O primeiro-ministro afirmou, pesaroso, que, ultimamente, arrasta uma grande cruz. Como nós o compreendemos, Sr. Eng. Sócrates! A nossa (cruz), a de todos os portugueses, dura há quatro anos e, pode acreditar, tem sido um verdadeiro calvário. Haverá maior tormento, fardo mais pesado do que ser obrigado a aturá-lo a si e ao seu (des)governo?! Quando chegará a nossa Páscoa, Deus meu?!
Esmaga laços, amigos e certezas com tentáculos rigorosamente cronometrados, mascarando de salvação a vaidade, o impudor, o irracional. Talhada de fama, de poder, de sorrisos mundanos à medida das circunstâncias e da ocasião, espraia-se em tapetes macios de alarves e espúrios ideais. É assim, ambição, que se chamam as coisas pelo nome que são.
Anda tudo do avesso Nesta rua que atravesso Dão milhões a quem os tem Aos outros um "passou-bem" Não consigo perceber Quem é que nos quer tramar Enganar Despedir E ainda se ficam a rir Eu quero acreditar Que esta merda vai mudar E espero vir a ter Uma vida bem melhor Mas se eu nada fizer Isto nunca vai mudar Conseguir Encontrar Mais força para lutar…
Senhor engenheiro Dê-me um pouco de atenção Há dez anos que estou preso Há trinta que sou ladrão Não tenho eira nem beira Mas ainda consigo ver Quem anda na roubalheira E quem me anda a comer É difícil ser honesto É difícil de engolir Quem não tem nada vai preso Quem tem muito fica a rir Ainda espero ver alguém Assumir que já andou A roubar A enganar o povo que acreditou Conseguir encontrar mais força para lutar Mais força para lutar Conseguir encontrar mais força para lutar Mais força para lutar…
Senhor engenheiro Dê-me um pouco de atenção Há dez anos que estou preso Há trinta que sou ladrão Não tenho eira nem beira Mas ainda consigo ver Quem anda na roubalheira E quem me anda a foder Há dez anos que estou preso Há trinta que sou ladrão Mas eu sou um homem honesto Só errei na profissão
Ainda que a vida não lhe parecesse inútil nem perdida, mergulhava, constantemente, em dúvidas e contradições. É muito mais fácil viver quando sentimos que dominamos as situações sem pensar em tudo o que poderia ter sido mas não foi. Nascera, porém, sob o signo dos que nunca se conformam com a secura da existência e são, por isso, arrastados a um quase degredo difícil de aceitar. Nunca coincidia com o lugar exacto porque o desterro que lhe coubera – ou tê-lo-ia escolhido? – desajustava-a de si mesma, numa travessia que lhe doía por nada poder fazer para a evitar. Se pudesse, cria, saborearia os dias na sua simplicidade calma, atenta, sem perseguir, exaustivamente, o insondável ou o impossível, mas aproximando-se dela própria sem teias emaranhadas, sem aquela horrível sensação de ter entrado em outra história que não a sua. Não era ambiciosa. Pelo menos nunca se ‘vestira’ descaradamente e sem escrúpulos para salvaguardar o seu prazer de uns momentozinhos de glória e de poder. O que tinha materialmente estava à medida do que precisava. Só aquela necessidade de se reinventar sem espaços divididos, numa plenitude inocente e leve, confirmava a sua incapacidade de acreditar que a sua história fazia sentido e que o tédio, a insegurança e o medo não eram as suas etiquetas de identificação. Não pedia muito – queria apenas reconhecer-se para entender melhor a razão do seu exílio.
Portugal é um país onde, todos os dias, se diversificam encenações, subserviências e outras iniciativas legitimadas por senhores engravatados que adoram coincidir com o poder sempre presente, sempre vigilante, sempre pretensioso, falido até ao tutano, mas sempre em cartaz. Um poder insaciável, cheio de engrenagens garantindo o mínimo de oposição e o máximo de paralisia. Por outro lado, tenho a sensação de que estamos subjugados por vontade própria. Não resistimos, permitimos que tudo se circunscreva aos interesses de alguns - e até aos nossos - optamos pelo faz-de-conta, pelo medo de represálias, pela aparente aceitação de políticas apodrecidas, gangrenadas. Em questões de coragem, e em abono da verdade, não me atrevo a dar lições a ninguém. Fui daquelas que, como Pedro, neguei, à última hora, aquilo que defendia sem pestanejar e com toda a minha convicção. Com medo de um putativo (ver debates políticos só enriquece o vocabulário) processo disciplinar e de um não menos putativo desemprego, entreguei, ainda que forçada e não convencida, os tais objectivos individuais requeridos pelo ME para a farsa da avaliação. Falhei, verguei e nunca emendei o erro. Embora diga a mim mesma que milhares de professores cederam como eu, ainda que conheça casos - muitos, infelizmente - onde a falta de coluna vertebral foi bem mais acentuada, apesar de ter aderido a todas as greves e manifestações, tenho consciência de que o medo foi mais forte do que tudo aquilo que eu sabia ser justo e prioritário. Não sei se os olhares dos outros se decepcionaram; sei, todavia, que nunca mais me senti com aquela serena certeza de que jamais seria contaminada pelas metástases do medo e da alucinação colectiva. Tudo isto a propósito de uma notícia que li, esta manhã, anunciando a presença do primeiro-ministro e da ministra da educação, em algumas escolas do Porto, para inaugurar o que, tenho a certeza, ainda não está terminado. A moda, actualmente, é inaugurar por fatias - dá sempre uma sensação de muito trabalho realizado e arrasta os media - para, no final, sabe-se lá quando, inaugurar, de novo, o que já foi partido, comido, deglutido. Pelos vistos, e na prática comum dos políticos portugueses, é o que está a dar: pré-inaugurar a fim de, posteriormente, inaugurar no momento mais oportuno, ou seja, mais pertinho das eleições. O curioso em toda esta história é que na dita notícia é referida a “minha” escola como uma das que vão ser pré-abençoadas. Mas o mais curioso é que eu e, suponho, a maioria dos docentes e discentes não estávamos a par de tão auspicioso evento. Bom, na verdade eu não sou titular, sou apenas professora - ainda há pior, há quem, nos concursos, seja apenas indivíduo - e, logicamente, compreendo que em inaugurações e outros festins que tais só deverão estar presentes os mais altos representantes, a fina flor, a nata das natas. A minha perplexidade, porém, não se fica pela constatação de que vivo numa época ferocíssima, onde quem é avesso aos tiques e manias de uma sociedade falida tem de carregar a acusação maldita de pertencer ao tal lado negro (da força?) que visa denegrir a face maviosa dos nossos caríssimos governantes. Mas qual a razão que os leva a fugir do povo que tanto os idolatra e acarinha? Qual o motivo que os impele a inaugurar obras - ou parcelas de obras - às escondidas dos seus queridíssimos súbditos? Timidez? Misantropia? Ou será que os nossos governantes não se sentem confortáveis com o inesperado ou imprevisível?! Todos sabemos que eles preferem o encenado ao espontâneo, mas que era bonito ver a tal obra por acabar ser genuinamente inaugurada amanhã, por exemplo, lá isso era. E nem vou perder tempo a explicar este meu desejo. Ainda assim, estou em crer que haveria quem se inclinasse numa vénia vertiginosa à passagem dos tais ilustres visitantes. É que títulos, cargos e penachos constituem, actualmente, quase uma estética. A desfaçatez também, pois claro.
Ouvi, há pouco, que, segundo o novo regime de presenças e faltas da Assembleia da República, os deputados poderão ausentar-se cinco dias seguidos sem apresentar justificativo de doença. Pelos vistos, a sua palavra faz fé, não carecendo de comprovativos. Os nossos políticos são, na verdade, um manual de prestidigitação e de sobrevivência criativa. Isto vai bonito!
A autocomiseração é um sentimento muito feio. Feio, deprimente e que, na maioria das vezes, não pressagia nada de bom. Se nos alimentamos de olhares compassivos e da voz obsessiva do nosso coração apregoando - é tarde, é tarde, nunca passaremos de personagens secundárias, sem bússola, presas no fosso que nós próprias cavamos. Nunca é tarde para fechar ou abrir portas; para avaliar que errámos ou que nos enganaram; para desistir, para construir, para hibernar, para regressar, até mesmo para colocar um ponto final e encarar os factos de frente e sem desculpas. Houve momentos na minha vida em que me agarrei, como uma bóia de salvação, às lágrimas, à dor e à pena de mim mesma. Na realidade, só aumentei a minha insegurança, turvei a mente, quase destruí a possibilidade de salvação. É uma reacção comum - dizem-me - mas também - digo eu - é um processo humilhante, inútil, desgastante. Poderemos, no máximo, juntar uns parcos apoios de compaixão de outras vítimas tão ou mais cobardes do que nós. Sim, porque é sempre um acto de cobardia querer adiar a vida, banindo-a dos nossos desejos, sonhos ou objectivos. Os grandes pilares de uma existência feliz e harmoniosa não assentam em adoçantes, muito menos em paraísos artificiais. A felicidade é, tão-só, a maior ou menor facilidade que adoptamos para lidar com as nossas fraquezas, as nossas inquietudes, os nossos erros, os nossos fracassos e, claro, a aceitação de que somos seres carentes, débeis, imperfeitos e, frequentemente, pouco autênticos. Consigo, actualmente, encarar-me tal como sou. É evidente que não foi um processo indolor e sem tensões. Partir do pressuposto de que não somos o centro do mundo nem sequer especiais requer choques brutais com a realidade, conflitos e uma boa dose de humildade. E como é difícil ser-se humilde, aprendendo a dominar a nossa vaidade, os nossos mesquinhos interesses e a ficção que criámos de nós próprios e a nosso bel-prazer. Em certas circunstâncias, quando falamos ou agimos, deveríamos ter um espelho diante de nós. Só assim, creio, poderíamos compreender a dimensão do nosso deserto, do nosso vazio, da nossa imensurável pequenez. Preciso de muito pouco para me sentir grata. Preciso também, infelizmente, de muito pouco, para me decepcionar, para sentir que há pessoas que possuem uma fabulosa capacidade de esmagar os outros como quem bebe água e faz exercício. É a loucura mascarada de leveza e de uma certa inconsistência de valores e de carácter. Loucura execrável, predadora, repulsiva, quotidiana. A autocomiseração é um sentimento muito feio. Porque não passa de um vil pretexto para as nossas fugas, a nossa servidão, a nossa despromoção. Por mil voltas que desenhemos, a escolha acaba por ser sempre nossa. E é ela que nos define: reduzindo-nos ao que somos, engendrando monstros ou elevando-nos ao patamar do sublime onde se encontram todos aqueles que sabem “abrir mão da vida para que os outros vivam”. Deus nos dá, Deus nos tira.