folhasoltas
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário de Cesariny
posted by Angel @ 20:35   2 comments
Sábado, Outubro 27, 2007
Amanhã


Somos todos mendigos disfarçando a solidão,
Prisioneiros de sonhos agarrados a nesgas de nada,
Procurando, em desespero, o que só em nós pode brotar.

E nunca temos tempo para o que importa:
Deixamos sempre o amor para o dia seguinte.

A.R.
posted by digoeu @ 11:25   5 comments
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Meu rio corre até ti

Meu rio corre até ti:
Mar azul, aceitas-me?
Meu rio espera resposta.
Ó mar, vê se me gostas.
Eu te trarei regatos
De escondidos regaços –
Dize, mar, vais-me levar?

Emily Dickinson
posted by Angel @ 18:53   6 comments
Domingo, Outubro 21, 2007
Pelo ínfimo espaço de uma janela fechada
Não me perguntes por que razão ainda te peço - leva-me contigo.
Sim, eu sei que é difícil abrir as fronteiras dos dias felizes em que
voávamos com o mesmo bater de asas, atravessados por vertigens
com sede de infinito. Nessa altura, protegidos por ventos mansos que
corriam em direcção ao céu, acreditávamos que, enlaçados, seguíamos
a rota do sol, levando connosco as fadas, o castelo e o sonho. Mas este
ficou esquecido na esquina abrupta da realidade; as fadas, essas, cedo
partiram, numa manhã vazia, para um lugar onde as recordações são
labirintos varridos por histórias de olhos gastos; o castelo, saqueado
de significado, ficou negro, deserto, assente em raízes secas, quebradiças.
E o amor deixou de ter a marca do rasto rubro do nosso traço, caindo no
leito vago do conformismo, fechando as janelas sem ruído, sem queixume.
Contudo, tentando apagar a sombra do que parece morto, continuo a pedir
- leva-me contigo. Esmaga-me este silêncio, mil vezes silêncio, que me
encharca a alma de dias longos, inalteráveis, que roem a luz e nada devolvem.
Sufoca-me a poeira de um quotidiano sempre ao encontro do desencanto.
Leva-me contigo. Ainda acredito que para além destas muralhas, cheias
de noite e renúncia, há o verde de um tempo que reconhece caminhos,
perdoa a demora, abre janelas, devolve a esperança, ressuscita o sonho.

A.R.
posted by digoeu @ 10:05   5 comments
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Ausência
Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes
posted by Angel @ 19:54   5 comments
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Saudade




Esta sensação potente
Que provoca riso e pranto
Que domina nossa mente
Em qualquer lugar ou canto,

Ao ver-nos desprevenidos
Invade tão de repente,
Sem alerta nem aviso,
O recôndito da gente,

Sacudindo as emoções
De toda e qualquer pessoa
Sem importar a sua idade.

Tais grandes revoluções,
Que em nosso peito povoa,
Só tem um nome – saudade!

Roberto Policiano
posted by digoeu @ 21:35   8 comments
Domingo, Outubro 14, 2007
utopia

fosse possível
um dia
traçar uma linha
que nos ligasse
de assombrosa luz
e não mais o amor
se equivocaria


A.R.




posted by digoeu @ 10:22  
Sexta-feira, Outubro 12, 2007
Vinte Poemas de Amor

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos.
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda
posted by Angel @ 18:43   7 comments
Quarta-feira, Outubro 10, 2007
Era o que mais faltava
Era o que mais faltava que o povo e os sindicatos não pudessem expressar livremente a sua opinião - disse, ontem, o primeiro-ministro aos jornalistas. Estamos numa democracia e, meus senhores, se eu deixasse de ser apupado, acreditem que até sentiria saudades.
Era o que mais faltava, Sr. Eng. Sócrates, era o que mais faltava que o povo o deixasse morrer à míngua de saudades. Isso nunca acontecerá, acredite.
Vossa Excelência não entende, ou não quer admitir, o desencanto de todos nós - e não só dos comunistas, sim, os tais que comem criancinhas; Vossa Excelência não aceita que este desnorte que as suas políticas provocaram suscite críticas, contestações e um desagrado geral; Vossa Excelência parece esquecer - apesar do que a História da Humanidade tem demonstrado ao logo dos séculos - que quanto mais a repressão prolifera, maior o desconforto e a vontade de mudança.
O Homem nunca desaprenderá a palavra Liberdade ainda que sujeito a governos artificialmente democráticos. Pode até escrevê-la com o seu próprio sangue, mas nunca permitirá que a apaguem já que ela faz parte da sua própria essência.
Pode ficar tranquilo, senhor primeiro-ministro, que, de saudades, ninguém o deixará definhar. Era o que mais faltava!

A.R.
posted by digoeu @ 13:56  
Domingo, Outubro 07, 2007
Quem sou eu?

(Femme devant son miroir - Xavier Bricard)

Eu - monossílabo.
Eu só ou Eu e o mundo?
Ainda mais: Eu, o mundo e o Universo?

Eu sou. Eu não sou. Não sou nada para o Universo.
Eu sou tudo. Tudo para a família. Muito para os amigos. Pouco para os colegas.

Luto e vivo os meus sonhos - sou feliz - nas águas turbulentas da minha idade.
Sonhadora. Nostálgica. Distraída. Divertida. Triste.
Sou as pessoas. Coabito com as pessoas.
Sou como querem? Não!
Sou como pensam que sou? Não!

O coração! - esse é único. Astuto. Eficaz. Solidário. Corda da vida.

Tempo para reflectir? Tempo para ser? Tempo para fazer? Tempo para estar?

Nós, jovens, somos computadores, PSP's, jogos, violência e vida alheia - aspirações apagadas?
Nós, pais, somos mágoa e tristeza de guerras, ódios, indiferenças?
Nós, crianças, somos a esperança.
Eu? Sou revoltada. Quantos de nós têm sonhos e projectos para o futuro?!
Eu quero dar vida ao mundo!
Quero espraiar música. Som de piano. Língua Universal.
Quero também ser imortal. Não me refiro a fama - essa acaba. Falo de imortalidade como bondade. Energia positiva. Bem-estar. Emoção. Paz.
É impossível auxiliar o mundo. É uma missão ajudar uma alma, reavivar um sorriso, fazer acreditar numa mão amiga.

Quem sou Eu?

Sou defeitos. Sou pessoa.
Sou tristeza. Alegria.
Sou defeitos. Teimosia.
Sou defeitos. Dúvidas.

Quem sou Eu?

Sara Dantas Caldeira
posted by digoeu @ 17:09   13 comments
Sexta-feira, Outubro 05, 2007
Distância


A memória, de tanto ler ausência,
já não dói; as mãos, quando te apagam,
já não tremem da febre que espreitava a ilusão;
e até mesmo as palavras, cansadas de rasuras
sufocantes, carcereiras, ficaram desbotadas, ilegíveis.

Já não és traço em mim, margem de um
sonho iluminando a lenta espera das manhãs.
Vira a página. Eu já virei.

A.R.
posted by digoeu @ 20:49  
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