Ser professor é ser missionário ( mais um contributo para o debate de hoje - Prós e Contras)
Cara Dra. Fátima Campos Ferreira
Quero em 1º lugar pedir desculpa por invadir a caixa de correio do seu programa.Sei que compreenderá o motivo. A verdade é que, nós professores, não podemos ficar paralisados a assistir à decadência do ensino e da educação em Portugal.Os professores estão deveras preocupados com o FUTURO DA ESCOLA PÚBLICA. Esta, está a ser pautada pela mediocridade e está mais confusa do que nunca.Ora, se a confusão reina na Educação, o que será o reflexo disso nos outros Sectores da Sociedade?!!! Gostaria que os nossos governantes pensassem nisso.Essa é a sua obrigação.Nelson Mandela proferiu num dos seus discursos a seguinte frase: " A única arma capaz de mudar o Mundo é a Educação". Pitágoras terá dito também "eduquem as Crianças e não será preciso castigar os Homens". A política de Educação deste governo deita por terra todos os valores que temos vindo a querer ensinar aos nossos jovens. Valores como o empenho, a assiduidade, a pontualidade, o esforço, o respeito por si próprio e pelos outros, etc parecem ter passado de moda!!! Será isto verdade? Como pode uma sociedade ser produtiva se a escola fomenta o não trabalho e não valoriza o esforço e o desempenho? Vamos tornar virtuais todas as actividades da vida humana? A Escola está confusa. O Ministério da Educação tem vindo a confundir "escola inclusiva" com facilitismo, impunidade face à indisciplina e à falta de respeito pelas regras e valores da sociedade. Dizia Platão que ninguém ensina nada a quem não quer aprender.Os professores gastam a sua energia com os maus alunos, que só estão na escola pelo Abono de Família e pelo Rendimento de Inserção Social. Os Pais demitem-se e delegam na escola toda a responsabilidade. Como podemos educar jovens que não vêm à escola e os pais não aparecem (mesmo convocados)?!!! E que consequências têm os Pais? Nenhumas. Continuam a receber o Abono de Família e o Rendimento de Reinserção Social!!!Não deveriam perder estes direitos? Que incentivos coloca a escola pública aos bons alunos? Nunca hove tanta desigualdade na escola como agora!!! Pena que os nossos políticos legislem só para os "filhos dos outros". Sim, porque os filhos deles estão no ensino privado onde tudo é diferente. Talvez valha a pena pensar nisto. O novo estatuto do aluno deve ser pensado ( devia ter sido antes de publicado). É preciso por fim à obsessão pelos números. Estes são importantes quando a qualidade faz parte deles. Podemos correr o risco de virmos todos a "odiar" a Matemática. No que respeita a alguns assuntos, nomeadamente no que concerne à educação, as pessoas têm de estar acima de qualquer posição partidária. Mais poderia dizer mas, termino afirmando que sou professora há 23 anos, por convicção e paixão e doi-me a alma ver e assistir a tanta aberração. Costumo dizer aos meus alunos que gosto tanto da escola que nunca sai dela. Tenho 45 anos, vou ter de trabalhar, pelo menos mais 20 (presente por começar a trabalhar cedo e não ter sobrecarregado os contribuintes)e receio não aguentar. Espero com este desabafo contribuir, de alguma forma, para a discussão/debate do seu programa. Não resisto em pedir-lhe que ajude a Senhora Ministra a pensar.
De uma forma mais ou menos sumária - que estamos em tempo de crise insanável - informo que decidi obter por mérito e desvelos próprios o direito a apresentar a minha discordância face às delirantes medidas apresentadas - a ritmo febril - pelo Ministério da Educação. Eu vou à tal manifestação convocada por sms para hoje à tarde, ainda que correndo o risco de ouvir, nos noticiários da noite, o Eng.º Sócrates afirmar, com aquele sorriso dúbio e pouco empático, que são sempre os mesmos a manifestarem-se : os sindicalistas, os comunistas. Confesso, senhor primeiro-ministro, que fui daquelas pessoas - a maioria - que acreditaram, tolamente, nas suas promessas, no seu discurso cheio de amparo e de abrigos, na sua esforçada - e fictícia - franqueza perante o eleitorado. E votei em si. No seu partido. Pois é, Sr. Eng.º, eu votei em si. Lamentável, mas verdadeiro. E agora? Vai continuar a clamar que são sempre os mesmos canalhas - que vossa excelência diz conhecer já muito bem - os que agridem a democracia porque não aceitam dançar ao som da música, cínica, déspota, da sua orquestra?! Sabe qual é o seu calcanhar de Aquiles, senhor primeiro-ministro? V. Ex.ª convenceu-se que tudo deveria caminhar conforme o previsto (por si), ou seja, que os portugueses deveriam valorizar o facto de o senhor, qual Messias disponível e dedicado, se ter oferecido voluntariamente para os salvar. E está tão tolamente arreigado a essa convicção que não tolera a mínima oposição, o mínimo descontentamento, a mais leve das críticas. O problema, o seu problema, é que os portugueses, uns ingratos, fartos de tantas ensaiadas parábolas, fartos de o ver circunscrever tudo à sua pessoa e às suas miraculosas intenções, fartos da sua arrogância , fartos da sua constante adulteração da realidade, fartos, enfim, de demagogias e opressão, resolveram acordar de uma profunda letargia e dizer basta. Basta! É por tudo isto que eu vou à manifestação convocada por sms. Porque, apesar dos tempos difíceis que vivemos, ainda consigo perceber que pior do que o esvaziamento para onde nos querem projectar é perder a vontade e a lucidez de afirmar livremente – Não, eu não vou por aí!
Nota: Os professores não acudiram aos milhares, é certo. Por desconhecimento, receio, comodismo, porque os colegas já lá estavam para protestar por eles. Também não vi hostes conspiradoras. Vi raiva. Vi desolação - como é possível o ensino ter-se aliado ao caos, ao facilitismo, à ignorância, à indisciplina e até mesmo ao compadrio?! Vi pessoas a pedirem respeito pela sua profissão. Os slogans não eram orquestrados: nasciam espontaneamente, espalhando-se com a força que só a injustiça e a cegueira, persistente e dominadora, provocam. Os lenços brancos, acompanhados de chuva, apareceram num gesto simbólico que traduzia a vontade de antes quebrar que torcer daquelas centenas de pessoas. Porque o ensino não pode remar ao sabor da vontade de frios burocratas que nada sabem da realidade de uma sala de aulas. Porque é criminoso premiar o desleixo, o absentismo, o desinteresse, a ignorãncia e a falta de empenho e de trabalho. Aliás, se o ministério da educação enche de benesses os alunos que mais faltam, menos estudam e mais desinteresse demonstram, o que pensará fazer com os que estudam, trabalham e se esforçam? O justo, creio, seria oferecer a todos os que agem como alunos empenhados, responsáveis e sabedores - e ainda os há, felizmente, embora ignorados por este governo - prémios de louvor e de desempenho. Uma estada nas Caraíbas. Uma visita à Disneyland. Uma garantia futura de emprego. A escolha é rica e variada. Só é preciso que os nossos governantes queiram premiar o sucesso real , nunca (em francês técnico jamé)) um sucesso rápido, fraudulento. Não, não estou contra a avaliação dos professores. Estou, sim, contra o tempo que nos exigem, perdido entre grelhas, relatórios, mais grelhas, mais relatórios, títulos, decretos, leis,alíneas... Afinal, senhora ministra, o que lhe peço é tão simples - DEIXE-ME ENSINAR! Enfim, pode a senhora ministra continuar a tentar telecomandar os professores através de projectos suicidas, impraticáveis, vexatórios, punitivos. Pode, na verdade, haver quem goste de agir e de reagir como autómato. Contudo, e muito para além da paranóia do sucesso e de medidas economicistas de tecnocratas narcísicos, haverá sempre quem, por dignidade, teime em fazer ouvir a sua voz. Mesmo tendo que se identificar perante a polícia. Hoje como ontem.
Está visto que este governo quer apenas duas coisas: ter sempre razão e fazer o que lhe der na real gana. Uma espécie de síndrome do poder. Os sintomas? Considerar-se o eleito, o salvador da pátria, uma espécie de guru rijo, inovador, pronto a oferecer o último design, a última fronteira da modernidade, a sorte grande. Não adianta clamar, lutando pela emancipação e pelo direito à escolha, que não queremos o prémio. Qual quê! Manipulam-nos, amordaçam-nos, aplainam-nos o pensamento e a vontade, desactivam-nos os circuitos cerebrais e, num ápice, deixamos de contestar, de vociferar e damos por nós a agradecer a benesse numa homilia perversamente fosforescente. Confesso que, inicialmente, amaldiçoando a incompetência, a pouca vergonha e a pantomima, ainda me revoltei. Fiz greve. Fui, pela primeira vez na vida, inscrever-me num sindicato. Acendi a chama da resistência e da oposição. Tudo debalde! - dou comigo a pensar. De que adianta colocarmo-nos, tolamente, diante dos "carabinieri" se alguns dos que deveriam estar do mesmo lado, vão ficando, mansamente, pelo caminho atraídos pelos títulos (do tesouro) e pelos certificados (de aforro)?! Não! Há momentos na vida que são um verdadeiro sinal. Assim, estou decidida a formatar a minha mente e a minha consciência, evitando esforços e causas inúteis, substituindo o desacordo por uma disciplinada obediência, a dignidade pela mais rasteira subserviência, a lucidez pela mais oportuna das cegueiras. O importante é não desmerecer a genialidade dos que nos governam, ficando cotada/o no mercado como promessa viável para os próximos mandatos - que sejam muitos, ora! Se a senhora ministra da educação (não esquecendo o mui talentoso Miguel Sousa Tavares) afirma que não passamos de uns professorzecos malandros e irresponsáveis, quem sou eu - quem somos nós - para a contradizer?! Somos. Professorzecos. Preguiçosos. Malandros. Uma corja de inúteis. Eles, os tais eleitos, estão muito acima de nós. São uns iluminados: basta avaliar aquele trabalho de inglês comercial - um verdadeiro tratado de conhecimento, rigor e excelência; isto para não falar da estética, harmonia e inovação daqueles projectos belíssimos da responsabilidade do nosso primeiro. E, além disso, todos queremos atingir o mesmo objectivo, não é verdade? - o almejado sucesso dos alunos. A bem ou a mal. Com ou sem merecimento. Para o caso, e vendo bem as coisas, tanto faz. Faltas? Que mesquinhez. Conhecimentos? Para quê?! Exigência? Educação? Ora, não sejamos mais papistas que o papa. As criancinhas têm toda uma vida para aprender, e está mais que provado que nem sempre são os mais qualificados que se safam. Perdão, têm sucesso. O importante, o cerne da questão está nos professores, uns canastrões. Que não querem ser avaliados de acordo com os parâmetros da (i)legalidade, da mais obscura subjectividade, da (in)justiça. Que ousam ter a veleidade de pensar, de reflectir, de analisar, de criticar. Para o desemprego com os que não alinharem. Rebuçados para os que vão mastigando lentamente a pílula à espera do tal bem-estar que não tardará a chegar… numa manhã de nevoeiro. Medalhas e condecorações para os que, voluntariamente, não se limitam a engolir a pastilha e têm - ainda há gente de visão alargada - gosto em a dourar, louvar, glorificar. Sim, senhora ministra, eu estou do seu lado. Clara, inequivocamente do seu lado. Até que a morte nos separe ou as eleições a empurrem para uma outra dimensão que a distancie eternamente de mim/de nós.
Por que razão deixaste de escrever?! Eis uma pergunta à qual não consigo responder. Um mero “não sei” seria uma resposta sem definição, sem história. E eu gosto de histórias: alegres, tristes, banais, cheias de glória ou até mesmo com saldo negativo no final. Tento apenas evitar as medíocres, as que estão cheias de restos de tantas coisas que é impossível atribuir-lhes algum valor, o mínimo interesse convincente. Daquelas que ficam mortas à nascença porque, desumanizadas e previsíveis, nem esperam por nós convictas de que não precisamos de leveza, de sonho, de fé. Vamos então partir do princípio que eu conheço a razão deste temporário abandono ao mundo da escrita. Não, não peçam já a conta. Vou responder clara e lucidamente. Pelo menos tão lucidamente quanto puder. Sem cinismos, sem sinistras intenções, sem sorrisos melífluos mas traiçoeiros. A verdade é esta - sinto-me serena, pacificada com a vida, comigo, sem aquela demolidora ânsia de recomeço, de procura equivocada e inquieta. Não confundam esta tranquilidade com conformismo. Não fui, nunca serei uma mulher de comportamentos tácticos, inundados de truques, mezinhas e amuletos. Sou genuína nas minhas emoções; nos meus sentimentos; nas minhas reacções. Não tenho jeito para reverências, salamaleques, piruetas de subserviência, bocejos de resignação. Rejeito o papel de ovelhinha, ingénua e indefesa, caminhando inocentemente rumo à boca do lobo. Se me aproximo do lobo - e, às vezes, sou dada a essas proezas - é sempre por minha conta e risco. Estupidez? Insanidade? Penso que não. Talvez uma vontade imensa de me recusar portátil, mortiça, invisível. Não, volto a repetir, não se trata de resignação apática, desfocada, penalizadora. Mudaste! Mudaste! - comentarão os bem-humorados, recriando o conhecido spot publicitário. Não mudei. Passei apenas a ter mais disponibilidade para me aceitar como sou, sem desgaste, sem humilhação e sem derrota. Pintei a alma de um verde-claro, mas não me limitei a colocar cor sobre cor. Raspei o cinzento que me tolhia e baralhava os pensamentos. Varri o chão enlameado que me encalhava o movimento, obrigando-me a gestos e mais gestos de inútil, cansativo desespero. Foi o suficiente para que o corpo se acalmasse, aquecesse, os sentimentos se aclarassem e a alma rejuvenescesse naturalmente - as plástica à alma deixam sempre cicatrizes profundas, artificiais, feias. Claro que houve pequenos/grandes detalhes que contribuíram para esta acalmia. Amigos sólidos. Portas fechadas definitivamente. E o Giga, o gato. É hilariante, mas juraria que não fui eu que o adoptei. Ele é que me escolheu. Olhou para mim e deve ter pensado - cabe-me a missão de ensinar a esta complicada da vida o gosto de um espreguiçar ronronante, plácido e cheio de prazer. Ainda não aprendi a espreguiçar-me por dentro com esse requinte quase ritual. Mas começo a perceber que também há ocasiões em que é preciso ver as coisas por cima, sentindo quanto gostamos de nós, dos outros - sobretudo daqueles que encaram a nossa vulnerabilidade com sensibilidade paciente e divertida - e do sabor, ora doce ora acre, da vida: serena, simples, não dependente. A razão do meu distanciamento - temporário - da escrita? A tal preguiça interior é que tem a culpa, ora.