Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco
Meu rio corre até ti: Mar azul, aceitas-me? Meu rio espera resposta. Ó mar, vê se me gostas. Eu te trarei regatos De escondidos regaços – Dize, mar, vais-me levar?
Não me perguntes por que razão ainda te peço - leva-me contigo. Sim, eu sei que é difícil abrir as fronteiras dos dias felizes em que voávamos com o mesmo bater de asas, atravessados por vertigens com sede de infinito. Nessa altura, protegidos por ventos mansos que corriam em direcção ao céu, acreditávamos que, enlaçados, seguíamos a rota do sol, levando connosco as fadas, o castelo e o sonho. Mas este ficou esquecido na esquina abrupta da realidade; as fadas, essas, cedo partiram, numa manhã vazia, para um lugar onde as recordações são labirintos varridos por histórias de olhos gastos; o castelo, saqueado de significado, ficou negro, deserto, assente em raízes secas, quebradiças. E o amor deixou de ter a marca do rasto rubro do nosso traço, caindo no leito vago do conformismo, fechando as janelas sem ruído, sem queixume. Contudo, tentando apagar a sombra do que parece morto, continuo a pedir - leva-me contigo. Esmaga-me este silêncio, mil vezes silêncio, que me encharca a alma de dias longos, inalteráveis, que roem a luz e nada devolvem. Sufoca-me a poeira de um quotidiano sempre ao encontro do desencanto. Leva-me contigo. Ainda acredito que para além destas muralhas, cheias de noite e renúncia, há o verde de um tempo que reconhece caminhos, perdoa a demora, abre janelas, devolve a esperança, ressuscita o sonho.
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Quero apenas cinco coisas... Primeiro é o amor sem fim A segunda é ver o outono A terceira é o grave inverno Em quarto lugar o verão A quinta coisa são teus olhos. Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Era o que mais faltava que o povo e os sindicatos não pudessem expressar livremente a sua opinião - disse, ontem, o primeiro-ministro aos jornalistas. Estamos numa democracia e, meus senhores, se eu deixasse de ser apupado, acreditem que até sentiria saudades. Era o que mais faltava, Sr. Eng. Sócrates, era o que mais faltava que o povo o deixasse morrer à míngua de saudades. Isso nunca acontecerá, acredite. Vossa Excelência não entende, ou não quer admitir, o desencanto de todos nós - e não só dos comunistas, sim, os tais que comem criancinhas; Vossa Excelência não aceita que este desnorte que as suas políticas provocaram suscite críticas, contestações e um desagrado geral; Vossa Excelência parece esquecer - apesar do que a História da Humanidade tem demonstrado ao logo dos séculos - que quanto mais a repressão prolifera, maior o desconforto e a vontade de mudança. O Homem nunca desaprenderá a palavra Liberdade ainda que sujeito a governos artificialmente democráticos. Pode até escrevê-la com o seu próprio sangue, mas nunca permitirá que a apaguem já que ela faz parte da sua própria essência. Pode ficar tranquilo, senhor primeiro-ministro, que, de saudades, ninguém o deixará definhar. Era o que mais faltava!
Eu - monossílabo. Eu só ou Eu e o mundo? Ainda mais: Eu, o mundo e o Universo?
Eu sou. Eu não sou. Não sou nada para o Universo. Eu sou tudo. Tudo para a família. Muito para os amigos. Pouco para os colegas.
Luto e vivo os meus sonhos - sou feliz - nas águas turbulentas da minha idade. Sonhadora. Nostálgica. Distraída. Divertida. Triste. Sou as pessoas. Coabito com as pessoas. Sou como querem? Não! Sou como pensam que sou? Não!
O coração! - esse é único. Astuto. Eficaz. Solidário. Corda da vida.
Tempo para reflectir? Tempo para ser? Tempo para fazer? Tempo para estar?
Nós, jovens, somos computadores, PSP's, jogos, violência e vida alheia - aspirações apagadas? Nós, pais, somos mágoa e tristeza de guerras, ódios, indiferenças? Nós, crianças, somos a esperança. Eu? Sou revoltada. Quantos de nós têm sonhos e projectos para o futuro?! Eu quero dar vida ao mundo! Quero espraiar música. Som de piano. Língua Universal. Quero também ser imortal. Não me refiro a fama - essa acaba. Falo de imortalidade como bondade. Energia positiva. Bem-estar. Emoção. Paz. É impossível auxiliar o mundo. É uma missão ajudar uma alma, reavivar um sorriso, fazer acreditar numa mão amiga.
Quem sou Eu?
Sou defeitos. Sou pessoa. Sou tristeza. Alegria. Sou defeitos. Teimosia. Sou defeitos. Dúvidas.