folhasoltas
Sábado, Outubro 25, 2008
Berço
Aquela árvore imóvel, nua,
cujo nítido perfil de abandono
nenhum raio de sol transfigurava,
todos os dias, à hora da mais

intraduzível solidão, entrelaçava
os estéreis, secos ramos num
macio, terno berço, para acolher
uma débil avezinha à procura,
céu acima, de inseguro voo.

A.R.
posted by digoeu @ 10:40   1 comments
Domingo, Outubro 19, 2008
A caneta de tinta permanente
O senhor Cerqueira estava exaltadíssimo. A causa de tamanha irritação tinha a ver com a carta que acabara de receber da vizinha do terceiro esquerdo, uma mulherzinha fútil e atrevida. Há meses, aliás, que não se falavam, mais precisamente desde que, na última reunião do condomínio, ela se atrevera a dizer-lhe, olhos nos olhos, que a sua letra era horrorosa e que, como representante dos moradores do prédio, ele precisava de actualizar-se e de começar a escrever as actas usando as novas tecnologias. Nããão! Nunca ele, Cerqueira, possuidor de uma clara, larga e bonita caligrafia, fora tão ultrajado, tão humilhado, tão depreciado. Assim, cabeça erguida, ventre encolhido, peito para fora, declarara em tom cavernoso, olhando de soslaio para a inimiga – Ninguém me paga o cargo nem o incómodo que dele me advém. Escolheram-me, têm de nos aturar: a mim e à minha caligrafia. Computadores? Não, obrigado. Continuarei, pois, com a escrita à mão e com a caneta de tinta permanente, fiel companheira de anos e anos de carreira profissional.
Mas não só. Esclareça-se que o Cerqueira, engenheiro reformado, ainda podia orgulhar-se de um porte de director (quase) distinto e de uma pontinha de charme que fazia rodar a cabeça às manas Magrebin, as moradoras do quinto direito, francesas, gémeas, distintas, cultas e respeitadas damas, bem como às senhoras que faziam parte do orfeão do Grupo Recreativo In Foglio, grupo coral onde o senhor engenheiro fazia ouvir a sua bela voz de barítono e a sua lírica poesia. Sim, o austero Cerqueira não escondia o seu talentoso calcanhar de Aquiles: a poesia. Sempre que o tempo lhe permitia uma folga, ei-lo, pena erguida, perdão, caneta na mão, escrevinhando, numa letra perfeita, estados de alma, apaixonados e cintilantes, que faziam tremer o coração das senhoras mais sensíveis e mesmo das almas mais anorécticas no campo amoroso.
O certo é que, a partir daquele qui pro quo relativo à caligrafia do administrador do prédio, nunca mais o Cerqueira se dignara cumprimentar a vizinha do terceiro esquerdo, mulher com fama de gastadora e, valha-lhe Deus, estouvada, superficial, doidivanas – como afirmavam, horrorizadas, as gémeas Magrebin que detestavam rafeiras actrizitas, orgulhosas, indisciplinadas, livres de exprimirem a sua opinião.
Virando e revirando o envelope, Cerqueira, o administrador, reparou no seu nome escrito a Arial Narrow, tamanho 16. O nervosismo deu lugar à raiva. A figurona, pelos vistos, já tinha um Magalhães!
Rasgando, abruptamente, o envelope, deparou-se com a seguinte missiva (letra Arial 12) :

Excelentíssimo Senhor:

Ontem, ao entrar no elevador, deparei-me com uma caneta Pelikan, verde musgo, que reconheci de imediato. A famosa caneta de tinta permanente do senhor Cerqueira – pensei. Como julgo tratar-se de um objecto de estimação, informo-o de que a coloquei na sua caixa de correio.

Atentamente,

A vizinha do 3º Esq.


Ainda colérico, Cerqueira procurou no bolso interior do casaco a preciosa caneta. Notando a ausência da fiel amiga – lembrança da mãe ao celebrar os vinte anos – , empalideceu. C’os diabos, como pudera ser tão desatento?! Sim, começava a recordar-se… ao sair do carro, pegara no casaco e dobrara-o cuidadosamente sobre o braço. Enquanto esperava pelo elevador, entraram as vizinhas do quinto direito. Cavalheiro, cumprimentara-as, segurando, cortesmente, a porta. As manas eram, realmente, duas belas mulheres, elegantes, perfumadas, espirituosas. Fora, certamente, nesse momento, que deixara cair o casaco. As senhoras riram, ele riu e fora aí, com toda a certeza, que a sua velha amiga caíra do bolso.
Enquanto se dirigia para a caixa do correio, o Cerqueira ia pensando – Afinal, o gesto da tresloucada do 3º fora… simpático.
Mesmo às existências mais borrascosas era possível, de quando em vez, substituir o castigo das bastonadas por um rebuçado. Na próxima reunião do condomínio, informaria os condóminos de que a acta continuaria a ser, fielmente, registada no livro de actas com a velha e preciosa caneta Pelikan. As cópias para os membros da assembleia seriam, contudo - num gesto de paz e harmonia - passadas ao computador pelo seu sobrinho.
Uma atitude magnânima – justificava-se – olhando com ternura a estilizada caneta de tinta permanente cuja tampa apresentava duas iniciais gravadas - AC - Alípio Cerqueira.

A.R.
posted by digoeu @ 09:40   4 comments
Domingo, Outubro 12, 2008
Saudade


Neste fim de tarde de estonteante silêncio,
a saudade acaba por se impor, como citação
absoluta, num local a que chamam coração.
Não arrasta consigo dúvidas ou remorsos,
muito menos lamentos, nem sequer o mais
ligeiro sobressalto. Ela é o tempo que promete
habitar a eternidade, a palavra plena que toca,
mansamente, o infinito, o gesto que se prolonga,
sem urgência ou fantasia, numa integral
repetição.
Neste fim de tarde, sem brisas súbitas, macia

e divina, a saudade veio tomar chá, trazendo de
presente o regresso de uma história, num
ramo de flores de belíssima, inefável solidão.

A.R.


posted by digoeu @ 17:02   2 comments
Sábado, Outubro 11, 2008
Assim não sei viver
Li, algures, que, a partir de certa idade, somos todos ficção de nós mesmos. E, contudo, apraz-nos fazer passar a imagem de que continuamos a ser aquele/a que sempre fomos. Ingenuidade? Oportunismo? Não sei, mas, em todo o caso, convém não esquecer que, mais cedo ou mais tarde, haverá sempre um preço a pagar. Quanto mais não seja o da perda da dignidade que cada um de nós deve conter em si.
Não gosto de pessoas sonsas. Desprezo-as. Prefiro-me imperfeita e tresloucada a carecer de carácter. Os sonsos não têm carácter. Às vezes são, outras não. Depende das circunstâncias lhes serem ou não favoráveis.
Os sonsos não fazem História, mas tudo fazem para que o seu nome nela conste. Não dizem, insinuam. Não atacam, colocam ratoeiras. Não condenam à morte, pedem a toalha para limpar as mãos.
Num tempo de indigerível falta de honradez – tal o nosso – os sonsos reinam. Não porque neles não exista o conhecimento de que aquela deve prevalecer sobre tudo e todos. Apenas nunca se fazem notar através dela, nunca a deixam ver. Talvez porque acumularam, ao longo dos anos, carradas e carradas de coisa nenhuma.
A vida, para os sonsos, é a arte de sobreviver de forma sub-reptícia para não se comprometerem com nada nem com ninguém. Aliás, sonso digno de tal atributo nunca perde ainda que nunca ganhe. Quando é para escorregar, escorrega; quando é para correr, corre; quando é para declarar vitória, grita; quando é para assumir a derrota, cala; enfim, nunca se define, vai-se definindo de acordo com regras mais ou menos subtis, mais ou menos híbridas.
De sonsos e sonsas estará o inferno cheio, mas sou capaz de apostar que o céu também. Até mesmo S. Pedro será capaz de confundir a arte de não ser com a arte de fingir que se é. No final de contas, acaba sempre por ser uma questão de perspectiva.
Assim não sei viver.

A.R.
posted by digoeu @ 19:45   1 comments
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
Do lado do desencontro


De tanto procurarmos a rua
que se perde no lado esquivo da sombra,
vamos excluindo qualquer possibilidade
de retorno a casa.

A.R.
posted by digoeu @ 21:41   1 comments
Domingo, Outubro 05, 2008
Dia do Professor
Dia do Professor.
E, no entanto, um dia não afasta a desolação e o cansaço que encharcam a alma de tantos e tantos professores. As palavras são pouco para traduzir a desmotivação com que estão a esmagar-nos a dignidade e até mesmo o bem-querer. Todavia, o silêncio a ninguém vale. Assim, embora consciente de que o que escrevo não revela com rigor a intensidade do que, actualmente, sente um professor, há que fazer um esforço e, com carácter de urgência, desmascarar esta política de ensino - soturna, injusta e asfixiante - que não é senão a marca de um sistema economicista, tecnocrata e totalitário, que fala em excelência sem a ter e, o pior de tudo, sem realmente a promover. Muito pelo contrário.
Lembro, ainda, com comovida gratidão os nomes de alguns professores que marcaram para sempre a minha vida. Eram outros tempos - dirão alguns. Sim, é certo. Aulas centradas no professor, na memorização, na disciplina. Não me recordo, porém, de ter ficado traumatizada pelo facto de me terem ensinado a ser bem-educada e exigido estudo e trabalho. Eram outros tempos, claro. Os meus pais, recordo, nunca me permitiram “pôr em causa” o papel do professor, nunca apoiaram a minha preguiça - que, em abono da verdade, era q.b. - jamais aceitaram que eu faltasse a uma aula sem uma razão imperiosa e, acima de tudo, sempre me motivaram para a escrita e para a leitura. Se queres ser alguém - bom, aqui enganaram-se pois ser professor, em Portugal, é ser ninguém - se queres ser alguém, tens de trabalhar, estudar, tirar boas notas.
Era, pois, impensável ir para a Escola “fazer turismo” ou nela descarregar violência, faltas de educação, de empenho e de vontade de aprender.
Houve, certamente, coisas que melhoraram. O diálogo passou a ser um dos pilares do ensino. A classe docente deu-se conta da necessidade de uma formação contínua. A Escola modernizou-se: vieram os computadores, a Internet, os quadros interactivos e a febre das novas tecnologias. Veio, também, uma nova avaliação e com ela um clima de medo e de ansiedade, excesso de burocracia e hierarquização, muita subjectividade e, logicamente, falta de rigor e muita injustiça.
A maior parte da classe é a favor de uma avaliação formativa, valorativa, isenta, visando a reflexão, o envolvimento dos professores - humilhá-los, esmagá-los através de uma política de arrogância, prepotência e desprezo é uma táctica que só desqualifica quem a aplica - a cooperação entre pares, a melhoria dos resultados escolares, o sucesso escolar - mas não aquele que só se obtém por decreto e estatísticas psicadélicas.
A profissão de professor, hoje em dia, tende, manifestamente, a afogar-se em mil tarefas que nada mais fazem do que arrastar para um último plano a tarefa maior do docente - ensinar. Admirável política que diz mais sobre a índole de um governo do que um verdadeiro tratado de psicologia. Trágica cegueira tão lesiva ao futuro de um povo.
Podem os políticos e demagogos apregoar que os professores não contam: a História provará, eloquentemente, este erro, esta fraude. Os professores contam, meus senhores, quanto mais não seja para denunciar a mediocridade, a farsa e a destruição generalizada, obscena do ensino público.
Querem-nos sentados e entorpecidos. Resistamos. Há ainda um grão de luz na floresta negra.
Bom Dia do Professor.

A.R.
posted by digoeu @ 09:35   2 comments
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