Em ziguezagues lentos, o autoritarismo põs-se a caminho. Chegou a Vieira do Minho. Criticar é proibido! Discordar? Um sarilho! Estamos no tempo da delação. Do vale tudo. Dos lambe-botas de ocasião. Das verdades maleáveis. Subornáveis. Das mentiras requintadas. Legalizadas.
Senhoras e senhores, meninas e meninos, o autoritarismo faz-se anunciar. Sem tempo ou lugar. [E os vendilhões, servilmente perfilados, deixam-no entrar.]
Quando Pinto da Costa declara, a propósito da corrupção no futebol, que acredita na justiça divina, é caso para dizer: - Meu Deus, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!
A realidade do poder assusta-me. Não discute nem convence. Sacrifica liberdades legitimada pela obediência cega de uma maioria ou por obscuros interesses económicos. Refiro-me, claro, a uma certa realidade opaca, sinuosa, enredada e cínica expandindo-se, dia após dia, numa teia lúgubre e perigosa que mais não visa que fortificar o poder de alguns. Curiosamente, a consciência colectiva do(s) povo(s) parece também, dia após dia, cada vez mais adormecida, rotineira, passiva, acomodada. Agonizante. Ninguém faz nada! No entretanto, em silêncio, a teia prolifera alimentada pelo alheamento de quase todos nós e por uma sede insaciável - fúnebre e funesta - de autoritarismo , dirigismo e medo. Assim, o poder - já anunciado - revela-se. Receio o final desta história. O futuro de um povo não pode construir-se em gabinetes atolados de verdades escuras, fictícias, patéticas. O futuro de um povo não pode - nem deve - passar por um ataque subtil às liberdades e garantias das pessoas. Será que se combate a fraude e a corrupção através do controlo de todos os dados dos cidadãos? E aos cidadãos não preocupará o facto de verem as suas vidas privadas expostas a olhares anónimos, talvez desprovidos de ética, gerados por práticas autoritaristas que não visam senão fins pouco claros? De qualquer modo, o medo começa a alastrar. Se o governo recuou na construção de uma base de dados relativa aos grevistas, não foi de mote próprio. Se o caso do professor que foi acusado de deslealdade - ainda não se lembraram da palavra traição - ao ter emitido uma opinião pessoal, é mais um exemplo de um impúdico atentado à liberdade de expressão, pergunto-me quantos mais exemplos similares haverá sem direito a serem publicitados e discutidos pela opinião pública porque abafados por um silêncio tendencioso, preconceituoso, que deveria provocar em todos nós um sentimento de inquietação em lugar desta acautelada distância face a todos estes indícios de que algo não vai bem. É por tudo isto - e, receio, pelo muito mais que há-de vir - que julgo estarmos a viver entre parêntesis. Somos vítimas e carrascos. Vítimas de uma poder arrogante e autista; carrascos da nossa perda de identidade e de definições. O drama do nosso país - o nosso drama - tem, sobretudo, a ver com este vaguear ao sabor de “ melhores dias virão” , numa estratégia apática de defesa. De sobrevivência. Ainda que essa sobrevivência consista em vivermos como avestruzes sempre com a cabeça debaixo do solo, anestesiando a memória da morte.
Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir até de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possivel neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e me peças:«Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar o que acontece
Nesta última tarde em que respiro A justa luz que nasce das palavras E no largo horizonte se dissipa Quantos segredos únicos, precisos, E que altiva promessa fica ardendo Na ausência interminável do teu rosto. Pois não posso dizer sequer que te amei nunca Senão em cada gesto e pensamento E dentro destes vagos vãos poemas; E já todos me ensinam em linguagem simples Que somos mera fábula, obscuramente Inventada na rima de um qualquer Cantor sem voz batendo no teclado; Desta falta de tempo, sorte, e jeito, Se faz noutro futuro o nosso encontro.
O recado que trazem é de amigos, Mas debaxo o veneno vem coberto, Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Oh! Grandes e gravíssimos perigos, Oh! Caminho da vida nunca certo, Que, aonde a gente põe sua segurança, Tenha a vida tão pouca esperança!
Os Lusíadas, Luís de Camões Canto I, estrofe 105
Desculpa, Portugal, mas não consigo escrever-te com um raiozinho de luz. Sinto-te mais frágil e mais só apesar das comemorações, dos discursos, das comendas - bafientas, popularuchas - previsivelmente legitimadas por um desolador compadrio. Tanta palavra oca ou bifurcada. Tanta promessa seca, quase obscena. Tanta falta de moral. Tanto show. Tanta cosmética política. A falta de vergonha. Que te pesa. Que nos pesa em demasia. Sem outros comentários.
Meu amor meu amor meu corpo em movimento minha voz à procura do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever nós parámos o tempo não sabemos morrer e nascemos nascemos do nosso entristecer.
Meu amor meu amor meu pássaro cinzento, a chorar a lonjura, do nosso afastamento.
Meu amor meu amor meu nó de sofrimento minha mó de ternura minha nau de tormento este mar não tem cura este céu não tem ar nós parámos o vento não sabemos nadar e morremos morremos devagar devagar.
Fazendo e desfazendo um bordado de caracteres, aguardo, como Penélope, o barco do meu Príncipe, olhando vezes sem conta um mar de cristais líquidos. Nunca este mar, que enleia e tece, ligações imaginárias poderá substituir sensitivos afectos. Não denunciará sombra num sorriso ou esgar na dor. Sereias digitais encantam num cântico murcho, escrevo amor, escrevo ódio, e repercute, sempre seca, a mesma nota. Do alto desta Ítaca prodigiosa vejo ao longe velas de navios que de outras paragens trazem promessas e na teia de Penélope se perderão… Serena e convictamente aguardarei que Neptuno libere Ulisses.