Contas feitas, chegamos ao final do ano. Invariavelmente, chegam, também, os tradicionais votos de “boas saídas” e de “melhores entradas”. E, como todos precisamos de sonhos, voltamos a apostar num novo ano, em novas ilusões, em velhos desejos, no turbilhão de mil e um compromissos de mudança e de reciclagem. Não sei o que virá com/em 2008, mas acredito que não bastará aturdirmo-nos com projectos e promessas saloias ou megalómanas. À hipótese dourada de, qual fénix renascida, podermos apagar tudo o que condicionou o tão almejado encontro com a perfeição e a felicidade, juntar-se-á, inexoravelmente, a nossa fragilidade humana emanando um perfume efémero e ilusório. Deste modo, ponhamos de parte os embrulhos reluzentes de boas vontades e belíssimas intenções – delas está o inferno cheio – braçadeiras e coletes de salvação, teorias premonitórias de gratificações, sucessos e paraísos pessoais. Sejamos, tão-somente, genuínos e conscientes. 2008 poderá ser um presente extraordinário ou um incêndio ateado de infortúnios. A forma de aceitar ou enfrentar esse desafio ficará, no entanto, por nossa conta e risco. Eu vou arriscar recebê-lo com um sorriso simpático e radioso. Afinal – dizem - comportamento gera comportamento. Sinceramente, vá por mim: sorria-lhe também. A.R.
As flores que te dei são inominados poemas. Cada flor é um poema dito sem palavras. Cada Palavra é uma pétala de gestos. Os poemas, esses, São inscritos nas corolas e as abelhas sugam-lhe O néctar. Sabe bem a cor dos poemas. Ditos interrompem O silêncio que os tece numa escrita invisível entre sentidos De doçura que o espírito anima. Os poemas esperam A sensação sentida da escrita silenciosamente dita.
19.03.1996 José Custódio Almeida da Silva Amanheceste em mim pelo poente
Por mais que tente, as palavras nunca são a expressão exacta do que sinto. Há sensações difíceis de exprimir, fumos de aparência a cobrir a verdade, gestos vagos que brotam frios de mãos caladas. O tempo é outro, a estrada que me leva não sei onde já não tem a frescura orvalhada da infância. Não sei que sede a água não sacia, não sei que fome o pão não satisfaz, e até a estrela que procuro, nos tons doridos da lonjura, perde-se em mim numa chama fugaz.
Esta noite, deitada sobre nascentes de afectos, demora-se na alma envolta de cor, ternura e encanto. Há nela um aroma, uma ponte de luz, duas sílabas doces, perfeitas e simples que descem do céu murmuradas pelo vento.
Esta noite, a maior, a mais bela, ensina o amor, crê no perdão,
festeja a amizade, revela ao Homem a sua Salvação.
Chegou Dezembro. A fraternidade começa a envolver-nos. E o amor e a humildade e a generosidade, num êxtase confuso de valores, consomem frivolidades, votos e ladainhas à medida da injustiça e da miséria Universal. Assim, numa calendarizada toada de redenção, alegramo-nos, como é de abnegado bom tom, porque os outros, os nossos anónimos irmãos, numa única noite do ano, têm direito à nossa parca disponibilidade e indiferente atenção.