Todos os anos dou por mim a repetir este maravilhoso lugar-comum: chegaram as férias! O certo é que, igual ou diferente, este tempo tem sabor a uma eterna ânsia de recomeço assente na despreocupação, na alegria, na intimidade, na serenidade ou na euforia. A vida, qual caverna de Ali Babá, volta a ter cores, brilhos e sabores que, sem desgaste, voluptuosamente, navegam em nós, expurgando problemas, desaires e outros males afins. Neste período de lazer não aconselho ninguém a viver por procuração. Afinal, meus amigos, as férias duram apenas um mísero mês. Assim, quer optemos por um descanso completo - com o mínimo esforço físico e intelectual - quer nos decidamos por um mergulho no no limit, encharquemo-nos de energia, barremo-nos de boa disposição e distribuamo-nos, gratuita e generosamente, por familiares e amigos. Eles merecem e nós também. O final deste paraíso acabará por chegar, é certo. A alergia ao trabalho - e não só - retomará o seu posto, pois. As preocupações pendurar-nos-ão pelo pescoço, é seguro. Mas, até lá, bebamos um tropical manga e papaia, deliciemo-nos a carregar nos telecomandos da vida e gritemos - Abre-te, Sésamo!
Porque cairá uma lágrima dos olhos de "um Professor"?
Algures, nos últimos tempos deste ano lectivo de 06/07, depois de mais uma aula, psicologicamente violenta, estando eu de chegada à Sala dos Professores, eis que me deparo com uma Colega ( o sexo da pessoa é irrelevante, não conta, pois poderia ser Homem ou Mulher) mergulhada numa profunda solidão, tendo por companhia uma monumental tristeza. Abeirei-me e, sem saber se iria interferir com a liberdade da Colega, questionei-a quanto ao estado e razões em que se encontrava, o qual era visível a léguas. Razão tem o Povo que diz que quando há coração ele sente e vê mais longe do que os nossos olhos.
Interpelei-a no sentido de saber o que se passava. Num pranto silencioso, mas muito contido, “balbuciou-me “ o facto de, na sua última aula, estar a dar o que tinha de melhor, julgando contribuir assim para o desenvolvimento dos seus alunos, encaminhando-os na direcção do seu futuro e da sua felicidade. Entretanto, registou-me o seu “acordar”, num ambiente em que se viu sozinha e onde ninguém queria fosse o que fosse do que lhe estava a dar e a brotar da sua alma.
Que tristeza ser obrigada a tomar consciência deste facto!
Perguntou-me o que fazer face a tal situação. Senti-me perante uma das perguntas mais difíceis que, algures no tempo da minha existência, me fizeram.
Bem, vou com estas linhas tentar dar-te a ti, Ana, e a Todos os Professores deste País, a minha ajuda, pois a resposta é impossível. Vou tentar contribuir com o meu contributo para a melhoria da reflexão neste momento difícil pelo qual passamos, com a escrita dum Técnico dedicado de corpo e alma ao Ensino e ao Futuro dos nossos Alunos. Colegas, peguem no conteúdo e não na forma pois a escrita não é a minha área .
Ana, não preciso de perguntar nada, nem a ti nem à maioria dos Professores, para perceber questões do tipo,
Quem somos? Em que Sociedade estamos? O que estamos a fazer? O que quererá esta Sociedade do “Professor”? Para que mundo caminhamos todos? Que contributo está o Professor a dar neste momento difícil da Vida Nacional? ... e muitas outras.
Deixa-me fazer um desabafo, pois também vivo numa angústia tremenda, por, neste momento, não ver qualquer réstia de luz no fundo do túnel no qual está submersa a Sociedade Portuguesa. Espero estar enganado por estar um pouco cego devido a uma qualquer razão que desconheço. Ainda acredito um pouco que este País será, um dia, um grande País que dará, como já deu, novos Mundos ao Mundo.
Pode haver quem diga que conhece esta conversa de ginjeira. Óptimo. Mas eu não conheço as outras conversas resultantes do contributo que todos têm que dar, com as quais pretendo evoluir. Contribuam de alguma forma porque eu, andorinha sozinha, não faço a primavera total, mas posso fazer bastante pela minha pequenina primavera pessoal, onde embarca quem merece se o quiser fazer, pois, caso contrário, terá de fazer melhor para ter direito a contestar. A soma de todas as primaveras pessoais fará a grande primavera que esperamos, como outros esperam D. Sebastião, faz muito tempo.
- Quando comecei a tomar consciência de mim,
como sonhei ter a vida com um mínimo de qualidade para toda a Nossa Sociedade sem excepções ?
como eu via a vida, na altura em que comecei a despertar para a necessidade que tinha de dar o meu contributo social ?
como lutei contra a injustiça praticada contra os meus semelhantes, sem interesses pessoais ?
quantas lágrimas silenciosas me caíram dos olhos, sem que se vissem, por ver e por me sentir completamente impotente perante a miséria que me circundava ?
como carreguei em mim, sem pretender visibilidade ou qualquer tipo de recompensa por parte do mundo exterior, o sacrifício e esforço inúteis que outros faziam pelas condições mínimas de vida, transformando em mim esses problemas em inconstância espiritual, martírio, dor e sei lá que mais, o que me levou a quase esquecer a felicidade com que deveria viver muitos dos meus momentos com algum prazer e alegria, pois a isso também tinha direito.
como foi possível ir mudando até chegar ao ponto de hoje em que acho não conseguir fazer nada e acabo por me convencer que sou apenas um António pequenino e não um “Santo António”, como julguei em tempos, ao serviço dos outros? Esse morreu.
- Sabes, a seguir ao 25 de Abril de 1974, fui obrigado a ser “comandante“ de uma companhia de polícia militar durante todo o ano de 1975 e, aí, dei muito de mim à Sociedade da Madeira, contra o iniciado João Jardim, puro defensor dos Madeirenses e inimigo acérrimo dos políticos de Lisboa, sem que eu tivesse culpa,
ajudando famílias a resolver problemas de águas, de regas, de partilhas, de zangas, de caminhos, de estradas,
ajudando a construir centros de infância, de apoio a populações, a lares de 3ª idade, etc.,
ajudando a resolver problemas e conflitos entre empresas e trabalhadores,
ajudando populações a fazerem as pazes, apaziguando ânimos dos mais variados tipos, como foi o caso das Freguesias da Ribeira Seca e do Machico, metendo-me no meio do conflito instigado por um tal Padre M………,
evitando o primeiro julgamento popular, depois da Inquisição, e a morte de seis jovens, como queria o tal Padre,
segurando revoltas populares, à frente da companhia, porque o capitão “fugira”,
levando os presos a suas casas para estarem, as duas horas pedidas por cada um deles, com as suas mulheres já que corriam o risco de as ver com outros caso não fossem ( palavras deles que nunca me deixaram ficar mal e nunca fugiram ),
levando feridos muito maltratados pelas bebedeiras e outros acontecimentos para os hospitais, etc.
Foi um sonho lindo de viver. Isso sim, isso era a vida a brotar e a dar-me o gosto pela existência, contribuindo para o bem-estar dos outros. Como foi bonito.
Etc., etc., etc..
Sim, sim, ... . Vivi.
Ao longo de todos estes anos, até hoje, dei muito de mim à nossa Sociedade, tentando fazer com que o meu contributo ajudasse a crescer tudo aquilo que me rodeia. Estou perfeitamente enganado. E nos tempos de hoje?
- Então, e hoje, o que temos? O sonho acabou? Eu deixo? Nós deixamos?
Temos no interior do meu País, e não só, o fecho de diversos serviços, sendo assim cortados os apoios à vida a todos quantos se queiram lá instalar, “desaconselhando-os” a fazê-lo. Porquê?
Temos o fecho de escolas porque o número de crianças não justifica a sua manutenção - sou a favor de uma gestão equilibrada da vida, mas, nessa gestão, a vida está à frente da economia e nunca o contrário. Somos tratados como um número apenas. Quem o faz? Têm esse direito? Será DEUS?
Temos escolas, cuja função está longe de estar esgotada perante uma Sociedade tão inculta, (50+33 anos de atraso) a ser fechadas. Combatemos, desta forma, o défice. Ok. E amanhã, quando não tivermos nada para vender ou fechar. O que vamos fazer da vida? Vamos vender a alma?
Temos o fecho de centros de saúde porque não há dinheiro para os manter, apesar de haver pessoas nessas zonas, julgava eu, mas afinal o que lá existe é uma colecção de números, que, pelos vistos, se desaparecerem não faz mal nem se nota. É assim que se organiza a Sociedade no futuro?
Temos uma limitação às entradas em Medicina. Depois vamos a Espanha e a outros locais em busca de Médicos. Os nossos FILHOS, se tiverem menos de 19 valores, são todos burros ou menos dotados que os Espanhóis de médias muito inferiores? Não acredito que seja apenas o facto destes tipos não SABEREM fazer uma previsão planificada das necessidades. Qual a intenção?
Temos assaltos a residências e insegurança que, como é inferior às médias europeias, não constitui problema. E se os governantes andassem sem guarda-costas, como eu já fui, para os levar aos mais desarranjados locais? Aí, talvez o problema fosse tratado de outra forma. Nós, PESSOAS, não contamos e não temos direito a viver em paz.
Temos assaltos à mão armada e não com fisga. Coisa menor comparada com os problemas do Mundo.
Temos o desmantelamento das forças de segurança e a diminuição da sua força pelo que se tornam quase ineficazes. Qual a intenção? Têm medo que, um dia destes, tenhamos que tomar a “Bastilha”? Como será possível, com semelhante desmantelamento (in)devidamente pensado e articulado?
Temos um aumento do custo de vida, “ talvez” para que algumas reformas possam ser o que são?
Temos pequenos grupos, cada vez são em número menor, mas de maior poder económico. Ainda hoje li no jornal que os quatro maiores bancos privados estão com um lucro de 6,3 milhões de euros por dia - (JN de 01.08.2007). Que coisa é esta, onde o Estado Português admite tudo o que essas instituições querem fazer aos dinheiros que lá amealhamos?
Temos, por exemplo, botijas de gás - das que são transportadas pelos “meninos/as às costas “a cerca de 19 euros enquanto aqui ao lado, em Espanha, não chegam a custar 12 euros. Porquê tanta diferença?
Temos um fisco que, em alguns casos está a cumprir socialmente mas, em geral, está a sangrar e a esmagar a população, dando no que está a dar: fome e miséria em muitos locais. Será que esta população tem de ser dócil e para isso tem de comer uma lata de conserva e beber um copo de água por dia como em tempos recentemente idos?
Temos bandos de estrangeiros que se “ divertem “ a fazer asneiras, mas como são estrangeiros e nós os bons acolhedores (dá boa imagem a quem precisa de ficar bem na fotografia, lá fora), pacoviamente, vamos batendo palmas à boa madrinha do acolhimento. Fica-nos bem. Estamos, há muito, à frente.
Temos a população a fazer as suas compras, em Espanha, porque as diferenças de preços são fabulosas. Abençoados os que conseguem ter os olhos abertos. Deles será o reino da sobrevivência. Para os outros resta a espera pela morte.
Temos serviços de qualidade muito inferior aos que se praticam na nossa vizinha Espanha. Não conseguimos aprender mais qualquer coisa ou não interessa aos que querem crescer cada vez mais à custa dos espezinhados?
Temos um Prémio Nobel a apontar para o interesse da nossa “anexação“ à Espanha. E esta?
Temos as novas equipas de futebol a portarem-se mal aos olhos de todo o Mundo. Que educação estamos a dar? São exemplares, não é?
Temos um sistema que defende a existência de alguns dos melhores estádios do Mundo - assim como de outras megalomanias - apesar de não termos dinheiro para pagar a um enfermeiro por causa da manutenção de alguns centros de saúde nocturnos em várias zonas do País. Que bom. Talvez os VELHOS vão embora mais depressa.
Temos uma falta de gosto pela vida e um desânimo muito grande para enfrentar um dia de cada vez até que a morte chegue. Por que motivo não nos deixam merecer mais?
Temos uma rede de serviços cada vez mais desarrumada. Veja-se, por exemplo, o caso dos transportes. Nunca sabemos a que horas temos o autocarro e se o temos.
Temos um serviço e uma venda de águas onde nunca sabemos se estamos a comprar uma garrafa de águas ou de veneno. Não é mau.
Temos uns defensores da vida social que dizem estar a lutar pela qualidade de vida. Se folhearmos alguns jornais diários, vemos, entre outras coisas, centenas de anúncios de prostituição com moradas e telefones. Afinal estão a defender o quê se a maioria é estrangeira?
Temos medo de ir ao hospital porque, depois de uma qualquer intervenção, corremos o risco de sair de lá com uma infecção irrecuperável que já tem levado várias pessoas à morte. Não há manutenção capaz? Lá fora somos dos melhores técnicos que há. E aqui?
Temos um sistema onde as Famílias têm cada vez mais dificuldades em educar e segurar os seus descendentes, estando estes a tornar-se não sei em quê. Qual a razão?
Temos um esquema de vida onde o casamento é cada vez mais efémero e totalmente normal na sua diversidade, onde anormal é o do tipo mais conservador, onde existem princípios, valores e moral.
Temos uma falta de respeito cada vez maior por tudo e por todos, sobretudo pelos mais idosos. Que grandeza a nossa.
Temos um sistema onde vemos, infelizmente, cada político como mais um mentiroso que não nos merece qualquer tipo de crédito, respeito ou confiança, pois o que diz hoje… já não diz amanhã.
Temos um sistema onde a única solução é não haver quem vote porque a Democracia parece já não existir aqui. O que cá existe é uma legislação que legaliza e dá cobertura a grupos de ataque social, a que chamamos “partidos “, que são, dessa forma, legalizados e detentores da possibilidade de concretização de todas as suas intenções, trabalhando as formas mais ardilosas de apanhar os votos aos distraídos. Estão a trabalhar bem ao serviço de minorias cada vez em menor número, mas cada vez mais poderosas.
Temos, hoje, os maus frutos ou a incompetência dos maus filhos do 25 de Abril ao serviço da NOSSA QUERIDA PÁTRIA, a fazerem o que nós vemos, que é trabalhar para os votos da próxima eleição e não para a Sociedade Portuguesa e para o seu futuro. Os bons filhos são corridos, insultados ou maltratados. Por isso se isolam. Até quando?
Temos na nossa Sociedade um verdadeiro assalto ao poder onde cada elemento tenta segurar-se e segurar apenas o seu futuro, independentemente da Sociedade que prometeu dirigir na altura em que se apresentou a pedir-nos o voto.
Isto não acabaria. Vamos ficar por aqui, por agora.
Temos, para terminar, no que mais nos aflige, indivíduos nas nossas escolas que não sei se pretendem ser alunos ou outra coisa qualquer, os quais são, na generalidade, apoiados incondicionalmente pelos pais contra os professores, como se esses “bichos” lhes quisessem mal, ao seu futuro e/ou à Sociedade.
Etc., Etc., Etc., ...
Da forma que isto vai, alguns iluminados querem que sejamos apenas figurantes manipuláveis de uma cascata de S. João, figurantes aos quais gostariam de chamar Otários, inseridos no desenvolvimento “normal” de um País que passaria a chamar-se OTARILÂNDIA. Os figurantes que não se ajustarem a essa cascata serão partidos com uma cajadada e assim nascerão as zonas desérticas dessa grande cascata que já foi anunciada ao País.
Talvez tenhamos o que merecemos por confiar demasiado nos outros, por não querermos assumir as nossas responsabilidades, por acreditarmos demasiado ou pela “incompetência criada na nossa Sociedade”, propositadamente, durante 50 mais 33 anos.
Depois destas "linhas" resta-me dizer-te, Ana, que se ainda temos uma lágrima para deitar nos nossos dias, por nos preocuparmos com a nossa família, com a nossa função, com os outros e com a Sociedade Portuguesa, então ainda temos razão para “existirmos e sermos felizes”, porque não somos figurantes de caco na grande cascata, não somos otários, não vivemos na Otarilândia, não vivemos num dos vários desertos que querem criar de forma mais perfeita do que a conseguida pelas monções provenientes do Sara do Norte de África.
Então ainda temos, felizmente, uma boa cabeça para ver o circo e os seus artistas, ainda temos capacidade para interpretar os seus sub-reptícios números e vivemos acima do que querem fazer de nós. Meros e miseráveis figurantes dum reino dominado por um reizinho chamado "ilustre sistema económico“ e por meia dúzia de pacóvios, servis e desumanos, que gravitam em torno desse reinado e sugam a Sociedade como diz a canção do Zeca Afonso - "Eles comem tudo e não deixam nada".
Ao que nós chegamos. Será que só temos que levar nas orelhas e baixá-las?
Ana, anima-te. Ainda tens uma lágrima para verter. Que bom.
Acabo este ano lectivo entre penas, ais e suspiros lancinantes: não sou Professora Ti(N)tular, ou seja, porque manifestei preferência pelo branco e pelo rosé - rejeitando a nobreza do tinto - a senhora ministra não me considerou capaz de estar entre os mais aptos, os mais experientes, os mais trabalhadores, os mais sapientes, os mais fulgurantes, os mais mais, enfim. Claro que as férias estão mesmo à soleira da porta, mas entrar num mês de merecido descanso - lá virá o do eterno - traumatizada, carente e sem tí(N)tulos é como ser condenada a cem anos de jejum e de abstinência para remissão de um grande pecado: durante todos estes anos limitei-me a dar aulas - o melhor que sabia e podia - e esqueci-me das medalhas, dos títulos honoríficos - estou em crer que os póstumos não me serviriam de muito já que os de há mais de sete anosestão fora da validade - e das comendas. Irra, além de chateada - às favas com o português vernáculo! - estou a necessitar de uma visita guiada à alma, pois, ao que parece, fiquei sem carta de condução - por falta de pontos,dizem eles; por falta de parque de estacionamento, digo eu - neste concurso de ti(N)tulares. Juro que até me apetece escrever - Ó senhora ministra, trate-me bem... que eu preciso muito de afecto. E também de mudar de escalão.
No sofá, onde sentara há algum tempo, contemplava a festa. Várias pessoas, representando suas amizades de épocas diferentes de sua trajetória, estavam presentes. A casa cheia agradava-lhe, afinal ali se encontravam amigos e amigas que, de uma forma ou de outra, foram significativos em sua vida. A mão esquerda, descansada sobre o braço do estofado que ocupava, chamou sua atenção para a maciez do seu tecido. Olhou de relance os outros móveis da casa. Atentou para o belíssimo lustre. Observou cada um dos cinco quadros que adornavam o ambiente. Não havia dúvida que era uma pessoa bem sucedida. Ao pensar um pouco sobre si esboçou um leve sorriso. Lutara muito, é verdade, mas vencera. Fixou sua atenção para o seu anel de doutorado. Não fora fácil adquirir o direito de colocá-lo no dedo, mas ali estava ele. Como dá trabalho ser alguém, pensou. Fez uma breve reflexão de sua vida. Tinha uma boa renda, o que lhe permitiu construir uma situação financeira confortável. No campo profissional tornara-se uma referência, pois os vários convites para palestras em eventos importantes, os inúmeros artigos publicados em periódicos especializados e os diversos livros lançados, confirmavam isso. A casa repleta indicava que suas amizades foram bem cultivadas. Tinha tudo para se considerar uma pessoa feliz. Então por que sentia aquele vazio? Levantou, caminhou lentamente por entre os amigos, cumprimentou com os olhos e um leve inclinar de cabeça a vários deles, pegou uma bebida que lhe fora oferecida pelo garçom, pediu que fossem colocadas duas pedras de gelo, dirigiu-se até o pequeno terraço para aproveitar a brisa que soprava agradavelmente, e, apoiando-se sobre um parapeito, fixou seus olhos por alguns momentos para o reflexo da luz da lua sobre a água da piscina enquanto girava a mão com o copo a fim de gelar a bebida. Embora tivesse tudo, sentia a falta de alguém. Tomou um pequeno gole da bebida. Olhou para a lua. Sentiu uma certa inquietação. 'De repente o 'tudo' pode significar 'nada', filosofou. Deixou escapar um suspiro. Lembrou de um poema que vira numa moldura em cima de uma escrivaninha: 'Felicidade.../Onde se esconde? / Como se obtém? / Na realidade, / Não busque onde / E sim com quem.'. ‘Engraçado, nunca fui de importar-me com poesia; porque essa lembrança?, questionou’. 'E sim com quem!', repetiu para si mesmo. Tomou mais um gole da bebida. Ficou de costas para o parapeito e observou a animação dos convidados. Sentiu uma certa satisfação ao lembrar que todos estavam presentes. A falta de alguém voltou a lhe incomodar. Sentia uma espécie de alegria triste, pois, embora os amigos estivessem presentes, havia aquela falta. Um dos convidados lhe acenou. Tomou o resto da bebida, forjou um sorriso, e foi ao encontro dos amigos.
Já não voas com a ajuda das minhas asas porque as tuas cresceram. Que elas te ajudem a aprender o valor das pequenas coisas com a naturalidade desconcertante de quem sabe que a vida é um acto de coragem, uma aprendizagem contínua, encruzilhadas, múltiplos caminhos, inversões de marcha, portas fechadas, portas que se abrem, interrogações, entendimento, humildade e sabedoria. Lembra-te de que ser feliz não é apenas estar aqui. É muito mais do que isso - é um acto de fé na vida, nos outros e em nós.
Eu ontem vi-te... Andava a luz Do teu olhar, Que me seduz A divagar Em torno a mim. E então pedi-te, Não que me olhasses, Mas que afastasses, Um poucochinho, Do meu caminho, Um tal fulgor De medo, amor, Que me cegasse, Me deslumbrasse Fulgor assim.
A propósito das eleições para a Câmara de Lisboa, é difícil - mesmo impossível - subtrairmo-nos à ideia de que os políticos - e os partidos - já não deslumbram nem convencem. Os grandes partidos foram ultrapassados pela abstenção. Os lisboetas mandaram às urtigas - deram às de Vila-Diogo, rasparam-se - mais um acto de acrobacias politiqueiras. Estou em crer que, mais do que o começo do período de férias, mais do que a insipidez dos candidatos, o descontentamento e o protesto foram os grandes obreiros de tanta indiferença. No entretanto, o partido socialista festeja - como pode - a sua vitória. Inventa-se senhor de uma grande façanha, ocultando - como sabe - a lacuna de não ter ganho a maioria absoluta a que se propusera. A oposição, coitadinha, com a leveza dos que nada fazem para mudar esta terra de amigalhaços e compadrios, pára para reflectir na sua ineficácia, no seu destempo, na seu já quase irreversível vazio de alternativas. Este arraial terminou. Outros virão. Com bandeiras, excursões gratuitas, folclore verbal e nenhuma convicção - o momento alto desta noite de eleições deu-se quando alguns dos “simpatizantes” de António Costa declararam, ingenuamente, às várias televisões que o partido socialista pagara a sua deslocação a Lisboa. Aliás - e em abono da verdade - esta é uma tradição celebrada por quase todos os partidos. Urge que os nossos governantes e os nossos políticos curem a sua miopia e compreendam que a história de um país não pode escrever-se apenas com o poder e um naco de tecnocrata “sapiência” de alguns iluminados.
Uma nota só, de desordem persistente, a vibrar no abismo das coisas, no mapa dos delitos; acarinhando o pequeno remorso precioso dos fins por atingir; dobrando o tempo numa curvatura baixa que cinge os tornozelos da fugidia esfinge; uma nota só, de correcção insidiosa, na dádiva natural do tempo já vivido, de dor aflitiva pela palidez das coisas e o seu nome por dizer.
Falando sempre, sempre lamentando o que ficou por decidir.
Confesso que, até há muito pouco tempo, desconhecia a existência do comendador Joe Berardo. Retrato-me: não se tratava de simples ignorância, era quase uma traição à pátria. Joe Berardo aparece na vida de todos nós, portugueses - e do Benfica - como uma espécie de D. Sebastião, de salvador, de aposta no futuro. Basta , aliás, que nos lembremos do facto de estarmos a citar um dos dez homens mais ricos de Portugal. A minha falta de cultura - e de patriotismo - veio ao de cima quando alguém me perguntou - Não vais ao Museu Berardo - nota: instalado no Centro Cultural de Belém - ver a exposição de Arte Moderna e Contemporânea? A entrada é gratuita já que o seu fundador dedica aos portugueses este novo museu. Museu Berardo?! A minha incultura desnudava-se, cintilante . E nem imaginas o que lhe fizeram. O Presidente da Administração do Centro Cultural de Belém negou-se a colocar as bandeiras da Fundação Berardo ao lado das do CCB... Que provincianismo. Se até o Engenheiro Sócrates confirmou que, com este museu e respectivo mentor, Portugal ficava mais rico... Mais rico?! - pensei. Sinceramente, ainda não tinha reparado que vivia num país rico. Se o Eng.º Sócrates, todavia, afirmava - confirmava - tal rútila pérola, só podia ser verdade. E foi assim o meu primeiro contacto - do 1º grau - com o grande mecenas. A partir daí, a minha dívida de gratidão para com este Calisto Elói aguçou-me a curiosidade. Passei a estar mais atenta à informação e à saga Joe Berardo. Sempre de negro - tentando plagiar George Clooney? - dono de uma eloquência assaz pitoresca e incontinente, ostentando um estilo misto de senhor feudal e Zé do Telhado, o certo é que o novo 'herói' português já não precisa de credencias e está aí para 'arrumar' Portugal e arredores. O senhor comendador propõe a demissão de Mega Ferreira do Conselho de Fundadores da Fundação Colecção Berardo - o tal que não hasteou as bandeiras, o ingrato! - por não o considerar com perfil adequado a tal posto; o senhor Berardo quer ser o dono do Benfica alegando que o clube faz parte da sua cultura; enfim, o senhor comendador Joe Berardo parece que veio para ficar e... reinar. Mesmo tendo como oponentes alguns samurais. Chinesices! Se gostar do estilo "diabolicum", aplauda; se não gostar, só lhe resta ir para casa tratar das galinhas - citando as vernáculas palavras do homem de quem se fala.
(Chez Maya) Já podemos dormir descansados. A senhora secretária de estado (adjunta) da Saúde veio, finalmente, sossegar algumas almas preocupadas com uma certa alienação - e outras tendências subterrâneas - que começa a evidenciar-se no nosso país. É claro que se pode criticar o governo! - afirmou a senhora. Em casa e nas esquinas dos cafés - esclareceu.
A classe política é inimitável, acrescento eu. Não convence, mas faz rir.
Se, antes de iniciar uma caminhada no deserto, o viajante acreditar que as miragens podem tornar-se reais, está perdido. A ingenuidade e a inacção, mais do que a falta de água, ser-lhe-ão fatais.
Os sintomas não enganam: entramos na era de um sol declinante. Da arrogância. Do mutismo. Das veleidades confusas, monolíticas. Da decepção. Da raiva. Constata-se uma odiosa mistura entre poder e corrupção, tráfico de influências e sentimento de (in)justiça, reformas megalómanas e uma austeridade antimodernista e isolacionista. Incitam-nos a virar a página através de sacrifícios e votos penosos. A economia está, todavia, cada vez mais desarticulada, retrógrada, amordaçada. A vida passou a ser uma travessia - longa e perigosa - sem sinais de trânsito e com todos os semáforos avariados. O estilo - já inconfundível - deste governo conduz-nos, eficazmente, ao abismo da insegurança, do receio, do silêncio. Tudo serve de pretexto legitimador para suprimir o direito essencial do Homem - a liberdade. E o mais grave é que exigem que acreditemos que o intolerável não é a falta dela, mas a sua reinvindacação. Estamos nisto.