folhasoltas
Quinta-feira, Novembro 29, 2007
Quanto de Ti, Amor

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

Jorge de Sena
posted by Angel @ 20:13   2 comments
Quinta-feira, Novembro 22, 2007
Soneto 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

William Shakespeare
posted by Angel @ 17:29   2 comments
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Altos e baixos

Os que passam grande parte da vida a obedecer servilmente são os mais revolucionários na arte de humilhar os outros. Sem o mínimo sentimento de culpa, cientes de que chegou a sua vez de se vingarem de uma existência hipotecada, pavoneiam-se, delirantes, hasteando presunção e raquitismo mental.
Frivolidade e um cinismo reiterado são os seus grandes pilares porque se habituaram a viver cheios de ressentimentos rasteiros, inexoráveis.
Esquecem-se, porém, que nada daquilo que damos como certo o é. Tudo na vida é um empréstimo, e até as promoções com que o destino nos presenteia não passam de momentâneas glórias que, ao mínimo sopro, se desmoronam, empurrando-nos, de novo, para o último lugar da fila de espera rumo às variantes infinitas do acaso.

A.R.
posted by digoeu @ 14:18  
Sábado, Novembro 17, 2007
Paz às nossas almas
Nestes últimos tempos, estou farta de ler cartas abertas - dirigidas a eminências pardas - de professores queixosos, desesperados e… lúcidos. Tão lúcidos que, apercebendo-se da desorientação e do caos que, actualmente, proliferam nas nossas escolas, tentam, num acto de inútil coragem, despertar a consciência hipnotizada dos portugueses - já que os governantes, qual bela adormecida, mergulharam, intencionalmente, num sono impassível e resistente a todas as sirenes de emergência - para este saco de marasmo, facilitismo e mediocridade que é, presentemente, o ensino, em Portugal.
O certo é que, como nos filmes de terror, todos constataram já quem é o psicopata mas ninguém tem o sangue frio necessário para o deter/abater tolhidos pela pressão de um rútilo, mas fraudulento, sucesso. Os professores, desmotivados, cansados, deixaram de ter a capacidade de acreditar que as coisas (ainda) podem mudar; os alunos, vítimas e carrascos, fortificam a indisciplina e a ignorância - batendo todos os records - apoiados por políticas que visam apenas um (in)sucesso cheio de fendas, estuque a cair e iminente ruína; os pais - ausentes ( em grande maioria) da escola e da vida dos filhos - vão acreditando que um simples reparo, umas estucadelas de manutenção, uma caiadela de quando em vez poderão alicerçar o que, na verdade, não tem suporte nem base.
E ainda exigem que os professores transbordem de entusiasmo perante um cenário cada vez mais negro, perlado de injustiça, incúria e inquietante futuro.
As salas de aula tornaram-se verdadeiras câmaras de horror. O desrespeito prolifera. A cretinice seria hilariante se não causasse tantos estragos. O desaforo e o absentismo são premiados. A indisciplina é impermeável a qualquer castigo porque este simplesmente deixou de existir. A violência verbal e física fazem permanente curto-circuito nas aulas. E o professor, coitado, chamuscado - por vezes até queimado - pergunta-se:
- Quando chegará a minha hora, meu Deus? O momento da tão desejada reforma - cada vez mais reduzida e longínqua?!
O ensino, em Portugal, está a dar as últimas. E o problema, meus amigos, é que os senhores dos gabinetes em lugar de chamarem médicos especialistas - e conhecedores - que possam evitar a tragédia, limitam-se, parece-me, a mandar rezar missas em sua memória.
Sinto-me um círio derretido porque começo a recear deixar-me embalar pela doce cantilena - O que não tem remédio, remediado está.
Paz às nossas almas!

A.R.
posted by digoeu @ 13:43   2 comments
Sábado, Novembro 10, 2007
Sorria
A maioria das pessoas orgulha-se de levar a vida muito a sério. Para além de demonstrarem falta de humor, elas revelam desconhecer a eficácia de um sorriso para dosear tristezas, mal-estar, fatalidades e outros contenciosos afins.
Um sorriso pode ser uma lição de coragem, uma subtil bofetada dada na hora e no momento oportunos, um gesto capaz de desarmar hostilidades, um dom cheio de múltiplas variações mas sempre com o mesmo objectivo - levar-nos a acreditar que, por mais cerrada que seja a noite, há sempre um pontinho luminoso pronto a servir-nos de guia. É tudo uma questão de mais ou menos névoa. De observação cuidada. De tempo. De persistência. E de autenticidade, claro.


A.R.





Está a ser filmado/a, sorria, por favor.

Obrigada pela visita.

posted by digoeu @ 15:41   8 comments
Terça-feira, Novembro 06, 2007
Sorte

Foi
Assim
Que iniciou
O nosso amor:

Numa certa noite,
Andava eu pensativo
Quando, um tanto de repente,
Meus olhos acharam os teus.

Estes, ao mirarem para os meus,
Injetaram em mim tamanha emoção
Que me fez perceber imediatamente -
Naquele instante terminou minha procura!

Roberto Policiano
posted by digoeu @ 10:09   6 comments
Domingo, Novembro 04, 2007
Escuta

Não deixes que o negro escarpado do medo construa
em ti a palavra hesitação. A vida é plena e não pode
obedecer à tirania de fortalezas que a cercam de sombras.
Nelas crescem, continuamente, feridas a sangrar que resvalam,
sem eco, pelo muro da indiferença, dos íntimos disfarces,
de tontas encenações. Não sobrevivas: vive. Chama. Responde.
Nunca fujas do que és. Sê forte. Afasta-te dos que servem

a violência do gesto, o vértice enlouquecido da palavra, as
noites sinuosas de raivas e rancores. Ignora a mão que esconde
a pedra porque pouco ou nada significa; os teus amuletos são
verdes e as tuas armas, que não aprenderam ódio, abrem secretas
passagens para o coração daqueles que, desconhecendo-te, te procuram.
A luz divina que te acompanha, mesmo quando parece declinar,

cobre-te de imbatível força. O prenúncio de um novo dia justificará
sempre a certeza incontornável do ontem e a transitoriedade do hoje.

A.R.

Nota: Agradeço à Cândida e à Eugénia o gesto de ontem.
posted by digoeu @ 16:11  
Quinta-feira, Novembro 01, 2007
Eminências

(Art-Singulier - Vanité)

O mundo está cheio de eminências pardas que se sentem no direito de exigir aos outros todas as cores do arco-íris. A vaidade, presunção e arrogância não provocam apenas cabeças inchadas de nada. Provocam, sobretudo, esvaziamento da alma. O que se faz - ou não se faz - mais do que levar a grandes ou medíocres desempenhos, não é marca dominante do nosso valor. Este depende, em grande parte, da simpatia, da afabilidade e da humildade do saber ser e estar.
De pouco adiantam, pois, os nossos conselhos se as nossas atitudes não fizeram jus às nossas palavras que, na maioria dos casos, dão para tudo e para o seu contrário.
Ser-se grande não é uma vocação. É uma forma de carácter, de riqueza interior, de convicção.

A.R.
posted by digoeu @ 12:11  
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