folhasoltas
Sábado, Janeiro 31, 2009
O medo

(illien. blog.uol - Les yeux de la peur)

Pensando que me erguia acima
Da névoa que de mim se acercava,

Não vi que a minha sombra
- Humana e imperfeita -
Bebia coragem na fonte destinada
A débeis intenções.
Na louca certeza de me sentir
Plantada em terra impermeável
À cegueira colectiva, cedi à escuridão
Do gesto que se curva à opressão do medo.
Rendi-me e, então, dobrei-me.


A.R.
posted by digoeu @ 10:10  
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
Ao sobrinho de seu tio

Josezito, já te tinha dito
Que não é bonito
Andares a enganar-nos
Josezito, já te tinha dito
Que não é bonito
Andares a enganar-nos

Chora agora, Josezito chora
Que te vais embora
P'ra não mais voltar
Chora agora, Josezito chora
Que te vais embora
P'ra não mais voltar

(Texto adaptado)
posted by digoeu @ 22:05  
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
Leio um livro como leio um rosto

(Pierre-Auguste Renoir
A girl reading)


Leio um livro como leio um rosto
- que um rosto também é um mapa de palavras -

submersa em pensamentos
que se estendem até ao indizível.

A.R.

posted by digoeu @ 22:43  
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos,
julgando ser donos das coisas,
instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei,
todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares
posted by Angel @ 16:16   1 comments
Domingo, Janeiro 25, 2009
"We are defined by opportunities, even the ones we miss"


Tento, constantemente, encontrar em mim algo de positivo e de diferente que mereça dos outros alguma coisa mais do que o esquecimento. Vaidade? Presunção? Nem uma coisa nem outra. A explicação é simples - horroriza-me a ideia de pertencer ao mundo irreal dos ausentes sem ter deixado um traço, mínimo que seja, do que sou/fui. Passar pela vida, ludibriando-a, mais do que uma declaração de derrota é, creio, prova da pequenez do existir. Não se morre quando se morre, morre-se na medida em que se está morto ou se vai ficando morto nos outros.
Qual a razão de sentimentos tão lúgubres? - perguntar-se-á o leitor. Bom, é verdade que o tempo não ajuda. Está uma tarde cinzenta, pesada, própria para fazer viajar nostalgias e intervalar as contas da vida e da morte. Não é isso, porém, que me impele a cerrar-me no casulo das interrogações e das teorias sobre a minha/nossa curta trajectória. A resposta tem um nome, um título - O Estranho Caso de Benjamin Button - filme de rara beleza, delicado e perfeito, um tratado sobre a vida e a morte.
Benjamin nasce com o corpo de um velho com oitenta anos mas uma mente de criança. Assim, numa fábula encantadora, é-nos narrada a sua história: uma vida que regride no tempo, incapaz, porém, de o parar, e que acaba como começou, no mistério do ventre materno.
Como é viver ficando cada vez mais novo? - pergunta, a certa altura, Daisy?

Como é viver ficando cada vez mais velho? - pergunta, respondendo-lhe, Benjamin.
Talvez em ambos os casos a resposta mais acertada seja - tentando sempre alguma forma de perfeição.
Benjamim e Daisy que, enclausurados no tempo, são capazes de descobrir que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para a frente. Benjamim e Daisy que preferiram aceitar a duração do que lhes foi concedido - um instante de eternidade em frente de um espelho - vivendo juntos o tempo que podem, apesar da insustentável leveza (e fragilidade) do ser humano. Benjamim e Daisy que, mesmo conscientes de que tudo passa, sabiam que ninguém lhes poderia retirar o sortilégio de recordar o já vivido.
Ele rejuvenescia. Ela envelhecia. Os momentos que ambos viveram juntos cingi-los-iam, no entanto, para sempre, porque a paixão das coisas e dos seres tem o condão de reescutar vozes que se calaram, de fazer reviver rostos que se perderam e de reavivar os sentimentos que os acompanharam.
- Boa noite, Daisy.
- Boa noite, Benjamin.

A.R.
posted by digoeu @ 15:17   0 comments
Sábado, Janeiro 24, 2009
Nada de nobre se faz sem riscos (Montaigne)
Amigos e colegas em luta por uma causa justa,


Sei que muitos CE's determinaram para esta semana, a entrega dos Objectivos Individuais. Fizemos duas greves ( mas isso, não foi penoso ); marchámos em Lisboa, lado a lado, determinados a não abdicar da nossa Identidade Profissional, a de ensinar. Foi um momento histórico, revelado pelo o indecente comentário do Sr. Pedreira "É só mais uma manifestação", tocado de pânico. Éramos 120.000 (foi um dia cansativo, mas não penoso).

Agora chegou o momento de cada um, em nome individual e colectivo, por omissão de acção, não entregar os Objectivos. Deixo as consequências legais dessa omissão aos entendidos em Direito. É penoso não os entregar? Certamente, talvez. Vale a pena não os entregar? Com certeza e, sobretudo, com urgência!

Entregar servilmente os Objectivos é cancelar, em definitivo, o futuro do Ensino. É um acto de suicídio profissional. É abandonar os alunos (sim, esse sim, o autêntico abandono escolar!), alistando-os, com a nossa cobarde condescendência, às Legiões dos iletrados certificados.

Sei que é o momento, também, do oportunismo, dos salteadores de um ensino moribundo. Não escrevo para esses; esses merecem o nosso cordial desprezo. Escrevo para os conscienciosos. E sei que são em muito maior número do que aqueles que não têm robustez de carácter.

Foram necessários 15 mil milhões de anos para, finalmente, acedermos à existência. Na escala do Universo, a nossa vida é bem mais insignificante do que uma poeira no horizonte. Mas estamos. Somos. E na vida, tal como no teatro, não interessa o estatuto do actor, mas a qualidade da representação. Posto isto, dá à tua curta existência um rumo condigno!

(Recebido por email)


Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."

Sophia de Mello Breyner Andersen
posted by digoeu @ 10:25   0 comments
Domingo, Janeiro 18, 2009
Perguntas

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
e tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando Che foi estampado
nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as armas
para com elas fazer posters cinzentos e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
retalhados na Coreia e no Vietname
nem ouviste nenhuma das canções do Bob Dylan
virando também as costas quando arrasaram Wiriamu e
enterraram vivas
mulheres e crianças em nome
de uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
que ninguém te encontrou em lugar algum?

Joaquim Pessoa
posted by digoeu @ 19:38  
Avaliar professores é fácil?
Não! A avaliação de professores não é uma tarefa simples. Que o digam os supervisores que, durante décadas, promoveram a formação inicial e permanente dos nossos docentes. Para avaliar professores requerem-se características pessoais e profissionais especiais, para além de uma formação especializada e de centenas de horas de treino, dedicadas à observação de classes e ao registo e interpretação dos incidentes críticos aí prognosticados.
Cuidado com as ratoeiras! Quem foi preparado para avaliar alunos não está, apenas pelo exercício dessa função, automaticamente preparado para avaliar os seus colegas…
A avaliação de professores é uma tarefa complexa. Desde logo, requer um perfil específico do avaliador. Ou seja, nem todos os professores reúnem as condições para avaliarem. O avaliador terá que ser uma pessoa com conhecimentos especializados, com enorme sensibilidade, com capacidade analítica e de comunicação empática, com experiência de ensino e elevada responsabilidade social. Terá que ser um profissional que sabe prestar atenção, sabe escutar, sabe clarificar, sabe encorajar e ajudar a encontrar soluções, sabe dar opiniões, e que sabe ainda negociar, orientar, estabelecer critérios e assumir todo o risco das consequências da sua acção.
É necessário que domine com rigor as técnicas de registo e de observação de aulas, conheça as metodologias de treino de competências, os procedimentos de planeamento curricular, e as estratégias de promoção da reflexão crítica sobre o trabalho efectuado.
Escolher um avaliador obriga a uma selecção aturada, fundamentada, baseada em critérios de indiscutível mérito e, depois, a uma demorada formação específica e especializada. Para que uma avaliação tenha consequências, o avaliado não pode ter quaisquer dúvidas sobre o mérito do avaliador.
Avaliar é uma tarefa periscópica. O avaliador é chamado a pronunciar-se sobre inúmeros domínios sobre os quais se reflecte o pluridimensional acto de ensinar. Quando avalia, olha o professor sobre variadíssimos ângulos e prismas: aprecia o professor enquanto pessoa, como membro de uma comunidade profissional, como técnico qualificado na arte de ensinar e como especialista das matérias que ensina.
Por outras palavras o avaliador avalia o professor em vertentes tão diferenciadas quanto o são o seu ser, o seu saber e o seu saber fazer. Logo, o avaliador tem que estar atento a um grande número de variáveis que intervêm na função docente: variáveis de produto, de processo, de presságio, de carácter pessoal e profissional…
O avaliador recolhe elementos que permitam avaliar, e depois classificar, o professor enquanto tenta responder às seguintes questões: Onde ensina? O que é que ele ensina? Como é que ensina? O que aprendem os seus alunos? Como se auto avalia? Que capacidade tem para reformular a sua actuação? Com que profundidade domina as matérias que pretende ensinar?
O avaliador não trabalha com o professor apenas na sala de aula. Ele tem que apreender o modo como o professor se envolve com os seus alunos numa situação de classe, mas também como este se implica junto da comunidade escolar e na sociedade que envolve a escola. Porque trabalha com ele como profissional, mas também enquanto pessoa.
Formar um avaliador leva tempo, elevadas doses de paciência, muito treino e conhecimento especializado. A escolha de um avaliador não pode ser casual e, sobretudo, não pode depender de critérios político administrativos.
Porquê? Porque o avaliador tem que saber verificar não só o que os professores fazem, mas também como o fazem e, simultaneamente, garantir a melhoria da qualidade da sua intervenção na sala de aula, bem como a qualidade do produto, isto é, da aprendizagem dos alunos.
Por isso mesmo a avaliação de um professor não pode ser uma actividade episódica, pontual e descontinuada. A avaliação de um professor requer uma actividade continuada, porque importam mais as actividades de reformulação que venham a ser consideradas do que o simples diagnóstico da sua actual situação. A avaliação de um professor é então uma actividade projectada no futuro.
Avaliar um professor é, pois, dizíamos, uma tarefa muito, mesmo muito complexa. Simples, muito simples mesmo, é avaliar um ministro que pensa ser possível reduzir a avaliação dum professor a uma mera empreitada administrativa, compilada em duas páginas de panegíricos ou de recriminações.

João Ruivo
ruivo@rvj.pt
http://www.ensino.eu/home.html
posted by digoeu @ 18:17   0 comments
Sábado, Janeiro 17, 2009
Soneto Presente
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é debaixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

Ary dos Santos
posted by digoeu @ 09:36   1 comments
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
Não me troco nem me vendo

Cidadão obediente não é sinónimo de melhor cidadão.
Os obedientes servem, quase sempre, qualquer regime ou ideologia, o chamado jogo de cintura, com maior ou menor elegância, com maior ou menor virtuosismo; os segundos - porque não estão inquinados, à partida, dessa espécie de servilismo que mais não é do que a capa que esconde interesses pessoais – têm um conceito de disciplina no sentido mais nobre da palavra – ética, moral, valores.
Não há que confundir: uma coisa é a vontade de ganhar, de progredir, de saber aproveitar as oportunidades; outra coisa, completamente oposta, é adoptar, sem grandes convicções, a não ser aquelas que as circunstâncias aconselham, uma filosofia de sobrevivência para nos mantermos sempre à tona de água. Há derrotas mais dignificantes do que algumas vitórias.
Não sou uma heroína. Não possuo humildade nem grandeza, muito menos sou capaz de assimilar o sofrimento com coragem e resignação. Em última análise, sou uma sonhadora. Em vez de ir à razão das coisas, caminho – quantas vezes sem prudência – por terras de ninguém. Estou, todavia, consciente de que a vida é isto mesmo – se, hoje, respiro com dificuldade, amanhã, provavelmente, respirarei com mais confiança ou mais pausadamente.
Tenho medos que nem sempre assumo. Tento não deixar, no entanto, que eles desviem a minha trajectória, as minhas crenças, os meus ideais. Sim, os meus ideais, mesmo que estes se limitem a mudar o mundo das pequenas coisas. Talvez isto pareça ridículo à maior parte das pessoas. Ridículo seria para mim ser dominada pela voz comum que me dá sempre a impressão de qualquer coisa de incompleto, de amputado, de vazio.
Assim, o não cumprimento da lei, no caso preciso da avaliação (simplex) de professores, não me pesa nem me serve de álibi. A morte tem muitas formas, mas a morte da minha coerência e dos meus princípios é aquela que mais me assusta.
Vou fazer greve. Não entrego os objectivos individuais. Não me troco nem me vendo.

A.R.
posted by digoeu @ 23:14   0 comments
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
Caminho que não segue
De mim a ti,
um frémito de flor desabrochando
- tão curto como um ai -
de efémera combustão.

De mim a ti,
o vértice inquieto do desejo
- definitivamente uma alegria breve -
desterrado nos remorsos da noite.

De mim a ti
- sem azul desafiando a sorte -
um rio de crateras geladas
alongando-se, alongando-se.

A.R.
posted by digoeu @ 23:16  
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
...
E se, de repente, o Ministério da Educação lhe "oferecer" um processo disciplinar, não ligue.

Isso é Impulse.
posted by digoeu @ 17:45   0 comments
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
...
É perigoso estar certo quando o governo está errado.

Voltaire
posted by digoeu @ 21:56   0 comments
LEMBRAS-TE?
LEMBRAS-TE?



· FAZ UM ANO QUE FOI PUBLICADO O DECRETO REGULAMENTAR 2/2008.

· FAZ UM ANO EM QUE TODA UMA CLASSE SE INSURGIU, EM UNÍSSONO.

· FAZ UM ANO EM QUE COMECÁMOS A FAZER HISTÓRIA.


· DESDE ENTÃO, DURANTE UM LONGO ANO:


REVOLTÁMO-NOS, UNIMO-NOS;

REDIGIMOS DECLARAÇÕES, MOÇÕES;

PARTILHÁMOS PROTESTOS, IDEIAS;

CRIÁMOS MOVIMENTOS, ORGANIZÁMO-NOS;

FIZEMOS GREVE, MANIFESTÁMO-NOS;

ERGUEMOS A CABEÇA, ORGULHÁMO-NOS.


UM ANO DEPOIS, VAIS DEIXAR RUIR O QUE CONSTRUÍMOS, TÃO DURAMENTE???
posted by digoeu @ 10:14  
Domingo, Janeiro 11, 2009
Narciso e Dom Juan
Narciso era um jovem de grande beleza. Se é a beleza que desperta o desejo, Narciso era o homem mais desejado de todos. As jovens desejavam-no e queriam-no para si, mas ele não queria nenhuma delas. Na verdade, elas nada significavam para ele. Amor e paixão eram sentimentos que Narciso não possuía por ninguém. Nem mesmo o grande amor de Eco, a mais linda e encantadora das ninfas, o comoveu.

Narciso tinha uma trajetória marcada pela insensibilidade, indiferença, frieza e descaso com o amor. Amar, para ele, significava submeter-se ao domínio da pessoa amada. Esse jovem conseguiu viver muito tempo pensando e agindo dessa forma. Certo dia, ao se debruçar sobre as águas cristalinas de um lago para matar sua sede, Narciso se encontra consigo mesmo ao se apaixonar por sua própria imagem refletida nas águas do lago. É importante frisar que Narciso se apaixonou por sua própria imagem pensando ser um outro. Como sempre abraçamos quem amamos, ele tentou abraçar quem via no lago e desapareceu no espelho das águas que o refletiam.

Assim sendo, é possível dizer que esse mito não é uma história de amor por si mesmo. Quando nos amamos, estamos abertos para amar e ser amado pelos outros. O mito de Narciso era, antes, uma história da falta de amor por si e pelos outros. Seu mundo era vivido como o refúgio do orgulho e o reino do egocentrismo. Na verdade, ele vivia fugindo de si. E quem foge de si não se entrega a nada e nem a ninguém.

Don Juan de Marco, outro personagem mítico, diferentemente de Narciso, era um grande galanteador, sedutor e misterioso que encantava as mulheres com suas táticas, estratégias e malícias da conquista. Ele era um jovem extremamente belo. Sua beleza era quase irresistível ao desejo das mulheres. A beleza de Don Juan atraía olhares, mas era o desejo que fazia as mulheres dele se aproximarem. A beleza é a promessa do prazer. O prazer é a insinuação da felicidade e esta a contemplação do paraíso desejado. Mas beleza por si só não gera amor, atração ou sedução. Sedução se faz com coisas mínimas, discretas e quase imperceptíveis.

No jogo que envolve toda conquista, a beleza de Don Juan era apenas mais uma das cartas que ele sabiamente usava. Ele contava com artes e artimanhas de seduzir e envolver as jovens que quisesse. Ele era irresistível. Portanto, tinha as mulheres em profusão. Não se conhecem relatos que ele tenha sido seduzido pelos encantos de alguma "sereia" ou flechado pelo "cupido".

Essa emblemática figura mítica despertava amores, mas ele não conseguia amar uma única mulher com exclusividade. Ele ficava com todas, mas não tinha nenhuma. Don Juan tinha o dom da conquista, mas não a arte de reconquistar, por vezes seguidas, a mesma pessoa. Seu desejo era ser desejado constantemente. Ele construía, com isso, certo sentido existencial a partir desse estilo de viver.

Ao que parece, Dom Juan buscava desesperadamente valorização, reconhecimento e aprovação de si próprio de uma forma que ele não conseguia realizar ou obter por si mesmo. Demonstrava-se, com isso, ser um eterno insatisfeito, vazio de emoções, sentimentos e sentido de uma vida em comum, compartilhada. Talvez a forma que ele encontrava de gostar de si próprio fosse o fato de saber e sentir que era amado e desejado por muitas. Ao contrário de Narciso, Dom Juan buscava o outro como uma forma de construir sua auto-imagem: irresistível, capaz, perfeito...

Narciso e Don Juan são personagens de nossa história. Essas emblemáticas figuras estão metamorfoseadas e presentes em nossa realidade circundante. Narciso é o emblema da pessoa medrosa, Don Juan do ser carente e os dois simbolizam o sujeito confuso e inquieto; sintetizam e expressam a solidão vivida e sentida em suas múltiplas facetas. O comportamento jovem (e não necessariamente o jovem) manifesta o espírito ou a personalidade dessas duas figuras ficcionais, que, sem dúvidas, fazem parte de nossa realidade e imaginário social.

Vivemos em um tempo e em uma realidade que possibilita a revivescência dos caracteres típicos desses seres ficcionais. Nossa vida carrega o peso do espírito competitivo, do clima de insegurança societal/emocional e da rapidez que tecem uma forma de ser e de viver que nega o outro como um legítimo outro na convivência. Nesse contexto, o outro é apenas "mais um" na relação, como acontecia com Don Juan. Em nossa realidade, as pessoas estão cada vez mais próximas umas das outras, mas não se envolvem com ninguém.

O novo homem emergente é um ser individualista que se pretende auto-suficiente, egocêntrico, sensual e festivo, mas que está perdendo a fórmula de alimentar seus afetos. Na verdade, estamos diante de sujeitos que fogem constantemente de si mesmos (Narciso), seres atraentes que conquistam e ficam com todas, mas que não se entregam a ninguém (Don Juan) e, ao mesmo tempo, por seres que vivem vazios e perdidos na multidão anônima. Nosso mundo está repleto de seres medrosos, carentes, confusos e solitários como os personagens dos quais falei.

Os sujeitos de hoje se orientam de acordo com as exigências e com o mecanicismo da lógica mercadológica fazendo o coração ser determinado pela mente e não o contrário. Os sujeitos estão deslocados do tempo e descolados de si. Falta ao homem contemporâneo um diálogo realimentador entre eu/outro, desejo/realidade, mente/coração. Isso é fundamental para as pessoas não perderem o dom de ouvir em silêncio os apelos do coração, a capacidade de se sentir, a coragem de se olhar no espelho e a condição de se orientar conforme as exigências de seus próprios desejos. Talvez seja o momento de reinventarmos uma nova forma de ver.

Ailton Siqueira
posted by digoeu @ 13:25   0 comments
Quinta-feira, Janeiro 08, 2009
Era, mas já não é. O que é?
Neste conflito perdeu o país, perderam os alunos, o Governo, o primeiro-ministro e a ministra da Educação

Era necessário observar aulas de professores avaliados, mas já não é. Só a pedido, para quem aspire a ser muito bom ou excelente. Era necessário observar três aulas, mas já não é. Duas chegam, a pedido. Era o coordenador que avaliava os colegas de departamento, mas já não é. Agora pode vir alguém de fora, rigor científico protegido. Era muito importante cumprir objectivos previamente definidos, mas já não é. Os resultados escolares e as taxas de abandono deixaram de contar. Era necessário fazer reuniões entre avaliadores e avaliados, mas já não é. Basta que estejam de acordo. Era um processo para todos, mas já não é. Ficam de fora os contratados para determinadas áreas tecnológicas e artísticas, não pertencentes aos grupos de recrutamento, e os que se reformarão até 2011. Tudo somado, uns belos milhares. Era preciso desdobrar um monte de fichas numa montanha de parâmetros para chegar a uma avalanche de itens, mas já não é. Caiu o número quê bê.
O que é? A saga da avaliação do desempenho no seu melhor, a política a descer ao charco. A juventude socialista foi para a porta das escolas doutrinar os alunos com manifestos apelativos. Nos jornais, os de distribuição gratuita incluídos, em prática antes nunca vista, publicam-se anúncios, pagos com o dinheiro dos nossos impostos, para arregimentar o pagode. Os endereços electrónicos dos professores, facultados para outros fins, protegidos pela ética da protecção de dados, ora mandada às malvas, são usados pelo Ministério da Educação, para manipular e pressionar. A remuneração complementar dos futuros directores das escolas, os peões que a visão napoleónica de Sócrates começa a colocar no terreno, subiu quase 50 por cento. Aos saltimbancos da profissão acenou-se com um generoso aumento de vagas para o próximo concurso. O que é? A investida do Governo para dividir e desmobilizar os professores, no sentido de esvaziar a greve marcada para 19 de Janeiro.
Já aqui escrevi que a avaliação é um epifenómeno menor de uma política desastrosa para a qualidade da educação. Neste conflito, já perdeu o país. Já perderam os alunos. Já perdeu o Governo, o primeiro-ministro e a ministra da Educação. Podem agora perder os professores se não perceberem, como classe com responsabilidade social particular, que é a dignidade deles e a qualidade da escola pública que estão em jogo. Talvez possamos ser indulgentes para com os pobres que vendem o voto por electrodomésticos distribuídos porta a porta. Mas não esperem os professores indulgência se cederem às primeiras facilidades e aceitarem sinecuras sem princípios.
Um grupo de professores convidou-me há dias para partilhar com eles a minha visão sobre o actual momento político. No debate que se seguiu evidenciaram-se sinais preocupantes, narrados por quem está no terreno. Há quem tenha assumido documentalmente a recusa a ser avaliado e tenha entregue, sob sigilo, os objectivos requeridos pelo processo? Tem expressão relevante o grupo dos que, sob pretexto de não serem ultrapassados por oportunistas, deixam cair compromissos pessoais anteriores e engrossam a onda daqueles que dizem que a simplificação consumada mudou o cenário? Estas perguntas foram feitas aos presentes por um dos participantes. As respostas que ouvi deixaram-me perplexo.
Várias perguntas que me foram dirigidas versavam questões sobre o efeito que o conflito tem produzido na opinião pública. Respondi recordando processos de outras classes profissionais. Naturalmente que comecei pelos médicos, cuja recente ameaça de greve, terrível para o julgamento público, chegou para meter na gaveta a ideia peregrina de lhes aumentar desumanamente o tempo de trabalho, ainda por cima sem qualquer compensação remuneratória. E falei também dos juízes e dos militares. Naquele grupo, todos estivemos de acordo sobre a necessidade de pôr princípios e dignidade à frente da opinião pública, nem sempre esclarecida, tantas vezes envenenada. Não sei se aquele grupo é representativo do que sente a classe.

Santana Castilho (s.castilho@netcabo.pt)
posted by digoeu @ 23:37   0 comments
Quarta-feira, Janeiro 07, 2009
Tá-se bem
A minha raiva (e decepção) era tanta que comi os últimos Mon Chéri que restavam de uma época de festejos e de iludidas expectativas. Por acaso só havia dois já que, no círculo de punição mental em que me encontrava, creio, teria comido uma caixa de vinte unidades. Comigo o desencanto revela um lado assaz curioso - fico sem forças para me negar o que, à partida, não devo fazer. Vontade falida? De mim para mim sinto que é, tão-só, uma tentativa gorada de encurralar as minhas esperanças, os meus desejos e até os meus rancores, o meu desprezo.

Com analítica frieza devo-me este conselho: És uma idiota chapada. Foi apenas uma situação onde algumas pessoas - nem todas, felizmente - nada mais fizeram do que expor uma velha máxima - a soma das fraquezas não gera união. Deixa-te, portanto, de irritantes (e tolas) atitudes incompatíveis com a arte de saber viver. Essa desacreditada propensão para o heroicismo só te tem trazido assimetrias e oscilações. Pára.

Vou parar. Os quês e os porquês da condição humana vão deixar de me pesar. Passar-me-ão ao largo. Afinal, é suficiente ter de arrastar com o peso da minha "insustentável leveza". Ao diabo as razões e não razões dos outros. Seguirei surda e cega - não sei se imune - à destreza contabilística que me cerca.
Em todo o caso, e porque desconheço se D. Quixote morreu mais aliviado do que Sancho Pança, decerto viria o tempo das costas curvas e da cabeça baixa. É tudo, pelos vistos, uma questão de habituação e de mediocridade acumulada.

Deste modo, como costumam dizer os meus alunos - Tá-se bem!
Caso não se esteja, as estatísticas apregoarão o oposto ou o Governo desmentirá, de imediato, essa verdade.
Parece que nem sempre as árvores morrem de pé.


A.R.


(Agradeço a todos os que, como eu, tentaram defender a dignidade, coerência e união de uma classe.)
posted by digoeu @ 23:06   1 comments
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