folhasoltas
Sábado, Junho 27, 2009
Vazante

Contigo estou mais só
porque o teu regresso
é sempre anoitecer
e a tua presença revela
com nitidez a tua ausência.

A.R.
posted by digoeu @ 09:48   2 comments
Quinta-feira, Junho 25, 2009
Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser

se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto
posted by digoeu @ 18:29   1 comments
Quarta-feira, Junho 24, 2009
S. João


Nesta noite, S. João,
Todos consomem folia,
Somente o meu coração
Não se rende à fantasia.

Andam sonhos pelo ar
Guiados pela ilusão.
Os meus não podem voar,
Estão presos à razão.

Não te peço, santo irmão,
O fulgor de um grande amor,
Quero apenas o condão
De afastar de mim a dor.



Vi-te lançar um balão
Cheio de ufana alegria,
Mas sei que o teu coração
Não se eleva, rodopia.

Foste saltar a fogueira
Com um ar muito gingão,
Tropeçaste na braseira,
Ai que grande trambolhão.

Sempre a vida, essa matreira,
Traz consigo esta lição:
Quem lhe prega uma rasteira,
Acaba sempre no chão.

A.R.
posted by digoeu @ 01:07   2 comments
Domingo, Junho 14, 2009
Louca

(www.cm-freixoespadacinta.pt/pic/galeria_fotos/)

Chamam-me louca
porque sempre me acompanha
um pássaro que voa dentro
de mim.

Chamam-me louca
- e louca me sei -
porque os meus silêncios
soltam-se
quando as horas
batem sonolentas e eu sinto
o apelo das nascentes.

Chamas-me louca
Porque planto amendoeiras
Onde tu enterras sonhos.

A.R.
posted by digoeu @ 08:21   3 comments
Sábado, Junho 13, 2009
ARS POÉTICA 63
Como fazer versos?
Sentar
numa cadeira à secretária,
papel à frente, caneta em punho.
Esperar. Esperar em vão. Esperar.
Esperar mais ainda. Esperar sempre.
Se é fumador, fumar então
antes, depois ou no decurso.
Se não, continuar a esperar.
Se ao fim de um certo tempo
o dito tempo exceder o tempo
que se achou ser justo esperar,
desistir. Para voltar em novas
arremetidas desesperadas e inúteis,
em dias alternados ou consecutivos.
Em dada altura, vai-se de avião,
e ela chega como no expresso
do Poeta de S. Martinho da Anta,
mais pobre, menos ritmada talvez
(não admira, vai-se de avião!),
mas vem, contudo, é o que importa.
Pode começar por uma palavra bonita,
coisa rara e difícil. E arriscada:
nunca se sabe o que virá depois
que pode ser bem pior e fracassar.
Há quem comece com irmãos,
o que tem vantagens inúmeras,
desde as garantias de escola às conveniências
e conivências do correligionarismo fiel
que assegura um público bastante certo,
embora pouco amante de poesia
e, de ordinário, pouco esperto.
Desvantagens:
traz grandes dores de cabeça e pesadas
responsabilidades para com a humanidade
inteira e o Homem com H maiúsculo,
tarefa sempre ingente para quem começa.
O melhor ainda, o mais velhinho
e garantido é começar pela palavra
eu. Será umbicalista, egoísta,
eu sei cá, mas é pequenina e humilde
e não diz mais do que diz, não tem
mais responsabilidades do que as que convém
seu minúsculo e modesto universo. Será
pouco, mas é um mundo. Para quê
querer incendiar os astros se, dentro de nós,
ainda não acendemos todas as luzes?

Rui knopeli
posted by digoeu @ 23:34   1 comments
Quinta-feira, Junho 11, 2009
Rente à dor
Estremeço só de pensar
Que sobre ti pende o silêncio definitivo,
Amargo, sem comprimento,
E que para te encontrar não será suficiente
Atravessar o teu nome, agarrar a tua mão.
Estremeço só de pensar
Que nunca mais a tua voz me acalmará,
Congelando-me o medo e os erros,
Tocando-me o coração sem punições,
Sem o peso mudo e frio de uma pedra.
Estremeço só de pensar
Que virá um amanhã, um qualquer
Lugar, um momento sem ti.

A.R.
posted by digoeu @ 02:54   0 comments
Domingo, Junho 07, 2009
ELEIÇÕES - PS DERROTADO
posted by digoeu @ 20:14  
Sábado, Junho 06, 2009
Raio de sol


O teu olhar,
sempre cheio de ternura,
demora-se no meu
- baço, vulnerável -
e, sem tumulto,
quente de protecção,
como a força do abraço
que une e perdura,
transforma a minha escuridão
em luz suave e pura.

A.R.
posted by digoeu @ 22:41   2 comments
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