Não posso ir ao ensaio, esta noite, com o Clube de Teatro - informei, com ar de quem está a dar as últimas, a minha amiga/colega Maria José, responsável pelo grupo dos amantes - poucos - de teatro. Amiga, se estás doente, não vás! Eu levo os alunos e tudo se resolve - retorquiu a Zé, plagiando a minha tosse e as minhas lamúrias. Bonito! Está um frio de gelar os ossos… Esta tosse não anuncia uma noite em beleza… Mas não posso deixá-la ir sozinha… - pensei. Bom, também vou... No caso do ensaio não acabar por volta das 22.30, saio. Pode ser? - inquiri, ansiando sobreviver a tão pesado flagelo. A minha amiga sorriu, tossiu meia dúzia de vezes - estava, sem dúvida, a imitar-me, a safada - e profetizou : vai ser uma noite bem divertida, o analgésico ideal para gripes, tosse e… vontade de ficar em casa. Espertinha! Que auspiciosa terapia! - retorqui para os meus botões. Nove horas da noite. Frio capaz de fazer doer o coração e as gargantas mais debilitadas. Uma alma penada, eu, esperando a chegada da chefe e dos alunos. Ei-los! O ambiente, no interior do “autocarro,” contrastava com o ar gélido do exterior. Alegria. Risos. Calor. A motorista cantarolava e… tossia. Rua da Alegria - entoou a bem disposta! Rua da Alegria - repeti, condoída da minha fragilidade tússica. Não, não é aqui. É mais abaixo, logo a seguir à escola Augusto Gil - informou o porteiro, cronometrando o tempo da informação. E lá fomos nós, calcorreando a rua da Alegria, à procura da desejada sala de ensaios. É aqui! - gritou o Zé António, espreitando, imediatamente, pela caixa do correio. Pois é! - confirmei, espreitando, igualmente, através da dita abertura. Viste alguém? – perguntou a toda sorridente. Não. Vi uma secretária, sofás e uma porta de elevador. Será o cenário?! Vozes. Passos. Abre-se a porta. Cumprimentos da praxe. Beijinhos da praxe. Apresentações: professoras, alunos, actores e encenador. Sentamo-nos aqui? - indagou a bem-humorada, não reparando no meu olhar atónito. Sim, eu estava em estado de choque. Intoxicada. Gazeada por milhares e milhares de pontas de cigarro colocadas num não menos moribundo cinzeiro. Não. Vamos subir as escadas e visitar as nossas instalações - elucidou um dos actores. Afinal, aquilo era o hall! Esta é a nossa sala de estar! - esclareceu, gentilmente, outro dos actores. Sentem-se enquanto preparamos o ensaio. Era óbvio que se tratava de uma sala de estar. Copos, bebidas, bolachas, pontas de cigarro - tudo contribuía para dar um ar familiar, intelectual, boémio ao compartimento. Agora já consigo imaginar os esconderijos dos grupos terroristas - esclareci-me, atacada por uma nova área de tosse. A estreia - da tosse, obviamente - tinha sido à entrada, mal o meu nariz, garganta e pulmões deram de caras com o cinzeiro poluidor e a montanha de beatas. As beatas, efectivamente, são pouco fiáveis… dizem. O ensaio, apenas algumas cenas já que duas das actrizes estão com gripe, vai começar - anunciou, triunfal, o encenador, um sujeito com uma carismática armação Armani - tipo Onassis, topam? - blasé, iluminado q.b., espartilhado nuns jeans justíssimos e muito sugestivos. A peça é, também, da minha autoria. Escrevi-a em três dias, num retiro lá para o norte - explicou o talentoso. O homem é um génio - murmurou a minha amiga. Dramaturgo e encenador! Vamos, então, assistir ao ensaio. Fomos. Com um cenário daqueles é que a minha tosse não contava. Mal entrei, deparei-me com um… caixão aberto, tetricamente ornamentado com velas e velinhas. Não podia, realmente, ser uma noite mais divertida! Mortos, clones, namoradas, strippers… nada faltava naquele enredo surrealista e nortenho. Enquanto os actores representavam - e bem - o senhor encenador dava sonoras gargalhadas, acariciando, lentamente, o peito. O seu alter-ego funcionava às mil maravilhas. Sentia-se, por contágio, o delírio supremo: o criador gozando a sua obra. O escritor escutando, embevecido e maravilhado, as suas próprias palavras nascidas de uma gestação de três gloriosos dias. No final, e perante o mutismo dos alunos, o criador, quero dizer, o encenador perguntou - que sensações experimentaram perante estas poucas cenas, meus amigos?! Compreenderam que há uma espécie de desdobramento autor/personagens? A vossa opinião é muito importante para todos nós. Claro que o mais apoteótico é o final. Não vou contar-lhes, mas a peça termina com uma espécie de bacanal. Orgia. Bacanal?! Orgia?! Se o senhor prodígio acreditava na nossa insensibilidade ou estupidez perante a sua obra-prima, enganou-se redondamente. A abelha-mestra falou sabiamente; o Filipe, o João e o Zé mostraram não estar habituados a deixar os seus créditos por mãos alheias e até eu, a vítima lânguida de uma virose desconhecida, ensaiei uns quantos clichés que pairaram no ar daquele macabro cenário, mas que foram, violentamente, amordaçados por novo ataque de tosse. Já na rua, críticas e comentários. A palavra “orgia” tinha agradado aos rapazes. A Luísa, que durante o ensaio se mantivera queda e muda, parecia uma borboleta a quem o ar fresco da noite - o eufemismo e a comparação pretendem dar um toque literário a esta croniqueta - fizera sair do casulo. Entrada para o “autocarro”. Gargalhadas. Alegria . Patrulhamento policial - por muito pouco a nossa condutora não apanhou uma multa por excesso de carga. Paragens. Acompanhamentos domiciliários. Inversões de marcha. Uma noite irreverente, diferente, repleta de bom-humor. Tinhas razão, Zé, foi, decididamente, um óptimo bálsamo para rouquidões, tosse, constipações e uma dose elevada de preguicite aguda. Recomenda-se.
A alma cativa e obcecada enrola-se infinitamente numa espiral de desejo e melancolia. Infinita, infinitamente... As mãos não tocam jamais o aéreo objeto, esquiva ondulação evanescente. Os olhos, magnetizados, escutam e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa, está presa... Os tambores abafam a morte do Imperador.
A revolução começou! Liberdade, Igualdade, Fraternidade? Nada disso. O lema, agora, é: Complicar, Desmotivar, Avaliar e… ECONOMIZAR! Se, no tempo das trevas - sim, porque, presentemente, de tanto rigor, de tanta redundância, de tanta confusão passamos a ser, todos nós, uns iluminados rumo a essa vaga EXCELÊNCIA tão apregoada pelo governo - os alunos conseguiam acabar os seus estudos sem planos de apoio, sem grelhas de observação directa, sem projectos curriculares, sem estratégias de remediação feitas para remediar o impensável, ou seja, a falta de estudo, de trabalho e de motivação; se, no tempo em que éramos todos - os professores, obviamente - uma cambada de néscios, preguiçosos e incompetentes porque ainda tínhamos tempo para preparar aulas, dar atenção aos alunos e, o mais singular, conseguir ter uma vida familiar, a escola era um local de aprendizagem de saberes, competências e valores ( o conceito de escola = parque de estacionamento para as nossas crianças é relativamente recente); se, outrora, e na maior parte dos casos, uma simples chamada de atenção - chamemos-lhe sabedoria caseira - era suficiente para evitar comportamentos e atitudes menos correctos, sem necessidade de desgaste emocional, processos disciplinares graves, gabinetes do aluno, visitas ao gabinete de psicologia - reconheço, actualmente, a sorte que tive, enquanto aluna, já que um ou outro berro, uma ou outra interpelação mais “expressiva” não deixaram em mim vestígios de traumas, fobias e outros desajustes que tais relativamente à escola; enfim, se lográmos todos - alunos de outras gerações - sobreviver a um ensino/aprendizagem que requeria estudo, trabalho e responsabilidade, por que razão, interrogo-me, o insucesso escolar aumenta - ou é, ardilosamente, escamoteado - a ignorância cria raízes, a desresponsabilização prolifera e inequivocamente, os intervenientes de toda esta saga - professores e alunos - se apresentam, cada dia que passa, mais desmotivados e cansados?! Temo que estejamos a bater no fundo. E o pior, meus amigos, é que todo este leque de erros, perdão, inovações começa a infiltrar-se, tacitamente, em alguns de nós. O bom senso começa a escapar-se das nossas escolas. O medo - não deturpemos as coisas. O medo, sim - e a tal obsessão pela EXCELÊNCIA ganham eco. Entrámos numa nova era - a do fogo-fátuo. Vejo, com apreensão, alguns colegas - seguidores fidedignos do poder - cumprirem, à risca, tudo o que a Senhora Ministra se lembra de fantasiar e os Senhores Inspectores - não menos à risca - se lembram de aconselhar/ordenar. Comecemos pelos dossiers. Professor que se preze nunca deverá ter uma pasta sem, pelo menos, 5 kg de papelada. Tudo serve: planificações a curto, médio e longo prazo; estratégias relativas ao passado, ao presente e ao futuro dos alunos; planos de apoio - ainda que o aluno não venha a recebê-lo; estratégias a adoptar; remediações para as estratégias adoptadas; plantas, actualizadas, da sala de aulas; plantas, a actualizar, da sala de aulas; grelhas de avaliação; grelhas para avaliar as grelhas de avaliação; gráficos, muitos gráficos; actas controladas ao milímetro; actas medidas ao quilómetro. Passemos, de seguida, às reuniões. Há de tudo e para todos os gostos. Docente a caminho da excelência deve, no mínimo, reunir todos os dias. Já os professores titulares serão obrigados, digo eu, a reunir todos os dias e... todas as noites. É justo! Um título arrasta consigo responsabilidade, obrigações e... insónias. Ainda se arrastasse tesouros... Só falta pedirem-nos uma grelha com objectivos, conteúdos, actividades, materiais/suportes - aqui até mesmo a imaginação mais criativa, penso, terá alguma dificuldade de renovação - e calendarização sempre que um de nós necessitar de ir ao WC. Seremos uns sortudos se, na tal grelha, não constar - AVALIAÇÃO! Perdoem-me o desabafo, mas dá mesmo vontade de perguntar - com tanta papelada, tanta reunião, tanta comissão - é sempre prova de excelência fazer, pelo menos, parte de duas - tanta tolice, tanto desconcerto, onde fica o tempo para sermos, na verdadeira acepção da palavra, professores?! Alguém saberá, por acaso, responder a esta duvidazita de uma professora não excelente e não titular?
A.R.
Cara amiga Ana
Não sei nem tenho jeito para a escrita, mas cá vai uma palavra simples que reflecte o que me alvoroça neste momento.
Sei bem o que é estar frustrado, maltratado, ignorado no que toca ao nosso profissionalismo e dedicação do dia-a-dia profissional, etc., etc., etc.. Não será com a " nossa ida ao tapete " que vamos responder de forma eficaz, mas temos que manter a cabeça fria para pensar e sobreviver no meio de tudo isto.
Quando era mais pequeno, julgava conseguir mudar o mundo. Hoje, sei que não consigo porque o Mundo estará nas mãos dos assaltantes do poder, enquanto nós não estivermos dispostos a ir para lá cumprir, de forma correcta e melhor, com as nossas obrigações totais. Apesar disto, também não me conformo nem acomodo, mas já tentei dar o meu contributo partidário. É uma mafia total e eu vim embora para não ser igual. Não foi cobardia! Foi seriedade, honestidade, etc..
No meio de tudo o que vejo e no meio da tua " raiva incontida " - que eu compreendo na descrição do teu bom texto - encontro a minha tranquilidade e paz de espírito por forma a ter a certeza de que não devemos perder a nossa lucidez e, muito menos, dar o que temos de melhor pelo egoísmo de alguns energúmenos e assaltantes diversos.
Em tempos, uma amiga dizia-me que " Quando as couves nascem são para todos " e eu, depois de muita conversa, disse-lhe que era verdade, mas com um pequeno acrescento do tipo - " Quando as couves nascem são para todos os que as plantam " . Ficou muito ofendida e foi à vida dela conversar com o António Gedeão. Nunca mais disse nada. É pena eu hoje pensar assim. Foram os outros que me " melhoraram " a postura. " Aprendi ".
Fartei-me de plantar couves para os outros e, por vezes, fiquei sem comer. Ninguém se importou. Sem forças, tive que as plantar para mim. Ninguém me ajudou. Aprendi a caminhar no meio da " selva ", pois aprendi a manter a cabeça fria na maior parte das vezes. Só assim consigo controlar esta minha ansiedade como diz o cantor António Variações.
É importante tudo isto para sermos capazes de não nos deixarmos cegar com as fogueiras dos pretensiosismos diversos dos outros. Esses pretensiosismos com que nos tentam queimar.
O tempo é bom conselheiro. Lutemos na vida, mas de olhos abertos. Desafiemos os idiotas e todos os abutres, no dia-a-dia, com a qualidade do nosso trabalho e sem permitir que dela tirem dividendos para si. Esses, terão que ser nossos. Assim venceremos. Não é para nos suplantarmos aos outros, mas para vivermos com a dignidade que os outros nos tentam tirar. Sei que é difícil, porém é bom tentar, pois saborearemos a vitória final.
Lembra-te do seguinte : para mim, a vida é um longo somatório. Quanto melhor for esse somatório, melhor ela será. Elimina os erros e os pontos negativos.
Nunca esqueças que para saborear o sol temos que saber apreciar a chuva. Quanto a esta, usa o guarda-chuva. Quanto ao sol, vai para a praia na sua companhia e deixa-te ser saboreada por ele na paz do bem e da tranquilidade, na companhia da tua toalha. Só assim conseguirás forças para dar aos teus alunos o que eles esperam e merecem de ti. Isto sim, isto é viver e eu posso dizer-te, como escreveu Pablo Neruda - Confesso que, até hoje, vivi!
Por agora, deste coleccionador, calma. Um beijinho. Continua.
A praia que descobri tem um fundo azul! É lá longe, na ilha Tartaruga, mas não está deserta! Está cheia de palavras, palavras simples e frondosas, palavras que servem para aquecer os rostos da monotonia, da vida, quem sabe? Sento-me (imagino...) na cadeira improvisada, feita de ramos esquecidos pelas ondas da praia e olho à minha volta, olho o horizonte e não vejo o barco salvador, nem ouço o ruído da aeronave que me procura ( julga que estou perdido!!!). Só vejo rostos, só vejo palavras sobre o fundo azul, só vejo os amigos, é tudo o que tenho, é tudo o que preciso, lá longe na Ilha Tartaruga!!!
Entrar num hospital, onde, por vezes, Deus parece demasiado alto e ausente, é uma espécie de encontro com as linhas da vida e da morte. Tão subjectiva e ilusória a fronteira que as separa. Tão pouca a distância entre esperanças e descrenças, dúvidas e certezas. Tão frágil o fio que nos sustenta. Tão supérfluos os temores, o fogo-fátuo, a crueza do gesto, os rios de silêncio face ao que nos transcende. Confrontei-me, ontem, ao visitá-la, com um emaranhado de dúvidas, interrogações, debilidades latentes que me confrangem e desnorteiam. Não é possível repetir o irrepetível, sei-o. Contudo, essa atitude face a uma doença que, inexoravelmente, a condena, essa serena lucidez perante o confronto - que cremos sempre antecipado - com a morte, desconcertaram-me. Confesso, com alguma amargura, que receio não ter essa íntima e plena certeza quando me confrontar com as brumas que ateiam a ausência, o esquecimento, o nada. Não possuo essa grandeza maior perante o destino que deve cumprir-me. Essa capacidade de me elevar, assumindo a minha pequenez. Essa tranquila disponibilidade para a verdade única de que somos detentores. Seja o que Deus quiser! - disse-me, no final da visita. Vão operar-me, terça-feira, e só tenho um pedido a fazer-lhe - reze por mim! Rezarei, Fátima.
A incerteza cai com a tarde no limite da praia. Um pássaro apanhou-a, como se fosse um peixe, e sobrevoa as dunas levando-a no bico. O seu desenho é nítido, sem as sombras da dúvida ou as manchas indecisas da angústia. Termina com a interrogação, os traços do fim, o recorte branco de ondas na maré baixa. Subo a estrofe até apanhar esse pássaro com o verso, prendo-o à frase, para que as suas asas deixem de bater e o bico se abra. Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.