. Lembrou dos bons e alegres tempos. Tossiu. Lembrou do xarope que ganhara do compadre Militão que, segundo o amigo, era tiro e queda. Voltou a pensar no tempo em que aquela casa era cheia de vida, quando os filhos ainda eram estudantes. O vazio e o silêncio de agora o desanimava. Já há algum tempo a solidão o incomodava. Às vezes sentia vontade de ser abraçado. Lembrou que, em algumas vezes, chegou a abraçar a si mesmo. Veio-lhe à memória também que, enquanto se auto-abraçava, beijava o próprio ombro. Outras vezes afagava seus cabelos ou acariciava seu rosto. Mas não era a mesma coisa. Faltava o compartilhamento do afeto.
Voltou a si. Terminou de tomar o suco. Olhou em direção à Alice, que naquele momento limpava a estante da sala. Tinha boas referências. Fora indicada por um conhecido de seu filho. No principio a recebeu sem muito entusiasmo. Pretendia livrar-se dela assim que convencesse os filhos disso. Acabou gostando dela. Seu jeito o agradava. Trabalhava para ele já por cerca de cinco anos. Tinha uma filha de oito anos, e, como era só ela e a filha, precisava do emprego. Algumas vezes levava-a para passar o dia com ela. O dono da casa não se incomodava, no fundo até gostava. Achava graça quando a menina o chamava de você e a mãe a repreendia dizendo que devia chamá-lo de senhor.
- Não se preocupe, Alice, eu não me importo.
- Mas ela precisa se dirigir aos mais velhos de forma respeitosa.
- Quem liga para isso hoje?
Ambos estavam satisfeitos, ela com o salário e ele com os serviços prestados.
Continuou sentado à mesa com o copo na mão. De repente passou a reparar melhor naquela mulher. Até que ela era bonita. Com uns cuidados a mais então!... Imaginou-a com os cuidados que pensara. Quem sabe se os dois... Levantou-se e caminhou em direção a ela no intuito de convidá-la para jantar fora. No caminho, um espelho, tal qual um amigo sincero, mostrou-lhe francamente que ele já era um sexagenário, ao exibir sem dó seus cabelos ralos e quase todos brancos, além das várias rugas que mapeavam seu rosto, e, portanto, muito velho para isso. O que ela podia pensar se ele tão somente se atrevesse a... Como um mero espelho pode ser tão cruelmente convincente! Alice pressentiu a proximidade incomum do patrão.
- Deseja mais alguma coisa?
- Eu... Será que você poderia passar minha camisa creme? Pretendo usá-la hoje à noite.
- Já está passada. Antes de sair deixo-a em sua cama.
- Obrigado! Vou sair um pouco agora. Preciso colocar em dia minha caminhada.
- Queria dizer mais alguma coisa?
- Não, Alice, era só isso, obrigado.
Caminhou em direção à porta da saída. Seu ouvido, já cansado, não captou um suspiro triste e profundo. Fazia um lindo dia, que ele o recepcionou com um sorriso melancólico. Caminhou rápido e cabisbaixo em direção à praça do local. Da porta de sua casa Alice o observou até perdê-lo de vista. Fechou a porta, secou algumas lágrimas com o avental, e voltou aos seus afazeres.

Roberto Policiano
posted by Roberto Policiano @ 14:27   7 comments
Quinta-feira, Novembro 02, 2006
Acróstico


Resistir-te é impossível.
Amar-te? Previsível.
Cada dia que passa,
Há sempre mais amor, que sinto com fervor,
Em mim. Em ti tudo cintila, tudo é doce harmonia.
Logo, sê sempre o anjo que me guia.

Carlos Filipe, nº 279, 10º J
Juana Mendes, nº 271, 10ºJ
posted by digoeu @ 20:03   10 comments
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