folhasoltas
Sexta-feira, Maio 29, 2009
Já não posso contar-te o que mais sinto
Quando olho para ti,
o que vejo já não posso contar,
e a mágoa, incontrolável, definha-me
a alma, desmorona-me a força.

Em outros tempos, de certeza,
de caminhos, os teus olhos - azul doce -
apagavam-me a dor, resgatavam-me
a esperança. E era natural a vida.

Agora, extinta a juventude,
a tua chama esvai-se e o teu corpo,
outrora robusto, quase eterno, abandona-se
ao cansaço e a quem o chama.

Eu, negando essa luz de lua maldita,
tua sombra, minha dor,
tento arrastar para longe, em toda
a extensão da minha vontade, a tua perda.

Mas o céu não me ouve - cego, surdo, imortal.

A.R.
posted by digoeu @ 01:09   2 comments
Sábado, Maio 23, 2009
Renascer


O coração,
Nas noites de naufrágio,
De dor silenciosa,
Recusa-se a pulsar curvado,
À deriva,
Prenúncio de morte espessa.
Primeiro, recolhe-se,
Cercado de silêncios,
Na aridez da imensidão do nada.
Depois, olhos fechados para a sombra,
Estremece,
Sepulta, pouco a pouco,
Brisas negras,
Abre-se ao largo rio
Do esquecimento.
Mais tarde, quando a esperança
O aconchega,
Desenha raízes no sítio exacto
Onde os afectos se entrelaçam,
Sorve, de novo, a luz.

A.R.
posted by digoeu @ 10:43   2 comments
Segunda-feira, Maio 18, 2009
Boomerang
Gostaria de resistir mais às minhas fraquezas, de não me deixar enredar, por exemplo, na teia das vitoriazinhas ocas - mas que originam um brilhozinho na alma - quando constato que a mão que se virou contra mim acabou, afinal, por punir-se a ela própria. A vingança pode saber bem e emanar um perfume de desforra; revela, porém, mesquinhez, preocupante obsessão e uma certa perfídia. Quem atravessa o mundo como se este fosse uma espécie de propriedade privada, não é apenas egoísta e bronco – é moralmente indecoroso.
Nada daquilo que damos como certo o é, tudo é emprestado, efémero. Assim, de nada valem ajustes de contas, muito menos golpes de misericórdia. É humano que eu queira o melhor para mim e para aqueles a quem amo; todavia, isso não pode implicar disparos e mais disparos, indiferente a quem cai, a quem perde. A ausência de generosidade funciona apenas como um traço de carácter assente no negativo, no declaradamente condenável.
Em suma, não quero nem devo proteger-me na velha falácia do olho por olho, dente por dente. Não vou, pois, permitir-me (mais) tontos sorrisos que possibilitem erróneas ou dúbias conclusões. Se alguém me feriu para se “promover”, isso dar-me-á o direito a transformar-me num guerreiro implacável? Não, não quero sobreviver dessa forma, até porque a minha grande vitória será sempre a certeza de que não preciso de nenhum cartão VIP dourado para ser uma pessoa de bem. Esta é a única vingança que me pertence.

A.R.
posted by digoeu @ 22:23   0 comments
Sábado, Maio 16, 2009
Duelo


A lembrança de ti
Ataca-me à traição,
Recortando um instante
Em mil instantes
De inferno e paraíso.
E eu, perdidamente humana,
Contra mim me debato,
Distanciando a chama
Que me dissipa o nada.

A.R.
posted by digoeu @ 23:19   2 comments
Domingo, Maio 10, 2009
Crónica no feminino
Nos contos de fadas a protagonista é quase sempre uma bela princesa - sem rugas nem celulite - indefesa, frágil, angélica e… perfeita. Mas, e segundo contam as más-línguas, até o próprio Ulisses acabou por constatar que nada havia de mais aborrecido do que a perfeição. Ela cansa, escraviza, desmotiva.

Assim sendo, as princesas, ao longo dos tempos, foram perdendo uma certa letargia herdada de mães para filhas, abandonaram o papel de Bela Adormecida, passaram a encarar os príncipes como homens e não como heróis, recusaram continuar a encaixar no perfil que a sociedade lhes ordenava - o de fada do lar obediente, tonta, assexuada – e aprenderam a seguir em frente com ou sem final feliz. Ser bela não depende somente de uns traços perfeitos nem de revestimentos exteriores mais ou menos fugazes. Como escreveu Marguerite Duras, o encanto provém, sobretudo, do carácter e da auto-estima, ou seja, qualquer mulher pode ser tudo o que quiser se acreditar realmente que o pode ser. O encanto não requer as medidas de uma top model, mas exige a capacidade de gostarmos de nós com os nossos defeitos e virtudes, enfrentando com serena naturalidade os entraves da vida para, no final, dizer como o poeta – confesso que vivi.
Nós, mulheres, já não estamos limitadas à velha questão de discutir quem desempenha papéis dominantes; nós, mulheres, senhoras de nós e do nosso destino, marcamos os capítulos da história que nos apraz escrever.


Durante séculos, os homens preocuparam-se muito pouco por conhecer a essência do sexo feminino. Tradicionalmente, veneravam as mães, subjugavam as esposas, menosprezavam as mulheres em geral. Curiosamente, esta espécie - felizmente já em vias de extinção - ainda perdura. Alguns homens nunca foram capazes de se reconciliar com a ideia de igualdade, cumplicidade e partilha entre os dois sexos. Por insegurança ou medo, são insensíveis, narcisistas, manipuladores, instáveis e imaturos. Por vezes, escondem-se sob a capa de um encanto perverso: atraem, seduzem, destroem, afastando-se, de imediato, sem qualquer ponta de remorso, da desolação e mágoa que causaram. Aprenderam a desprezar as mulheres e a ser leais ao mundo masculino, o único que conta já que, de acordo com as regras que estabeleceram, é em tudo superior ao feminino. Afinal, foi-lhes ensinado que homem que é homem não chora, não sente, não quebra. Homem que é homem não se equivoca, não cede, não respeita. Homem que é homem deve comportar-se, em qualquer circunstância, como macho que utiliza afectos e sexo com o único propósito de satisfazer o seu ego.


É evidente que a mulher não encontra oposição à sua emancipação e realização apenas neste grupo. Segundo dizem, o pior inimigo da mulher é a mulher. Melhor dizendo, as outras mulheres. De facto, algumas primam pelas suas manobras retorcidas e pela sua falsidade. Não toleram ser confrontadas e agem sem quaisquer escrúpulos com o fim de atingirem o seu objectivo. Proliferam em meios onde o universo feminino eclipsa o masculino e andam habitualmente vestidas de Capuchinho Vermelho ingénuo e desprevenido, mas disposto a encontrar um Lobo Mau. Pobrezinhas. Ainda não entenderam que se pode viver só por opção, sem a marca do abandono ou da pressão de ter de arranjar um companheiro - traste que seja - que se adapte às exigências do socialmente estabelecido.


A mudança tem sido o motor que move a história da humanidade. Deste modo, mais tarde ou mais cedo, estas espécies (raras) serão vítimas da sua própria mesquinhez, dos seus próprios fardos, sendo através deles que pagarão o seu declínio, o seu vazio.

Encontrar a felicidade pode não ser um mito se todos nós, homens e mulheres, compreendermos que estamos aqui não para lutar uns contra os outros mas para estabelecer e manter afectos, unindo visões diferentes com igual respeito.
A vida nunca é um conto de fadas, mas pode ser escrita sem vencedores nem vencidos.

A.R.
posted by digoeu @ 18:01   2 comments
Segunda-feira, Maio 04, 2009
Contra a luz
Nunca supus que o teu coração fosse
um lugar tão gélido, tão às cegas,
de céu desmoronado, de tempo
destruído, de noites, de vazios.
A tua vida, já sem a estrela do primeiro
sonho, narra a tua funda solidão e essa
pressa de chegar ao diminuto, ao nada.
Vejo-te fechar, com pressa, a espontânea
- mas humana - sede de luz e de calor
como se bastasses a ti próprio.
Prescindiste, há muito, do simples valor
das coisas, num tédio que te lança
ao seco sono de breves sentidos.
E, como um demente, vais deixando
apodrecer os frutos que não colhes,
esquecendo que a vitória não se ganha por
capricho mas lutando com grandeza.

A.R.
posted by digoeu @ 00:02  
Domingo, Maio 03, 2009
Poema à(s) Mãe(s)

Há palavras que ainda não cheguei a dizer-te, Mãe,
porque as escondi no beiral do meu desprendimento,
na leveza dos gestos sem sentido, na sonolência vaga
dos afectos. Sei, porém, que de muitas formas se diz
amor, de muitas formas se redime um erro, de muitas
formas se escreve a ternura que não sabemos dizer,
que não mostrámos como devíamos. Não quero morrer
de silêncio, Mãe. Quero que saibas que senti e sinto,
sem desoras, o teu amor, o teu desvelo. Quero que saibas
que a minha gratidão e o meu amor se elevam sobre as
muralhas do tempo, retomando sempre o seu lugar em ti.

A.R.
posted by digoeu @ 00:31   0 comments
Sexta-feira, Maio 01, 2009
Maio
M aio é a palavra que escolhemos,
A palavra acontecida mas por acontecer,
I ntensa, precisa,
O nde se insinuam manhãs livres a recriar.

M A I O é a esperança que se aconchega no
peito, semeando sonhos na frieza dos dias.

A.R.
posted by digoeu @ 09:32   2 comments
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