NÃO SOU NADA. NUNCA SEREI NADA. NÃO POSSO QUERER SER NADA. À PARTE ISSO, TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO.
Álvaro de campos
São três as letras que descrevem uma palavra quase sempre dolorosa - Fim. Pode não ser um vocábulo contagioso, mas que é quase sempre tóxico não tenho a menor dúvida. O fim pode equivaler a um verdadeiro prodígio de tristeza que se entranha no corpo e na alma. Ou, então, como é o caso, deixar um sabor a algodão doce que, na impaciência resignada dos dias, passará a uma luz mansa e encantada gerando uma saudade mais ou menos doída, mais ou menos consoladora, mas sempre desejada. Quando o que se vive redime, apazigua, faz renascer, demora-se, inexplicavelmente, tão pouco a chegar ao ponto final! Não estou a referir-me ao final de uma extasiante paixão, muito menos de um grande amor. Deixo para outro tipo de escrita e estado de alma as habituais palavras em forma de coração rubro ou… fossilizado. Não pretendendo amontoar mais dúvidas, esclareço que o epílogo de que tenho vindo a dissertar tem a ver com uma recordação, em vias de se tornar uma cálida lembrança - as férias. Tempo sem neuras, malentendidos, faz-de-conta, pressões, desgaste. Tempo de consolo mágico, de sentimentos fluorescentes, de mais-valias, de miraculosa serenidade. Eis-me, pois, perante uma realidade fria e incontestável - as férias acabaram. É tempo de uma nova - sempre velha - rentrée no trabalho, na rotina, nos dias meticulosamente iguais, nas habituais caras cinzentonas de alguns, no “para quê simplificar se posso complicar”, nas feiras de vaidades, nos carimbos de “sou importante” por inerência, nos foguetes sem festa, na esperteza sem mérito, na mediocridade cada vez mais ampla e premiada. Recordo com um sorriso o “ontem”. Todavia, sinto que estou preparada para o que se segue. Viver, aprender, ensinar. É certo que ocupei algum tempo das minhas férias a tentar impingir-me este chavão - Vais observar sem ver; ouvir sem comentar; falar só o politicamente correcto e recomendável. Conhecendo-me como me conheço, ser-me-á penoso - para não dizer impossível - pôr em prática tal decisão. A ver vamos. Há, todavia, algo de que não penso abdicar - nunca hipotecar as minhas ideias em prol de estonteantes cenários que apenas têm a virtude de poderem ser manipulados para a direita ou para a esquerda, dependendo do que se achar mais conveniente. Estou, peremptoriamente, decidida a encarar este fim de férias com confiança, calma e humor. Aliás, não recomendo rentrées com mais olhos do que barriga. Há sempre o perigo de uma indigestão ou, no pior dos casos, de uma morte súbita. E para luto já basta o que nos é imposto pelos nossos governantes.
A.R. |