O silêncio da sala era apenas quebrado pelo bater compassado do relógio de parede. Um relógio austero que assinalava, há muitas gerações, o deslizar do tempo. Vários cadeirões e sofás de veludo, reposteiros de uma verticalidade severa, quadros a óleo, estantes carregadas de livros e uma escrivaninha eram presenças que, ao longo dos anos, tinham adquirido a paciência de quem dispõe de todo o tempo do mundo. Sobre a escrivaninha repousavam fotografias e uma esguia jarra com uma rosa. Uma pequena moldura, no entanto, parecia ser o centro da sala. Era o rosto luminoso de uma mulher jovem, olhar intenso reclamando vida, sorriso aberto e feliz. Um rosto, detentor da imortalidade, desafiando o silêncio espesso e duro da morte. As pancadas cansadas de uma bengala amorteceram, por momentos, o pêndulo enclausurado do velho relógio. Mas, de imediato, o tempo, esquivo e flutuante, recuperou o seu poder. Um vulto carregado de memórias curvou-se sobre as fotografias, transportando, delicadamente, para perto de uns olhos plissados de rugas a moldura com o rosto da mulher de sorriso ingastável. Encontro com a solidão e saudade deixadas pela morte? Fusão de sentires perpetuados no deslumbramento do desejo do que nunca mais poderá ser? Talvez o eco do passado emergindo real no presente. O ontem e o hoje entrelaçados. Uma mão trémula e comovida colocou, de novo, a fotografia, no centro do crepúsculo da sala, arrastando-se, de seguida, para um dos sofás. O silêncio e uma luz cada vez mais débil coavam-se numa semi-obscuridade. Aos poucos, as mãos abandonaram-se à inércia do sono enquanto os olhos, embalados pelo movimento transitório do pêndulo e pelas nostalgias da memória - as recordações adormecidas não doem - se deixavam conduzir até um lugar sem tempo e sem idade. O sorriso da mulher da fotografia velava.
Que sejas abençoada para sempre, por tudo de bom que me tens dado. Sempre que conversas comigo, sinto uma dor deliciosa no meu coração. Apontas-me sempre o topo da montanha, e dizes:"Quando chegará Kahlil ali?" Cada vez que o dizes, escuto por detrás das tuas palavras, uma outra voz dizer:"Eu gostaria que Kahlil chegasse ali amanhã". É bom saber que a montanha possui um topo. Melhor ainda é saber de que a sua bem-amada o quer ver ali amanhã. A minha vida é apenas um conjunto de notas musicais que o teu coração transforma em melodia. Que sejamos sempre capazes de viver tudo o que há de mais sagrado em cada instante, Com todo o amor,
Kalhil
(Última carta de Kahlil Gibran escrita a Mary Haskell)
O dia deu em chuvoso. O sol tão promissor, a luz tão esplendidamente radiosa, e, subitamente, disformes nuvens, chuva, escuridão. Assim a vida. Dias de alvo linho, risos à solta justificando o paraíso. De rompante, gélida neblina, o inverno, o pranto. A vida? Uma vista rasgada sobre o mar. Ventos aprazíveis. Um gesto de triunfo. A vida? Coisa pouca, coisa nenhuma. Vontade deleitada de ficar. Vontade magoada de partir. Terra sonhada, pico inacessível, veleiro, prisão, meio caminho entre o abrir, fechar o coração.
O sol tão promissor, e o dia deu em chuvoso. A vida? Frágil fio de espuma escoando-se por entre a pontualidade inalterável do
Igreja do Bonfim, festa de Santa Clara. Barracas, fanfarra, animação. A razão da nossa presença - minha e da Sónia - naquele lugar? O facto de uma amiga ter, subitamente, falecido e de, naquele sábado, se celebrar a missa de sétimo dia. Mal nos deparámos com aquele arraial, pensámos - Não é aqui. Estamos, com certeza, enganadas. No entanto, não seria provável que a informação dada pelo José Almeida estivesse incorrecta. Como a alegria de uns pode ser a tristeza de outros! Festa, foguetes, euforia contrastando com a mágoa, a saudade e as lágrimas daquele ritual fúnebre. Ainda que receosas, entrámos. A presença do Zé e da família serenou as nossas dúvidas. Era aquela a igreja, era aquela a missa. Já sentadas, algo chamou, de imediato, a nossa atenção. O padre tinha uma pronúncia assaz… curiosa. Atordoadas, tentámos concentrar-nos na missa em memória da nossa amiga. De repente, a voz do pregador elevou-se e, entre espanto e espanto, ouvimos – “… porque Moijés era gago… “. Moisés era gago??? – perguntou-me, perplexa, mal contendo o riso, a Sónia. Reprimindo uma sonora gargalhada, respondi – Nunca li nem ouvi tal coisa. Se sofria de gaguez, o tempo que o profeta demoraria a ler os dez mandamentos… A divertida Sónia evitava olhar para mim. Eu, receando não poder conter o riso, esfregava o rosto com as mãos. Um cavalheiro sentado perto de mim, dando uma dolorosa interpretação à minha tentativa de ocultar o rosto, interpelou-me, condoído - É da família do defunto? Do defunto?! Não, balbuciei, enquanto, pela centésima vez, olhava para a biqueira dos sapatos e pedia perdão à amiga que, tão cedo, nos deixara. Afinal, compreendi, havia, ali, várias famílias a rezar pelos entes queridos. O sermão continuava. A pronúncia, os gestos eloquentes - se estivéssemos na véspera do Apocalipse, os braços não se elevariam tão desesperadamente ao céu - tudo parecia conjugar-se a favor da nossa desatenção. “… por isso, meuz irmãoss, olhos para vere, ouvidoss para escutare, boca para falare e mãoss para tocare…” – apregoou o santo homem. Era preciso ser de ferro. Não ver, muito menos ouvir tão hilariante oratória. A Sónia ajoelhara-se, procurando disfarçar sorrisos desapropriados. De tanto morder os lábios, eu, para reprimir o riso, tinha os olhos humedecidos de lágrimas. No entretanto, o senhor do lado pousara-me a mão no ombro - num gesto cheio de piedade cristã. Senti-me pecadora entre santos. E o bom do cura continuava a lançar pérolas a ingratas… “ Não quero masçar-vos, irmãosss, masz volto a repetire - olhoss para vere, ouvidoss para escutare, boca para falare e mãoss para tocare…” A verdade é que, quais fariseus a serem expulsos do templo, não conseguíamos já esconder uns esgares mais ou menos burlescos. A nossa amiga não merecia um tal desrespeito. Porém, consolava-nos a ideia de que ela, divertida com o bizarro da situação, estaria a pensar - Aquelas duas não têm emenda! Quase no final da missa, e para terminar em glória, o servo do senhor anunciou - Avijo oss paroquianoss de que vão abrire as inscrixões para a catequeje. Amanhã, dia de Santa Clara, continuarão as festividadess. Actuará a banda dos bombeiros de Campanhã, haverá comess e bebess com sumoss e águass gajeificadass, masz as bebidass alcoólicas estão proibidass. Não havia pia alma que resistisse. Saímos, apressadamente, da igreja, sob o olhar protector do meu santo vizinho. Pouco depois, no adro, dados os pêsames - sentidos - à família da nossa amiga, aguardámos a chegada do poeta. Seria impossível não lhe narrar o nosso - pouco correcto - comportamento. Face à narrativa da Sónia, o Zé Almeida sorriu - quem não ficaria contagiado com a fala da minha amiga copiando a pronúncia do cura? - e acrescentou: O que vocês ouviram foi o sermão um; amanhã, será o sermão dois. Aliás, só existem esses. Que dizer?! Guardo, desde aquela missa, as palavras sapientes - Olhos para ver; ouvidos para ouvir; boca para falar e mãos para tocar! Meu Deus, eu vejo. Eu ouço. Eu falo. Nem sempre toco...
Nigrim escreveu um livro que não tem qualquer jeito; Comprei, mesmo sabendo que a obra era mazinha. Nigrim, desta maneira, tirou duplo proveito: Da parvoíce dele, e bem assim da minha!
Não vi nada, não ouvi nada! - fora assim, de forma inesperada, que lhe chegara a afirmação. Carregada de rancores. Prenhe de subtilezas. Se descontextualizada, simulava uma frase inocente, inócua, amiga. Inserida num determinado contexto, ocultava atalhos, insinuações, maldade. O branco oferecendo-se transparente? Não. O obscuro que se apresentava branco. E, subitamente, a raiva deflagrando, o pudor desaparecendo, o fruto apodrecendo. Afinal, que poderia ter visto ou ouvido aquela alma amarga e ressequida? - interrogava-se, incrédula. Entre as várias epidemias que corroem o ser humano, a falta de respeito pelos outros é, sem dúvida, mentor. Com que impune liberdade algumas pessoas, tontas de arrogância e de cegueira, proclamam ambíguas "verdades" veiculadas por palavras que fluem raivas, prepotências, insensatez e um sabor acre pela vida? Que válida razão lhes permite reivindicar o direito de atear mistificações, vexames, juízos trespassados de arrevesadas intenções? Contudo, começava a estar vacinada contra a vocação histérica de alguns. Deixa que formiguem, não é grave - dizia-lhe, sabiamente, uma amiga. Não, não era grave. Era apenas lamentável. Parecia-lhe ouvir as palavras do médico - A escolha é sua: esconder-se num subterrâneo de medos ou desvendar a cor da vida; fechar-se numa teia de cepticismo ou abrir caminho ao desafio. Se algo ou alguém , num crudelíssimo jogo de massacre, tenta empuurrá-la para a quietude negra do nada, resista, lute. Resistira. Lutara. Apesar das fragilidades inerentes ao ser humano, apesar dos erros - ou por causa deles - optara por cuidar da vida, por merecê-la. Tudo o mais deixara de a magoar, de fazer sentido. Tudo o mais era ruído. Não ver, não ouvir - sobretudo quando não se é cego ou surdo - deve ser uma terrível fatalidade, um enorme vazio - pensava. Não ver a beleza de um sorriso, não ouvir o som de uma palavra impregnada de mil matizes era não pertencer a ninguém, não estar em lugar nenhum. Pobre da autora da frase que não conseguia entender que, frequentemente, o mal que provocamos é bem menor do que aquele que sofremos. Ainda bem que - compreendendo que também se morre de indecisão e de inércia - ela se propusera sacudir a poeira dos olhos e da alma. E via. E ouvia. E sentia.