Calou, num lenço branco de silêncios, a terra, água, céu de que o amor é feito e um rio de palavras sonoras e profundas. O gesto, apenas esboçado, guardou-o, ao entardecer, naquele medo antigo de o ver ser recusado. Hipotecou o tempo na espuma de veleidades breves, mas quando se deu conta do reiterado equívoco, a vida, de mãos vazias, emurchecera.
"Há muitas coisas proibidas por lei, mas temos que proibir muitas outras a nós próprios."
Não querendo rasteirar, habilmente, a opinião de possíveis leitores, sinto que, subitamente desperta para o tempo e lugar a que pertenço, não sei se conseguirei manter-me fiel a mim mesma, nesta sociedade ferocíssima, onde não há lugar para ingénuos ou ingenuidades. Ao invés, tão consciente é a certeza de uma cada vez maior falta de elegância moral. Não tenho medo da vida. Receio, porém, certos gestos paternalistas que não ocultam senão versões diferentes e onduladas de a transfigurar. Receio, sobretudo, aqueles que, por puro oportunismo, engrossam as suas performances com o único intuito de nos impedir de ver as suas verdadeiras identidades. A minha intuição misturada com alguma dose de inteligência, cria eu, seriam suficientes para evitar rasteiras, golpes baixos, vaidades e friezas, com uma certa margem de segurança e de distanciamento. Falsa premissa. Neste mundo à deriva, onde a lei da selva impera e as consciências não pesam, romper compromissos e lealdades - até aquela que devemos ter para connosco - é um acto banal, reconhecido e aplaudido. No essencial somos iguais - dizem os cientistas, após a descodificação do genoma humano. O resto, amalgamado por ambições e falta de carácter, varia de pessoa para pessoa e da maior ou menor capacidade de nos habituarmos à loucura e à injustiça. Desculpem o desabafo, mas começo a dar-me conta de que deveria ser possível legislar a moral e a ética.
Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Depois de ter ouvido o discurso da Dr.ª Manuela Ferreira Leite, fiquei com a indiscutível certeza de que a senhora é uma excelente representante da classe política. Passo a esclarecer: fala pouco e, quando abre a boca, pouco ou nada diz; tem uma postura espartana, rígida, daquelas que dão logo a perceber ao eleitorado que a oposição é um conceito difuso, quase abstracto; por último, aparece de quando em vez e sempre com ar de quem está a fazer um grande favor aos que nela depuseram algumas esperanças de mudança. Há, contudo, uma característica no seu discurso que o distingue dos habituais sermões híbridos dos outros políticos a quem sempre falta o essencial – convencer. Manuela Ferreira Leite, líder social-democrata de uma oposição-fantasma, recria de tal forma uma postura de não-estar na vida política que, de imediato, nos ocorre este pensamento – se (o) Sócrates é um primeiro-ministro com um alter ego genuinamente intragável, esta, com toda a certeza, não será mais doce ao ser ‘assimilada’. E assim vai Portugal. E assim estamos nós, portugueses, neste tabuleiro de xadrez, ouvindo, permanentemente – xeque-mate! Num país onde a corrupção nem sequer é anónima e no qual impera a lei do mais rico, poderoso, influente e sem-vergonha, a arte de saber viver está em interiorizar que o que dá é ser sacana, mas a grande escala. A justiça, sobretudo nos tempos que correm, é coisa que não pertence à história dos homens. Na chamada era de modernização do país, quanto maior for o crime, maior a legitimidade dos criminosos para pedir indemnizações. Exemplificativo e exemplar país.
Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la? Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante. Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI. O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente. Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente. Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente. Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade. Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas. Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo. Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.
Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão,fazem planos e à mínima merdinha entram logo em 'diálogo'. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam 'praticamente' apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso 'dá lá um jeitinho sentimental'. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casais. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A vida é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Parabéns, Rodrigo! Quatro anos, já fazes quatro anos. Uma vida tão pequena, mas tão cheia de luta e de grandes batalhas, pequenote. A tia Sónia contou-me que, superando todas as expectativas, ultrapassaste uma das mais difíceis barreiras do teu, ainda pequeno, percurso. E já caminhas, já corres, já acompanhas a vida com passos firmes, curiosos, decididos. O que falta alcançar, Rodrigo, virá quando menos imaginarmos, pois esse sorriso maroto, esse olhar cheio de pássaros gostam de nos surpreender. Depois, estou segura, será sempre a subir, até ao cume das montanhas mais sólidas, mais altas, mais livres. E todos nos congratularemos com o teu triunfo porque todos gostamos muito de ti. Beijinhos e um xi-coração do tamanho do carinho que me fazes sentir.
Estavam decididos a tomar o castelo, expulsar o suserano, ocupar o trono, aumentar os servos, alargar as terras. Inicialmente, o plano consistia numa invasão rápida e inesperada. Assim, de terra em terra, os três cavaleiros iam espalhando a sua doutrina com o único objectivo de angariar partidários para a sua causa. Falavam de injustiças, apregoavam liberdades, hasteavam igualdade. Os ingénuos acreditavam, piamente, nas suas falsas palavras; os astuciosos viam nelas uma oportunidade de singrar na vida; os mais experientes abanavam a cabeça, benziam-se e continuavam a lavrar os campos. Com o tempo tinham aprendido que ninguém deseja o poder para melhorar a vida dos outros. Com o tempo tinham aprendido que nas grandes cruzadas noventa e nove por cento dos cruzados pretende alcançar riqueza e glória e que apenas um por cento dedica a alma e a vida a uma fé ou causa. Ao fim de algum tempo, os cavaleiros começaram a perceber que não seria com parábolas e sermões que obteriam o tal exército capaz de derrubar, rapidamente, as muralhas do castelo. Mesmo os voluntários, camuflados sob o solidário objectivo, começavam a fazer reivindicações, criando pequenos conflitos que em nada beneficiavam o alvo do ainda incipiente contingente. À noite, os três cavaleiros, sentados à volta da fogueira, urdiam estratégias e mais estratégias, chamuscando os cabelos eriçados de ambição. Não, não seria com aquele punhado de homens - alguns, fanfarrões e cobardes - que conseguiriam lograr o seu objectivo. Seria, pois, forçoso desenvolver um outro plano mais prático e eficaz. Silenciosamente, enquanto os outros dormiam, pegaram nos cavalos e armas, afastando-se para bem longe do acampamento e dos seus seguidores. Cavalgaram durante vários dias e noites até que chegaram às portas das muralhas. Um dos cavaleiros - a história não relata se haveria alguma hierarquia ou laços de sangue naquele pequeno grupo - recomendou aos outros dois que retirassem, lançassem fora as armaduras e todas as armas, soltassem as montadas e se misturassem, subtilmente, por entre as filas de mercadores e pequenos comerciantes que se preparavam para entrar no feudo. O relato é interrompido já que omite o que se passou nos tempos que se seguiram. A história - e tento ser fiel ao que me foi narrado - não indica as razões pelas quais, ao retomarmos o fio condutor da narrativa, vamos encontrar os três cavaleiros, governando, legislando e ocupando o papel de conselheiros-mor do rei. Magia? Artes demoníacas? O mistério ficará para sempre envolto em densas neblinas. O certo é que a fama, a riqueza e o poder dos três senhores se espalhavam pelos feudos e reinos vizinhos. Os amigos bajulavam-nos, jurando-lhes fidelidade, os inimigos temiam-nos, os servos rendiam-se ao seu despotismo. Só os velhos, fartos de taxas e do servilismo de sempre, cuspiam para o chão e benziam-se quando eles passavam. Não se sabe ao certo qual o final dos três cavaleiros. Uns dizem que, sempre envolvidos em guerras para aumentar terras e poder, acabaram por ser condenados à forca acusados de traição; alguns, talvez mais conhecedores dos desvarios do Homem, contam que, tolhidos por uma ânsia incontrolável de poder, acabaram por se ferir de morte uns aos outros sorvidos pela ambição desmedida que sempre os norteou; outros, aqueles que se inspiram em actos semelhantes para altear a sua fogueira de vaidades, descrevem a vida dos três cavaleiros como um feito heróico e libertador. A escolha é sempre nossa (mesmo quando decidem escolher por nós).