O coração, Nas noites de naufrágio, De dor silenciosa, Recusa-se a pulsar curvado, À deriva, Prenúncio de morte espessa. Primeiro, recolhe-se, Cercado de silêncios, Na aridez da imensidão do nada. Depois, olhos fechados para a sombra, Estremece,
Sepulta, pouco a pouco,
Brisas negras,
Abre-se ao largo rio Do esquecimento. Mais tarde, quando a esperança
O aconchega,
Desenha raízes no sítio exacto Onde os afectos se entrelaçam, Sorve, de novo, a luz.
Gostaria de resistir mais às minhas fraquezas, de não me deixar enredar, por exemplo, na teia das vitoriazinhas ocas - mas que originam um brilhozinho na alma - quando constato que a mão que se virou contra mim acabou, afinal, por punir-se a ela própria. A vingança pode saber bem e emanar um perfume de desforra; revela, porém, mesquinhez, preocupante obsessão e uma certa perfídia. Quem atravessa o mundo como se este fosse uma espécie de propriedade privada, não é apenas egoísta e bronco – é moralmente indecoroso. Nada daquilo que damos como certo o é, tudo é emprestado, efémero. Assim, de nada valem ajustes de contas, muito menos golpes de misericórdia. É humano que eu queira o melhor para mim e para aqueles a quem amo; todavia, isso não pode implicar disparos e mais disparos, indiferente a quem cai, a quem perde. A ausência de generosidade funciona apenas como um traço de carácter assente no negativo, no declaradamente condenável. Em suma, não quero nem devo proteger-me na velha falácia do olho por olho, dente por dente. Não vou, pois, permitir-me (mais) tontos sorrisos que possibilitem erróneas ou dúbias conclusões. Se alguém me feriu para se “promover”, isso dar-me-á o direito a transformar-me num guerreiro implacável? Não, não quero sobreviver dessa forma, até porque a minha grande vitória será sempre a certeza de que não preciso de nenhum cartão VIP dourado para ser uma pessoa de bem. Esta é a única vingança que me pertence.
A lembrança de ti Ataca-me à traição, Recortando um instante Em mil instantes De inferno e paraíso. E eu, perdidamente humana, Contra mim me debato, Distanciando a chama Que me dissipa o nada.
Nos contos de fadas a protagonista é quase sempre uma bela princesa - sem rugas nem celulite - indefesa, frágil, angélica e… perfeita. Mas, e segundo contam as más-línguas, até o próprio Ulisses acabou por constatar que nada havia de mais aborrecido do que a perfeição. Ela cansa, escraviza, desmotiva. Assim sendo, as princesas, ao longo dos tempos, foram perdendo uma certa letargia herdada de mães para filhas, abandonaram o papel de Bela Adormecida, passaram a encarar os príncipes como homens e não como heróis, recusaram continuar a encaixar no perfil que a sociedade lhes ordenava - o de fada do lar obediente, tonta, assexuada – e aprenderam a seguir em frente com ou sem final feliz. Ser bela não depende somente de uns traços perfeitos nem de revestimentos exteriores mais ou menos fugazes. Como escreveu Marguerite Duras, o encanto provém, sobretudo, do carácter e da auto-estima, ou seja, qualquer mulher pode ser tudo o que quiser se acreditar realmente que o pode ser. O encanto não requer as medidas de uma top model, mas exige a capacidade de gostarmos de nós com os nossos defeitos e virtudes, enfrentando com serena naturalidade os entraves da vida para, no final, dizer como o poeta – confesso que vivi. Nós, mulheres, já não estamos limitadas à velha questão de discutir quem desempenha papéis dominantes; nós, mulheres, senhoras de nós e do nosso destino, marcamos os capítulos da história que nos apraz escrever. Durante séculos, os homens preocuparam-se muito pouco por conhecer a essência do sexo feminino. Tradicionalmente, veneravam as mães, subjugavam as esposas, menosprezavam as mulheres em geral. Curiosamente, esta espécie - felizmente já em vias de extinção - ainda perdura. Alguns homens nunca foram capazes de se reconciliar com a ideia de igualdade, cumplicidade e partilha entre os dois sexos. Por insegurança ou medo, são insensíveis, narcisistas, manipuladores, instáveis e imaturos. Por vezes, escondem-se sob a capa de um encanto perverso: atraem, seduzem, destroem, afastando-se, de imediato, sem qualquer ponta de remorso, da desolação e mágoa que causaram. Aprenderam a desprezar as mulheres e a ser leais ao mundo masculino, o único que conta já que, de acordo com as regras que estabeleceram, é em tudo superior ao feminino. Afinal, foi-lhes ensinado que homem que é homem não chora, não sente, não quebra. Homem que é homem não se equivoca, não cede, não respeita. Homem que é homem deve comportar-se, em qualquer circunstância, como macho que utiliza afectos e sexo com o único propósito de satisfazer o seu ego. É evidente que a mulher não encontra oposição à sua emancipação e realização apenas neste grupo. Segundo dizem, o pior inimigo da mulher é a mulher. Melhor dizendo, as outras mulheres. De facto, algumas primam pelas suas manobras retorcidas e pela sua falsidade. Não toleram ser confrontadas e agem sem quaisquer escrúpulos com o fim de atingirem o seu objectivo. Proliferam em meios onde o universo feminino eclipsa o masculino e andam habitualmente vestidas de Capuchinho Vermelho ingénuo e desprevenido, mas disposto a encontrar um Lobo Mau. Pobrezinhas. Ainda não entenderam que se pode viver só por opção, sem a marca do abandono ou da pressão de ter de arranjar um companheiro - traste que seja - que se adapte às exigências do socialmente estabelecido. A mudança tem sido o motor que move a história da humanidade. Deste modo, mais tarde ou mais cedo, estas espécies (raras) serão vítimas da sua própria mesquinhez, dos seus próprios fardos, sendo através deles que pagarão o seu declínio, o seu vazio. Encontrar a felicidade pode não ser um mito se todos nós, homens e mulheres, compreendermos que estamos aqui não para lutar uns contra os outros mas para estabelecer e manter afectos, unindo visões diferentes com igual respeito. A vida nunca é um conto de fadas, mas pode ser escrita sem vencedores nem vencidos.
Nunca supus que o teu coração fosse um lugar tão gélido, tão às cegas, de céu desmoronado, de tempo destruído, de noites, de vazios. A tua vida, já sem a estrela do primeiro sonho, narra a tua funda solidão e essa pressa de chegar ao diminuto, ao nada. Vejo-te fechar, com pressa, a espontânea - mas humana - sede de luz e de calor como se bastasses a ti próprio. Prescindiste, há muito, do simples valor das coisas, num tédio que te lança ao seco sono de breves sentidos. E, como um demente, vais deixando apodrecer os frutos que não colhes, esquecendo que a vitória não se ganha por capricho mas lutando com grandeza.
Há palavras que ainda não cheguei a dizer-te, Mãe, porque as escondi no beiral do meu desprendimento, na leveza dos gestos sem sentido, na sonolência vaga dos afectos. Sei, porém, que de muitas formas se diz amor, de muitas formas se redime um erro, de muitas formas se escreve a ternura que não sabemos dizer, que não mostrámos como devíamos. Não quero morrer de silêncio, Mãe. Quero que saibas que senti e sinto, sem desoras, o teu amor, o teu desvelo. Quero que saibas que a minha gratidão e o meu amor se elevam sobre as muralhas do tempo, retomando sempre o seu lugar em ti.