Sempre receou abrir os olhos e nada ver. Assim, ajusta-se a um espaço de limitado horizonte, a uma ausência de voo, a emoções garantidas, débeis, distraídas. Ajusta-se, não desistindo de avançar. E enquanto acende gestos quotidianos, pressente ventos. Adivinha marés. Rasga limites. A vida pode acomodar-se ao quase nada. Ao semi-adormecido. A noites dilatadas de exílio. A manhãs imóveis. A alma, porém, exige mastros. Bebedeiras de azul. Respiração da luz. Não ousa estremecer a paisagem que a circula. Mas enquanto se apaga na monotonia do repetido, diz a si mesma que, para lá da fachada cinzenta que a suspende, deve existir uma primavera sem taipais. Bom, é já um começo.
Não se perdeu nenhuma coisa em mim. Continuam as noites e os poentes Que escorreram na casa e no jardim, Continuam as vozes diferentes Que intactas no meu ser estão suspensas. Trago o terror e trago a claridade, E através de todas as presenças Caminho para a única unidade.
A esperança adquire-se. Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de uma longa paciência. Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a
Georges Bernanos
Cada criança, ao nascer, traz-nos a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança nos homem.
Tagore
A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.
A conversa estava animada, divertida - como sempre, aliás. O tema tinha a ver com a Corrida da Mulher de 2007. É certo que, mal começa a aproximar-se o bom tempo, o país, no feminino, começa, de uma forma obsessiva-compulsiva, a preocupar-se com a forma, tentando desabrochar, alisar e muscular o que, durante o Inverno, secou, plissou, amanteigou. Neste caso, porém, os motivos da corrida distanciavam-se do tonto - mas sempre eterno - desejo de copiar as beldades dos anúncios publicitários. Solidariedade e incentivo à prática desportiva eram a base de sustentação daquela generosa iniciativa. Voltemos, contudo, à hilariante palestra. Os “a favor” eram unânimes. As mulheres inscritas, uma mistura de Jeanne d’Arc e Marie Antoinette, aplaudidas com admiração e entusiamo. A certa altura, um dos intervenientes - dono de um acutilante espírito crítico e de uma simpatia imbatível, perguntou-me: - Já estás inscrita? Um acontecimento destes requer uma participação em massa… Tartamudeando, tentei desculpar-me com os clichés habituais - Sim, alguém me tinha inscrito… No entanto, a ausência de uma rotina de exercício físico… o não possuir, no momento, fato de treino - ocultando que uma amiga já me tinha emprestado dois - uma pertinaz alergia à chuva e o receio de que o meu desastrado coração - tão frequentamente sujeito a "hiperventilações" - não aguentasse uma maratona de cinco extensíssimos quilómetros eram razões de sobra para, muito dificilmente, poder participar na corrida. O meu interlocutor não desarmou. A minha fonte de lamúrias mais parecia uma bola ricocheteando. Senti-me miseravelmente mesquinha ao ouvir - Ajudar na luta contra o cancro é um dever de todos nós. Eu, quando houver uma corrida dos homens com próstata, participarei sem dúbios pretextos. Uma corrida dos homens com próstata???!!! – repeti, incrédula e divertida. Caríssimo amigo - que muito aprecio - sei que o que disse não correspondia ao que pretendia dizer. Mas tenha cuidado. Com toda essa boa vontade, não será difícil imaginá-lo a participar na corrida dos homens/mulheres… que perderam a cabeça. E há tantos/as…
A.R.
Nota: Como o amigo/colega “exigiu”, remeti-me ao silêncio no que respeita à sua identidade. Tarefa árdua, convenhamos.
Não vou escrever palavras que arranhem a alma. Da minha tristeza sei eu e sabes tu. A verdade é que a vida tem destas coisas e há que encontrar receitas para sararmos da ausência e da saudade. Contas feitas, minha amiga, Paris é já ali, mesmo ao virar da esquina... Claro que nada substituirá as nossas - pequenas - discussões, os nossos amuos - mais meus - e as tardes de lamentos, mas que acabavam sempre numa boa dose de gargalhadas. Vais fazer-me muita falta. A quem contar as minhas "desventuras", a minha tendência para declinar, em todas as pessoas, a expressão "não sou capaz", os meus "ódios" de estimação, o desconsolo de certos dias enfadonhos, a angústia de ter de frequentar espaços que travam a espontaneidade e a imperiosa necessidade que todos temos de comunicar e partilhar?! Espaços vazios. Tão vazios que assustam. É, contudo, forçoso que partas. Que as noites de nevoeiro dêem lugar a manhãs radiosas e que um futuro risonho esteja cada vez mais perto de ser um hoje. Assim, Sónia, nunca desistas de tentar transformar a vida e de a controlar, na medida do possível, a teu favor. Eu estou contigo. Com vocês - é óbvio que o Makram também tem tempo de antena, neste textito.
Boa sorte para os dois, mas... cuidado com os "pigeons". Se há decisões redentoras, a vossa, creio, foi uma delas. Sim, que essa história de ficar em fila indiana, resignados e suspensos do que pode não vir, não combina com a coragem e determinação dos meus aventureiros amigos. Vá lá, não percas tempo. Corre para não perderes o avião.
Um beijinho e um sentido - já saudoso - abraço da amiga
Em Portugal, há necessidade de milagres. A tarefa hercúlea de levantar a economia e o ego dos portugueses - que já só abanam compassivamente a cabeça e a algibeira - parece que não encontra base de sustentação a não ser num prodigioso gesto divino. É escusado estar a alimentar falsas esperanças, meus amigos: isto só se endireita com preces, rezas, jejuns, penitência - esta nunca é suficiente - e… milagres. Não é segredo nenhum - basta ver a quantidade de pessoas que têm "aplaudido" tal medida - que o ministro da Saúde resolveu fechar hospitais, maternidades e urgências. É ou não verdade que com toda esta política economicista só não morreremos… por milagre?! Do mesmo modo, com a quantidade de anos-luz necessários para atingir a tão ansiada reforma, chega-se ou não à triste conclusão de que será um milagre atingir essa etapa de lazer, tranquilidade e alívio... sem um encontro prematuro com o popular disfemismo: esticar o pernil?! Isto para não dar como exemplo casos que necessitariam de um milagre com M maiúsculo e de bastantes cunhas no Olimpo: chegar a professor titular sem depressões, fobias e outras psicoses que tais; resistir, estoicamente, a montanhas de reuniões, preparação de reuniões, continuação de reuniões e a tanto faz-que-faz.. sempre com a convicção de que, na verdade, não se faz nada; conseguir um tempinho para preparar aulas - aqui, digo eu, será mais fácil, qual Moisés - o tal que era gago - afastar as águas turvas do rio Douro; exilar do espírito e da cabeça o fantasma de uma avaliação que, neste momento, se resume a 95 pontos que ainda ninguém sabe - excepto, claro, os “videntes", “profetas” e "entendidos" emblemáticos de uma excepcionalidade muito (?) empenhada - como serão obtidos… Enfim, a lista é longa e a vida uma máscara do Carnaval de Viareggio. Milagres precisam-se! Contudo, como no nosso país vigora a lei do mais forte - fátuo, vaidoso e presunçoso - não faltarão, por certo, milagreiros, aprendizes de feiticeiros e vendedores de banha da cobra que, numa prodigiosa encenação, tudo remediarão. E do caos e da ignorância nascerá, enfim, a luz. Aleluia! Assim, os cegos passarão a ver, os surdos a ouvir, os paralíticos a andar, os pobres de espírito a iluminar e os parasitas - e outros animalejos multifacetados - a produzir. Vai ser - já é - um ver se te avias. É claro que para os menos dotados nas artes de prestidigitação haverá sempre a possibilidade de frequentarem cursos de formação subordinados ao tema - Aprenda a fazer milagres num piscar de pestana. Não exige trabalho, suor, muito menos poderes miraculosos. Basta ter lata. Muita lata. E, se possível, os dotes beatificadores dos emplastros Leão. Aqueles que tiravam a dor num senão.
Se quiseres partir amanhã eu paro o mundo com facilidade assim com esta mão e então descobriremos o mais profundo fundo que há no mundo que é no irmos fundo às coisas que há razão de verdades consumadas me consomem de falácias bem montadas me alimentam mas meu filho mora o reino do futuro que é mais duro e não vai ser com palavras que o contentam
Se a morte lenta te rebenta sob a pele a cada dia e se no teu braço apenas sentes a força de um cansaço organizado mas manténs na tua fronte a dúvida e o gosto pelo longe e a maresia e se sentes no teu peito de criança a alma de um sonho amordaçado se quiseres partir amanhã eu paro o mundo com facilidade assim com esta mão e então descobriremos o mais profundo fundo que há no mundo que é no irmos fundo às coisas que há razão
(iste mundus furibundus falsa prestat gaudia quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia Laus mundana vita vana vera tillit premia nam impellit et submergit animas in tartara)*