folhasoltas
Domingo, Fevereiro 25, 2007
roteiro

(feminaweb.free.fr)

em cada passo desenho nova viagem
onde o desejo se perde de infinito
mas na carícia acesa da miragem
em ti me fico

navego assombros de mim a mim
nos mares mistério em que me fito
mas na ânsia voo que me adivinho
em ti me fico

quebro os limites que me rodeiam
mato o silêncio em livre grito
mas no verde gesto da partida
em ti me fico


A.R.
posted by digoeu @ 16:20   8 comments
Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
(Ir)realidades

O silêncio da sala era apenas quebrado pelo bater compassado do relógio de parede. Um relógio austero que assinalava, há muitas gerações, o deslizar do tempo. Vários cadeirões e sofás de veludo, reposteiros de uma verticalidade severa, quadros a óleo, estantes carregadas de livros e uma escrivaninha eram presenças que, ao longo dos anos, tinham adquirido a paciência de quem dispõe de todo o tempo do mundo. Sobre a escrivaninha repousavam fotografias e uma esguia jarra com uma rosa. Uma pequena moldura, no entanto, parecia ser o centro da sala. Era o rosto luminoso de uma mulher jovem, olhar intenso reclamando vida, sorriso aberto e feliz. Um rosto, detentor da imortalidade, desafiando o silêncio espesso e duro da morte.
As pancadas cansadas de uma bengala amorteceram, por momentos, o pêndulo enclausurado do velho relógio. Mas, de imediato, o tempo, esquivo e flutuante, recuperou o seu poder. Um vulto carregado de memórias curvou-se sobre as fotografias, transportando, delicadamente, para perto de uns olhos plissados de rugas a moldura com o rosto da mulher de sorriso ingastável. Encontro com a solidão e saudade deixadas pela morte? Fusão de sentires perpetuados no deslumbramento do desejo do que nunca mais poderá ser? Talvez o eco do passado emergindo real no presente. O ontem e o hoje entrelaçados.
Uma mão trémula e comovida colocou, de novo, a fotografia, no centro do crepúsculo da sala, arrastando-se, de seguida, para um dos sofás. O silêncio e uma luz cada vez mais débil coavam-se numa semi-obscuridade. Aos poucos, as mãos abandonaram-se à inércia do sono enquanto os olhos, embalados pelo movimento transitório do pêndulo e pelas nostalgias da memória - as recordações adormecidas não doem - se deixavam conduzir até um lugar sem tempo e sem idade.
O sorriso da mulher da fotografia velava.

A.R.
posted by digoeu @ 20:52  
Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007
Máscara

Dá-me a máscara
Aquela que quiseres que eu use
Conduz-me pelo salão na dança
Hoje é hora de viver a fantasia

Diz-me o que sou
Columbina ou princesa adormecida
Vou transformar-te em triste Pierrot
Ou príncipe que dá vida num só beijo

Diz que é o fim
E logo a máscara terá que cair
Ao olhar-te serás tu a fantasia
Realidade sonhada dos meus dias


(retirado da net, desconheço o autor)
posted by Angel @ 14:49   6 comments
Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007
Carta de Amor

Minha adorada Mary:

Que sejas abençoada para sempre, por tudo de bom que me tens dado.
Sempre que conversas comigo, sinto uma dor deliciosa no meu coração.
Apontas-me sempre o topo da montanha, e dizes:"Quando chegará Kahlil ali?" Cada vez que o dizes, escuto por detrás das tuas palavras, uma outra voz dizer:"Eu gostaria que Kahlil chegasse ali amanhã".
É bom saber que a montanha possui um topo. Melhor ainda é saber de que a sua bem-amada o quer ver ali amanhã.
A minha vida é apenas um conjunto de notas musicais que o teu coração transforma em melodia.
Que sejamos sempre capazes de viver tudo o que há de mais sagrado em cada instante,
Com todo o amor,

Kalhil


(Última carta de Kahlil Gibran escrita a Mary Haskell)
posted by Angel @ 20:39   12 comments
Sábado, Fevereiro 10, 2007
destilar a vida


O dia deu em chuvoso. O sol tão
promissor,
a luz tão esplendidamente
radiosa,
e, subitamente, disformes nuvens, chuva,
escuridão.
Assim a vida. Dias de alvo linho,

risos à solta justificando o
paraíso.
De rompante, gélida neblina, o inverno, o
pranto.
A vida? Uma vista rasgada sobre o mar.
Ventos aprazíveis. Um gesto de
triunfo.
A vida? Coisa pouca, coisa nenhuma.
Vontade deleitada de
ficar.
Vontade magoada de
partir.
Terra sonhada, pico inacessível,
veleiro,
prisão,
meio caminho entre o
abrir,
fechar
o coração.

O sol tão promissor, e o dia deu em chuvoso.
A vida? Frágil fio de espuma escoando-se
por entre a pontualidade
inalterável do
não ser
e o halo, sempre adiado, de um há-de
ser.

A.R.
posted by digoeu @ 12:36   3 comments
Terça-feira, Fevereiro 06, 2007
Do ver, do ouvir, do falar e do tocar


Igreja do Bonfim, festa de Santa Clara. Barracas, fanfarra, animação.
A razão da nossa presença - minha e da Sónia - naquele lugar? O facto de uma amiga ter, subitamente, falecido e de, naquele sábado, se celebrar a missa de sétimo dia.
Mal nos deparámos com aquele arraial, pensámos - Não é aqui. Estamos, com certeza, enganadas.
No entanto, não seria provável que a informação dada pelo José Almeida estivesse incorrecta. Como a alegria de uns pode ser a tristeza de outros! Festa, foguetes, euforia contrastando com a mágoa, a saudade e as lágrimas daquele ritual fúnebre.
Ainda que receosas, entrámos. A presença do Zé e da família serenou as nossas dúvidas. Era aquela a igreja, era aquela a missa. Já sentadas, algo chamou, de imediato, a nossa atenção. O padre tinha uma pronúncia assaz… curiosa. Atordoadas, tentámos concentrar-nos na missa em memória da nossa amiga. De repente, a voz do pregador elevou-se e, entre espanto e espanto, ouvimos – “… porque Moijés era gago… “.
Moisés era gago??? – perguntou-me, perplexa, mal contendo o riso, a Sónia.
Reprimindo uma sonora gargalhada, respondi – Nunca li nem ouvi tal coisa. Se sofria de gaguez, o tempo que o profeta demoraria a ler os dez mandamentos…
A divertida Sónia evitava olhar para mim. Eu, receando não poder conter o riso, esfregava o rosto com as mãos. Um cavalheiro sentado perto de mim, dando uma dolorosa interpretação à minha tentativa de ocultar o rosto, interpelou-me, condoído - É da família do defunto?
Do defunto?! Não, balbuciei, enquanto, pela centésima vez, olhava para a biqueira dos sapatos e pedia perdão à amiga que, tão cedo, nos deixara. Afinal, compreendi, havia, ali, várias famílias a rezar pelos entes queridos.
O sermão continuava. A pronúncia, os gestos eloquentes - se estivéssemos na véspera do Apocalipse, os braços não se elevariam tão desesperadamente ao céu - tudo parecia conjugar-se a favor da nossa desatenção.
“… por isso, meuz irmãoss, olhos para vere, ouvidoss para escutare, boca para falare e mãoss para tocare…” – apregoou o santo homem.
Era preciso ser de ferro. Não ver, muito menos ouvir tão hilariante oratória.
A Sónia ajoelhara-se, procurando disfarçar sorrisos desapropriados. De tanto morder os lábios, eu, para reprimir o riso, tinha os olhos humedecidos de lágrimas. No entretanto, o senhor do lado pousara-me a mão no ombro - num gesto cheio de piedade cristã. Senti-me pecadora entre santos.
E o bom do cura continuava a lançar pérolas a ingratas…
“ Não quero masçar-vos, irmãosss, masz volto a repetire - olhoss para vere, ouvidoss para escutare, boca para falare e mãoss para tocare…”
A verdade é que, quais fariseus a serem expulsos do templo, não conseguíamos já esconder uns esgares mais ou menos burlescos. A nossa amiga não merecia um tal desrespeito. Porém, consolava-nos a ideia de que ela, divertida com o bizarro da situação, estaria a pensar - Aquelas duas não têm emenda!
Quase no final da missa, e para terminar em glória, o servo do senhor anunciou - Avijo oss paroquianoss de que vão abrire as inscrixões para a catequeje. Amanhã, dia de Santa Clara, continuarão as festividadess. Actuará a banda dos bombeiros de Campanhã, haverá comess e bebess com sumoss e águass gajeificadass, masz as bebidass alcoólicas estão proibidass.
Não havia pia alma que resistisse. Saímos, apressadamente, da igreja, sob o olhar protector do meu santo vizinho.
Pouco depois, no adro, dados os pêsames - sentidos - à família da nossa amiga, aguardámos a chegada do poeta. Seria impossível não lhe narrar o nosso - pouco correcto - comportamento. Face à narrativa da Sónia, o Zé Almeida sorriu - quem não ficaria contagiado com a fala da minha amiga copiando a pronúncia do cura? - e acrescentou: O que vocês ouviram foi o sermão um; amanhã, será o sermão dois. Aliás, só existem esses.
Que dizer?!
Guardo, desde aquela missa, as palavras sapientes - Olhos para ver; ouvidos para ouvir; boca para falar e mãos para tocar!
Meu Deus, eu vejo. Eu ouço. Eu falo. Nem sempre toco...

A.R.
posted by digoeu @ 21:37   20 comments
Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007
A Nigrim
Nigrim escreveu um livro que não tem qualquer jeito;
Comprei, mesmo sabendo que a obra era mazinha.
Nigrim, desta maneira, tirou duplo proveito:
Da parvoíce dele, e bem assim da minha!

Cincinat Pavelescu
posted by digoeu @ 20:33  
Sábado, Fevereiro 03, 2007
Do ver, do ouvir, do sentir


Não vi nada, não ouvi nada! - fora assim, de forma inesperada, que lhe chegara a afirmação. Carregada de rancores. Prenhe de subtilezas. Se descontextualizada, simulava uma frase inocente, inócua, amiga. Inserida num determinado contexto, ocultava atalhos, insinuações, maldade. O branco oferecendo-se transparente? Não. O obscuro que se apresentava branco. E, subitamente, a raiva deflagrando, o pudor desaparecendo, o fruto apodrecendo.
Afinal, que poderia ter visto ou ouvido aquela alma amarga e ressequida? - interrogava-se, incrédula. Entre as várias epidemias que corroem o ser humano, a falta de respeito pelos outros é, sem dúvida, mentor. Com que impune liberdade algumas pessoas, tontas de arrogância e de cegueira, proclamam ambíguas "verdades" veiculadas por palavras que fluem raivas, prepotências, insensatez e um sabor acre pela vida? Que válida razão lhes permite reivindicar o direito de atear mistificações, vexames, juízos trespassados de arrevesadas intenções? Contudo, começava a estar vacinada contra a vocação histérica de alguns. Deixa que formiguem, não é grave - dizia-lhe, sabiamente, uma amiga. Não, não era grave. Era apenas lamentável. Parecia-lhe ouvir as palavras do médico - A escolha é sua: esconder-se num subterrâneo de medos ou desvendar a cor da vida; fechar-se numa teia de cepticismo ou abrir caminho ao desafio. Se algo ou alguém , num crudelíssimo jogo de massacre, tenta empuurrá-la para a quietude negra do nada, resista, lute.
Resistira. Lutara. Apesar das fragilidades inerentes ao ser humano, apesar dos erros - ou por causa deles - optara por cuidar da vida, por merecê-la. Tudo o mais deixara de a magoar, de fazer sentido. Tudo o mais era ruído. Não ver, não ouvir - sobretudo quando não se é cego ou surdo - deve ser uma terrível fatalidade, um enorme vazio - pensava. Não ver a beleza de um sorriso, não ouvir o som de uma palavra impregnada de mil matizes era não pertencer a ninguém, não estar em lugar nenhum. Pobre da autora da frase que não conseguia entender que, frequentemente, o mal que provocamos é bem menor do que aquele que sofremos.
Ainda bem que - compreendendo que também se morre de indecisão e de inércia - ela se propusera sacudir a poeira dos olhos e da alma.
E via. E ouvia. E sentia.

A.R.
posted by digoeu @ 00:01  
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