folhasoltas
Domingo, Fevereiro 22, 2009
Desfile

No meu país o Carnaval está para durar,
No meu país dançam a fraude, a miopia,
No meu país a corrupção visa reinar,
E o povinho, valha-lhe Deus, perde a folia.

No meu país os ladrões fazem a ocasião
e os políticos sacam as nozes e têm dentes.
No meu país desfilam máscaras com presunção,
bem amestradas, nacionalizadas, incompetentes.

No meu país vigora a lei do que mais mente,
do rouba aqui, rouba acoli, rouba acolá.
No meu país a fraude impera, é lei vigente,
e a política, valha-nos Deus, é toda má.

No meu país uns roem carne, outros as unhas,
num adiar de contrição e de mudança.
No meu país há passarões, luvas, mais cunhas,
e é comum não ser proibido encher a pança.

No meu país não há decoro, não há justiça,
todos dançamos na corda bamba da reinação.
No meu país a liberdade foge, mortiça,
e o desencanto é desespero sem expressão.

A.R.
posted by digoeu @ 10:48   4 comments
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009
Brilhante (ou nem por isso)

Quando for grande, também quero escrever assim!


Exmª Senhora
Presidente do Concelho Executivo do
AE Território Educativo de Coura


A confirmarem-se as notícias vindas a público sobre suspensão de actividades previstas no Projecto Educativo e no Plano de Actividades dessa Escola, e na salvaguarda primeira das obrigações da escola - cumprir a sua missão de processos de socialização e de aprendizagem para os alunos, razão central porque definiu as actividades nos documentos de acção educativa anteriormente referidos.
Tomando por base estes pressupostos, determino:
O cumprimeto das actividades com os alunos previstas para esta época;
O envio a esta DRE de um memorando clarificador dos problemas que têm vindo a ser denunciados pelas estruturas representativas;
Sendo certo que muitos docentes não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores, dos alunos e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado.


Margarida Elisa dos Santos Teixeira Moreira
17 de Fevereiro de 2009
posted by digoeu @ 11:57  
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Mário Quintana
posted by Angel @ 11:48   2 comments
Sábado, Fevereiro 14, 2009
Um radioso Dia dos (e)Namorados

Sei 3 línguas.
Português, Francês e Inglês.
Também leio Espanhol e Italiano.
Sou um homem culto.
Quando vejo uma mulher alemã nua, entendo-a.
Vestida e a falar é que é mais complicado.
As mulheres nuas percebem-se muito bem.
Em qualquer língua.
Podem vir do Extremo Oriente.
Entendo-as.
Gosto das mulheres orientais.
E também gosto das mulheres não orientais.
Gosto das mulheres em geral,
e gosto das mulheres em particular.
O que eu quero dizer com isto é que eu gosto por inteiro
da minha vizinha, por exemplo, e gosto também do dedo
mínimo do pé esquerdo dela.
Gosto dos ombros dela e também dos seus rins.
Gosto das ideias da minha vizinha.
Gosto das raivas da minha vizinha.
Gosto de tudo, nela.
É isto.
Gosto das mulheres no geral e no particular.
Quando elas passam gosto do cheiro que fica.
Enfim, gosto muito de mulheres.
Está-me no sangue.

Gonçalo M. Tavares
O homem ou é tonto ou é mulher
posted by digoeu @ 10:25  
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009
Fogo extinto


(Galeria de Thamar de Araújo)

Olho para ti
e constato que da face acesa
de outrora nada resta.
O vento, implacável,
envolveu-te na opacidade de um
esboço nu, clandestino,
de costas voltadas
à limpidez do gesto e da palavra.
Vejo-te através de linhas e traços
desbotados, ambíguos,
que vais riscando, apressadamente,
porque neles já nem tu encontras
a essência, o vinco, o perfume.


A.R.
posted by digoeu @ 23:53   2 comments
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
Está bem... façamos de conta
Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

Mário Crespo
posted by digoeu @ 13:05   0 comments
Sábado, Fevereiro 07, 2009
Passo a Passo

A par e passo passo neste espaço
abrindo a largos golpes largos espaços
e passas nos meus passos passo a passo
repassas em abraços os meus braços.
A peso peso os passos quando piso
os traços com que traço e já trespasso
o passeio nos lenços que desfaço
em lassos laços quando passas
como um punhas perdido em plena praça
a todos e a cada um dos meus amigos.

António Gedeão
posted by Angel @ 17:41   1 comments
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
Se o amor for nada


Se o amor for apenas o brilho desvairado
de uma qualquer ébria miragem
retida no coração
até ao impossível do silêncio
das palavras sem boca,
da vida sobra pouco - a espera
e um vazio sufocantes.

Se o amor for apenas a saudade
de uma imagem ausente, unida a nós
por um grito estrangulado ou por ecos
inaudíveis que repetem sempre
o mesmo nome,
da vida sobra pouco - o cansaço
e o frio que se instalam.

Se o amor for apenas a solidão final,
alguma coisa que acaba sem passos,
sem traços, fechando-nos, doridos,
sobre o resto de nós,
da vida sobra pouco - o peso de um
tempo extinto que, atrás da porta,
se deteve.

A.R.







posted by digoeu @ 11:53  
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
Boião Cultural

- Estamos a viver numa cleptocracia.
- ???...
- Cle-pto-cra-cia!
- ???...
- Não sabes o que é?
- Não...
- Eu também não sabia, mas fui procurar no dicionário.
- E?...
- Tens aqui um dicionário.


- Ah... clep... clepto... cleptocracia.
- Ficaste esclarecido?

- Sim. Cleptocracia: Estado governado por ladrões.
- É isso mesmo. Porreiro, pá.
posted by digoeu @ 21:05   2 comments
Domingo, Fevereiro 01, 2009
...
Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!

João Pereira Coutinho (jornalista)
posted by digoeu @ 15:36   2 comments
De imagem em imagem
Ainda que me apresente legível aos olhos de alguns,
há uma parte de mim – fechada, sem tradução –
que não pertence a ninguém nem a lugar nenhum.
O que passo de visível aos outros, o que os outros
consideram a evidência de uma leitura fácil, não é
mais do que um simulacro, uma brincadeira longínqua
da realidade. E quando crêem que a minha vida está
mal arrumada, que o importante me foge, que não passo
de sonhos adormecidos, loucos, não realizados, eu,
na liberdade pura de mim mesma, permaneço intacta
no que sou, sempre muito além da ficção do que pareço.

Pensem os outros que nunca existi.
Garanto-lhes que, no fim, terei existido.

A.R.
posted by digoeu @ 10:45  
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