Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço em que de penetrar-te me senti perdido no ter-te para sempre - Quanto de ter-te me possui em tudo o que eu deseje ou veja não pensando em ti no abraço a que me entrego - Quanto de entrega é como um rosto aberto, sem olhos e sem boca, só expressão dorida de quem é como a morte - Quanto de morte recebi de ti, na pura perda de possuir-te em vão de amor que nos traiu - Quanta traição existe em possuir-se a gente sem conhecer que o corpo não conhece mais que o sentir-se noutro - Quanto sentir-te e me sentires não foi senão o encontro eterno que nenhuma imagem jamais separará - Quanto de separados viveremos noutros esse momento que nos mata para quem não nos seja e só - Quanto de solidão é este estar-se em tudo como na auséncia indestrutível que nos faz ser um no outro - Quanto de ser-se ou se não ser o outro é para sempre a única certeza que nos confina em vida - Quanto de vida consumimos pura no horror e na miséria de, possuindo, sermos a terra que outros pisam - Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti, recebo gratamente como se recebe não a morte ou a vida, mas a descoberta de nada haver onde um de nós não esteja.
Os que passam grande parte da vida a obedecer servilmente são os mais revolucionários na arte de humilhar os outros. Sem o mínimo sentimento de culpa, cientes de que chegou a sua vez de se vingarem de uma existência hipotecada, pavoneiam-se, delirantes, hasteando presunção e raquitismo mental. Frivolidade e um cinismo reiterado são os seus grandes pilares porque se habituaram a viver cheios de ressentimentos rasteiros, inexoráveis. Esquecem-se, porém, que nada daquilo que damos como certo o é. Tudo na vida é um empréstimo, e até as promoções com que o destino nos presenteia não passam de momentâneas glórias que, ao mínimo sopro, se desmoronam, empurrando-nos, de novo, para o último lugar da fila de espera rumo às variantes infinitas do acaso.
Nestes últimos tempos, estou farta de ler cartas abertas - dirigidas a eminências pardas - de professores queixosos, desesperados e… lúcidos. Tão lúcidos que, apercebendo-se da desorientação e do caos que, actualmente, proliferam nas nossas escolas, tentam, num acto de inútil coragem, despertar a consciência hipnotizada dos portugueses - já que os governantes, qual bela adormecida, mergulharam, intencionalmente, num sono impassível e resistente a todas as sirenes de emergência - para este saco de marasmo, facilitismo e mediocridade que é, presentemente, o ensino, em Portugal. O certo é que, como nos filmes de terror, todos constataram já quem é o psicopata mas ninguém tem o sangue frio necessário para o deter/abater tolhidos pela pressão de um rútilo, mas fraudulento, sucesso. Os professores, desmotivados, cansados, deixaram de ter a capacidade de acreditar que as coisas (ainda) podem mudar; os alunos, vítimas e carrascos, fortificam a indisciplina e a ignorância - batendo todos os records - apoiados por políticas que visam apenas um (in)sucesso cheio de fendas, estuque a cair e iminente ruína; os pais - ausentes ( em grande maioria) da escola e da vida dos filhos - vão acreditando que um simples reparo, umas estucadelas de manutenção, uma caiadela de quando em vez poderão alicerçar o que, na verdade, não tem suporte nem base. E ainda exigem que os professores transbordem de entusiasmo perante um cenário cada vez mais negro, perlado de injustiça, incúria e inquietante futuro. As salas de aula tornaram-se verdadeiras câmaras de horror. O desrespeito prolifera. A cretinice seria hilariante se não causasse tantos estragos. O desaforo e o absentismo são premiados. A indisciplina é impermeável a qualquer castigo porque este simplesmente deixou de existir. A violência verbal e física fazem permanente curto-circuito nas aulas. E o professor, coitado, chamuscado - por vezes até queimado - pergunta-se: - Quando chegará a minha hora, meu Deus? O momento da tão desejada reforma - cada vez mais reduzida e longínqua?! O ensino, em Portugal, está a dar as últimas. E o problema, meus amigos, é que os senhores dos gabinetes em lugar de chamarem médicos especialistas - e conhecedores - que possam evitar a tragédia, limitam-se, parece-me, a mandar rezar missas em sua memória. Sinto-me um círio derretido porque começo a recear deixar-me embalar pela doce cantilena - O que não tem remédio, remediado está. Paz às nossas almas!
A maioria das pessoas orgulha-se de levar a vida muito a sério. Para além de demonstrarem falta de humor, elas revelam desconhecer a eficácia de um sorriso para dosear tristezas, mal-estar, fatalidades e outros contenciosos afins. Um sorriso pode ser uma lição de coragem, uma subtil bofetada dada na hora e no momento oportunos, um gesto capaz de desarmar hostilidades, um dom cheio de múltiplas variações mas sempre com o mesmo objectivo - levar-nos a acreditar que, por mais cerrada que seja a noite, há sempre um pontinho luminoso pronto a servir-nos de guia. É tudo uma questão de mais ou menos névoa. De observação cuidada. De tempo. De persistência. E de autenticidade, claro.
Não deixes que o negro escarpado do medo construa em ti a palavra hesitação. A vida é plena e não pode obedecer à tirania de fortalezas que a cercam de sombras. Nelas crescem, continuamente, feridas a sangrar que resvalam, sem eco, pelo muro da indiferença, dos íntimos disfarces, de tontas encenações. Não sobrevivas: vive. Chama. Responde. Nunca fujas do que és. Sê forte. Afasta-te dos que servem a violência do gesto, o vértice enlouquecido da palavra, as noites sinuosas de raivas e rancores. Ignora a mão que esconde a pedra porque pouco ou nada significa; os teus amuletos são verdes e as tuas armas, que não aprenderam ódio, abrem secretas passagens para o coração daqueles que, desconhecendo-te,te procuram. A luz divina que te acompanha, mesmo quando parece declinar, cobre-te de imbatível força. O prenúncio de um novo dia justificará sempre a certeza incontornável do ontem e a transitoriedade do hoje.
A.R.
Nota: Agradeço à Cândida e à Eugénia o gesto de ontem.
O mundo está cheio de eminências pardas que se sentem no direito de exigir aos outros todas as cores do arco-íris. A vaidade, presunção e arrogância não provocam apenas cabeças inchadas de nada. Provocam, sobretudo, esvaziamento da alma. O que se faz - ou não se faz - mais do que levar a grandes ou medíocres desempenhos, não é marca dominante do nosso valor. Este depende, em grande parte, da simpatia, da afabilidade e da humildade do saber ser e estar. De pouco adiantam, pois, os nossos conselhos se as nossas atitudes não fizeram jus às nossas palavras que, na maioria dos casos, dão para tudo e para o seu contrário. Ser-se grande não é uma vocação. É uma forma de carácter, de riqueza interior, de convicção.