folhasoltas
Sábado, Junho 30, 2007
Rima Atada

Em ziguezagues lentos, o autoritarismo põs-se a caminho.
Chegou a Vieira do Minho.
Criticar é proibido! Discordar? Um sarilho!
Estamos no tempo da delação. Do vale tudo. Dos lambe-botas de ocasião.
Das verdades maleáveis. Subornáveis. Das mentiras requintadas. Legalizadas.

Senhoras e senhores, meninas e meninos, o autoritarismo faz-se anunciar.
Sem tempo ou lugar.
[E os vendilhões, servilmente perfilados, deixam-no entrar.]

A.R.
posted by digoeu @ 00:26  
Quarta-feira, Junho 27, 2007
ETERNIDADE

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Arthur Rimbaud
(Maio - 1872)
posted by Angel @ 15:58   5 comments
Segunda-feira, Junho 25, 2007
Anjinhos

Quando Pinto da Costa declara, a propósito da corrupção no futebol, que acredita na justiça divina, é caso para dizer:
- Meu Deus, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!

Ou sabem?!

A.R.
posted by digoeu @ 13:36  
Sábado, Junho 23, 2007
Bom S. João


Nesta noite, São João,
Não vou saltar a fogueira.
Queimei o meu coração,
Só vejo cinza rasteira.




É noite de S. João,
Vamos cantar e dançar.
Quem sabe se a animação
Faz de mim um titular?

A.R.
posted by digoeu @ 12:09   8 comments
Clandestinidade
A realidade do poder assusta-me. Não discute nem convence. Sacrifica liberdades legitimada pela obediência cega de uma maioria ou por obscuros interesses económicos. Refiro-me, claro, a uma certa realidade opaca, sinuosa, enredada e cínica expandindo-se, dia após dia, numa teia lúgubre e perigosa que mais não visa que fortificar o poder de alguns. Curiosamente, a consciência colectiva do(s) povo(s) parece também, dia após dia, cada vez mais adormecida, rotineira, passiva, acomodada. Agonizante.
Ninguém faz nada! No entretanto, em silêncio, a teia prolifera alimentada pelo alheamento de quase todos nós e por uma sede insaciável - fúnebre e funesta - de autoritarismo , dirigismo e medo. Assim, o poder - já anunciado - revela-se.
Receio o final desta história. O futuro de um povo não pode construir-se em gabinetes atolados de verdades escuras, fictícias, patéticas. O futuro de um povo não pode - nem deve - passar por um ataque subtil às liberdades e garantias das pessoas.
Será que se combate a fraude e a corrupção através do controlo de todos os dados dos cidadãos? E aos cidadãos não preocupará o facto de verem as suas vidas privadas expostas a olhares anónimos, talvez desprovidos de ética, gerados por práticas autoritaristas que não visam senão fins pouco claros?
De qualquer modo, o medo começa a alastrar. Se o governo recuou na construção de uma base de dados relativa aos grevistas, não foi de mote próprio. Se o caso do professor que foi acusado de deslealdade - ainda não se lembraram da palavra traição - ao ter emitido uma opinião pessoal, é mais um exemplo de um impúdico atentado à liberdade de expressão, pergunto-me quantos mais exemplos similares haverá sem direito a serem publicitados e discutidos pela opinião pública porque abafados por um silêncio tendencioso, preconceituoso, que deveria provocar em todos nós um sentimento de inquietação em lugar desta acautelada distância face a todos estes indícios de que algo não vai bem.
É por tudo isto - e, receio, pelo muito mais que há-de vir - que julgo estarmos a viver entre parêntesis. Somos vítimas e carrascos. Vítimas de uma poder arrogante e autista; carrascos da nossa perda de identidade e de definições.
O drama do nosso país - o nosso drama - tem, sobretudo, a ver com este vaguear ao sabor de “ melhores dias virão” , numa estratégia apática de defesa. De sobrevivência.
Ainda que essa sobrevivência consista em vivermos como avestruzes sempre com a cabeça debaixo do solo, anestesiando a memória da morte.

A.R.
posted by digoeu @ 11:04  
Quarta-feira, Junho 20, 2007
Carta (Esboço)

(Le coucher du soleil, St. Malo)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possivel
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças:«Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice
posted by Angel @ 15:53   5 comments
Segunda-feira, Junho 18, 2007
Rifão Quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário Henrique Leiria
posted by Girl @ 19:35   7 comments
Domingo, Junho 17, 2007
Flexisegurança


(Michel Collon)

F l e x i s e g u r a ç a

O governo nega o som desta palavra.
Mário Soares diz que ela lhe soa a direita.
A mim soa-me a descrença, contratos precários e mais despedimentos.

Há palavras que servem de desculpa para tudo!

A.R.
posted by digoeu @ 11:01   3 comments
Sábado, Junho 16, 2007
(eternamente) Chama
Há gestos de limitado horizonte,
estrangulados no campo do impossível,
que cortam, ferem, aferrolham a vida.

(cinzelam o nada)

Outros há, carregados de venenos leves,
de sorrisos impassíveis passeando a morte,
que nos abandonam à melancolia das ruínas.

(abrem brechas na alma)

E há gestos, banhados pela luz do bem querer,
revelando certezas, entornando ternura,
que nos prendem à vida com laços de comunhão.

(ateiam a esperança)

A.R.
posted by digoeu @ 12:19  
Quarta-feira, Junho 13, 2007
Nesta Ultima Tarde Em Que Respiro

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

Antonio Franco Alexandre
posted by Angel @ 17:05   3 comments
Terça-feira, Junho 12, 2007
nocturno

aprendemos saudade
quando a memória nega a distância
dedilhamos tristeza
quando a saudade toca a alma de abandono


A.R.
posted by digoeu @ 21:41  
Domingo, Junho 10, 2007
Dia de Portugal
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaxo o veneno vem coberto,
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho da vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua segurança,
Tenha a vida tão pouca esperança!

Os Lusíadas, Luís de Camões
Canto I, estrofe 105


Desculpa, Portugal, mas não consigo escrever-te com um raiozinho de luz.
Sinto-te mais frágil e mais só apesar das comemorações, dos discursos, das comendas - bafientas, popularuchas - previsivelmente legitimadas por um desolador compadrio.
Tanta palavra oca ou bifurcada. Tanta promessa seca, quase obscena. Tanta falta de moral. Tanto show. Tanta cosmética política.
A falta de vergonha. Que te pesa. Que nos pesa em demasia.
Sem outros comentários.

A.R.
posted by digoeu @ 13:27   7 comments
Sexta-feira, Junho 08, 2007
é assim o amor

encosta-se ao beiral de um olhar
- que esculpe invioláveis segredos -
abandona-se e aguarda

algum milagre poderá acontecer

A.R.
posted by digoeu @ 19:38  
Quarta-feira, Junho 06, 2007
MEU AMOR

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu pássaro cinzento,
a chorar a lonjura,
do nosso afastamento.

Meu amor meu amor
meu nó de sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.


Ary dos Santos
posted by Angel @ 16:12   19 comments
Sexta-feira, Junho 01, 2007
Penélope

Fazendo e desfazendo um bordado de caracteres,
aguardo, como Penélope, o barco do meu Príncipe,
olhando vezes sem conta um mar de cristais líquidos.
Nunca este mar, que enleia e tece,
ligações imaginárias
poderá substituir sensitivos afectos.
Não denunciará
sombra num sorriso ou esgar na dor.
Sereias digitais encantam num cântico murcho,
escrevo amor, escrevo ódio,
e repercute, sempre seca, a mesma nota.
Do alto desta Ítaca prodigiosa
vejo ao longe velas de navios
que de outras paragens trazem promessas
e na teia de Penélope se perderão…
Serena e convictamente
aguardarei
que Neptuno libere Ulisses.

Até quando, meu Príncipe?...

Eugénia Ribeiro
posted by Girl @ 18:39   17 comments
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