Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser
se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer
Como fazer versos? Sentar numa cadeira à secretária, papel à frente, caneta em punho. Esperar. Esperar em vão. Esperar. Esperar mais ainda. Esperar sempre. Se é fumador, fumar então antes, depois ou no decurso. Se não, continuar a esperar. Se ao fim de um certo tempo o dito tempo exceder o tempo que se achou ser justo esperar, desistir. Para voltar em novas arremetidas desesperadas e inúteis, em dias alternados ou consecutivos. Em dada altura, vai-se de avião, e ela chega como no expresso do Poeta de S. Martinho da Anta, mais pobre, menos ritmada talvez (não admira, vai-se de avião!), mas vem, contudo, é o que importa. Pode começar por uma palavra bonita, coisa rara e difícil. E arriscada: nunca se sabe o que virá depois que pode ser bem pior e fracassar. Há quem comece com irmãos, o que tem vantagens inúmeras, desde as garantias de escola às conveniências e conivências do correligionarismo fiel que assegura um público bastante certo, embora pouco amante de poesia e, de ordinário, pouco esperto. Desvantagens: traz grandes dores de cabeça e pesadas responsabilidades para com a humanidade inteira e o Homem com H maiúsculo, tarefa sempre ingente para quem começa. O melhor ainda, o mais velhinho e garantido é começar pela palavra eu. Será umbicalista, egoísta, eu sei cá, mas é pequenina e humilde e não diz mais do que diz, não tem mais responsabilidades do que as que convém seu minúsculo e modesto universo. Será pouco, mas é um mundo. Para quê querer incendiar os astros se, dentro de nós, ainda não acendemos todas as luzes?
Estremeço só de pensar Que sobre ti pende o silêncio definitivo, Amargo, sem comprimento, E que para te encontrar não será suficiente Atravessar o teu nome, agarrar a tua mão. Estremeço só de pensar Que nunca mais a tua voz me acalmará, Congelando-me o medo e os erros, Tocando-me o coração sem punições, Sem o peso mudo e frio de uma pedra. Estremeço só de pensar Que virá um amanhã, um qualquer Lugar, um momento sem ti.