Portugal está debilitado. Os Portugueses estão, igualmente,fracos. E, como acontece quase sempre, a fraqueza tende a escolher os piores caminhos - o da apatia, o da resignação, o da cobardia. Vivemos abrigados numa espécie de subterrâneo que nos empurra para um alheamento quase irracional, que não nos permite ver a luz do dia e reagir - mal ou bem - a uma decadência analfabeta e miudinha que nos faz perder o pé, o equilíbrio, a grandeza. Parece já não haver optimismo que nos arranque deste marasmo, deste modo condicionante de (não) estar, desta sina tristemente elucidativa da criminosa incompetência dos que governam e se governam numa rufiagem mafiosa e esquizofrénica. Ontem, por exemplo, tivemos mais um exemplo deste mal sem cura que se vem arrastando há décadas - aparentemente sem retorno - e que dá pelo nome de deixa andar. Deixa andar, que a selecção portuguesa ainda vai conseguir apurar-se para o mundial; deixa andar, que Carlos Queiroz é a versão moderna da Senhora de Fátima; deixa andar, que no próximo jogo eles vão acertar na baliza; deixa andar, que até pode aparecer um Lucílio Baptista que nos safe e nos garanta a presença no mundial E nós, portugueses, deixamos. Deixamos enaltecer os Isaltinos - sim, que é preciso muita coragem (e muitíssima lata) para afirmar que se fugiu ao fisco porque há mais quem fuja, e que se possuímos um bom pé-de-meia - que, afinal, nem é nosso - isso não é grave, já que a dinheirinho está bem guardado numa conta no estrangeiro; deixamos canonizar os Avelinos Ferreira Torres, coitados, raiados de bondade capaz de perdoar aos motoristas que tinham um irmão que, esse sim, é que era o mau da fita; deixamos a justiça, em cada hora e a cada minuto, proteger os vilões e condenar os inocentes; deixamos a corrupção e o compadrio instalarem-se, com aparato, no nosso dia-a-dia; deixamos, enfim, o medo paralisar-nos e excluir-nos de uma oposição poderosa - pronta e rápida - que comprove, puna, corrija. A carga, absurda e pesada, que o povo português há muito carrega é geradora de anemia e debilidade física e anímica. O período de privação excedeu os limites do razoável e já ninguém aposta na vitória do bem sobre o mal. O que, correctamente traduzido, não nos leva somente a uma questão de auto-estima mas, e acima de tudo, a uma questão se sobrevivência. O desencanto que nos assola é por demais compreensível. Urge, porém, reconstruir a partir dos escombros. É relevante acreditar que até mesmo os vencidos, depois de recuperados, podem, futuramente, sair vencedores. Basta-nos inteligência e acção aguçadas, sólidas, rectas, certeiras. Tarefa dura? Provavelmente… Mas se a vaca Cloneta - a primeira vaca portuguesa… clonada - está a aguentar, nós, portugueses, temos a obrigação de resistir. Nem que para isso haja necessidade de encomendar meia centena de clones do Martim Moniz
Com a chegada da Primavera fico física e emocionalmente anémica. Sinto-me cansada, pálida, mal-humorada, entediada. Por outras palavras, sinto-me murcha. A velha história da chegada das andorinhas e dos campos salpicados de mil matizes deixou de ser um bálsamo e tornou-se um bocejo enorme repleto de fungos, pólen, alergias e constipações de alma. Toma vitaminas, dizem as amigas activas e decididas. Sejamos sinceras, minhas queridas, não é uma embalagem de um qualquer produto natural que irá transformar uma mulher cinzentona e esverdeada num ser harmonioso, esvoaçando ramagens floridas apaixonadas pela vida e pela Primavera. Assumidamente, detesto a estação dos passarinhos, das flores, dos amores verdejantes que saltitam por todo o lado num desejo irreprimível de beijos e de abraços. Com ela chegam mil preocupações que alimentam o rol das já existentes – as chamadas preocupações titulares – e um exército de suspiros lentos, carentes, que nos incitam a procurar, nas páginas amarelas, fabricantes de palavrinhas doces, afectuosas, capazes de curar as anemias mais renitentes. Sinto-me um diospiro melado quando chega a Primavera. Além do mais, esta é a época em que sentimos uma necessidade vital de nos despimos, de inspeccionarmos, diante de um espelho, a nossa (não) linha. E não é que quase sempre constatamos que todos os nossos jeans, saias e blusas encolheram durante o Inverno?! Hora, pois, de perder peso - e pneus - porque o Verão aproxima-se num ápice e o Inverno foi pródigo em batidos quentes, doces, chocolates e outros produtos aconchegantes e calóricos. Nada mais deprimente do que a privação. Nada mais masoquista do que regimes dietéticos à base de folhinhas de alface e rodelinhas de cenoura que mais não fazem do que associar a carência alimentar à frugalidade anímica. Podem imaginar o quão terrível é para uma mulher saber que tem de fazer algo para sobreviver mas não sabe o que fazer?! Odeio a Primavera. Abomino a sua luz crua, desapiedada, extremamente nítida, a sua desenfreada vitalidade que me atrofia, fazendo com que só me apeteça ficar deitada a snifar balões descartáveis de auto-estima embebidos em elegância, beleza e efeitos especiais. Vai uma overdose? A.R.
Se eu pudesse, pai, esmagaria a despudorada presença da morte - indiferente aos laços fortes que nos unem - e prenderia a curva protectora do teu ombro à eternidade.
Há histórias de vida que fazem sucesso. Não é o meu caso já que apenas aprendi a ouvi-las com uma certa ironia na alma. E, algumas vezes, com um pouco de ternura também. Nós, mulheres, gostamos de histórias, ainda que sem qualquer final feliz, épico, surpreendente. Ou talvez por isso. Histórias sensíveis e tristes, renegadas, amaldiçoadas mas sempre bem-intencionadas. Histórias que nos fazem sentir maternais, amorosas, cúmplices, de uma feminilidade esplêndida. A última que escutei falava de borboletas, da efemeridade desses belíssimos insectos e de um coleccionador destas frágeis criaturas. Alguém que adorava o voo tonto, ingénuo das mesmas, as suas cores invocando fantasias e ilusões, a sua paradoxal necessidade de estancar a liberdade num dulcíssimo fruto e de a transformar em desilusão. Os coleccionadores, sobretudo os que adoram borboletas, comportam-se sempre do mesmo modo com todas elas: observam-nas, cortejam-nas, seduzem-nas com promessas de eterna devoção, carinho, desvelo, e quando as pobrezitas se dão conta estão preciosamente, amorosamente "alfinetadas" num qualquer catálogo de exposição. Enfim, o velho jogo de procura e encantamento, encontro e esquecimento. Prosaico? Certamente. É necessário, porém, perceber que o que faz correr o coleccionador é a ânsia de encontrar a borboleta única, aquela que satisfaça o seu sonho, o seu capricho sempre mais exigente, sempre impossível. Tal borboleta não existe, claro. Não passa de um pretexto, de uma justificação que se pretende racionalmente exacta. Na realidade, o que ele procura – mas se nega a aceitar – não é senão o desejo de um recomeço, de uma outra vida que lhe proporcione a satisfação e a felicidade que nunca encontrou porque, todo-poderoso, nunca admitiu o mínimo esforço da sua parte para as alcançar. Tudo, na sua vida, está bem porque não poderia deixar de estar, esquecendo-se de que pior do que uma vida infeliz é uma vida insípida onde não há nenhuma alteração em perspectiva - se não dá em nada, então não dá em nada. Ponto final. A sensação de triunfo ou de derrota tem fronteiras muito ténues. Nem sempre é possível inverter a marcha ou, se isso acontece, é quase sempre tarde de mais. No fundo, borboletas e coleccionadores não passam de um reflexo das expectativas de uns e de outros. Mas, mais tarde ou mais cedo, a peça acaba e o pano desce.
O país está um nó cego – não ata nem desata – feito de histórias e factos tristemente elucidativos da falta de carácter e valores de alguns. Estamos encurralados numa mediocridade bolorenta que não nos permite uma fuga para a frente nem para trás. A corrupção e os interesses individuais são a típica comezaina abundantemente servida, nos dias que correm, e a única concorrência permitida é a da canalhice impune e foliona. Para cada sítio que nos tentemos virar há sempre um chico-esperto à espera de tentar superar outro não menos genial chico-esperto. É a sacanice assumida a tentar superar a sua irmã siamesa. A corrupção em todo o seu esplendor como uma espécie de moeda de troca da política - mas não só - do nosso tempo. Quando eu era miúda, a minha mãe tinha sempre um remédio milagroso para todos os males – a pomada Halibut. Se nos queimávamos, se era preciso cicatrizar rapidamente uma ferida rebelde e dolorosa, se era necessário combater um acne persistente e vingativo, a solução estava sempre ao nosso alcance – espalhar uma boa camada de Halibut e, de imediato, uma sensação calmante, cicatrizante, regeneradora se fazia sentir. Às vezes, sobretudo naquelas alturas em que me dou conta de que qualquer solução é má e que há pessoas que superam sempre o vilão-mor de um qualquer filme de terror, dou comigo a repetir as palavras da minha mãe – espalhem uma boa camada de Halibut que isso passa num esfregar de olhos. O problema é que esta sociedade falida em que vivemos – que não é carne nem peixe - já nem com Halibut se regenera.