E agora que as mãos da incrédula rapariga te empurram para a saída, onde irá chover, de acordo com a cor do céu, não resistas. Na rua, onde os ventos se cruzam na esquina, os que sopram, do norte, de colinas manchadas pelo inverno, e os que nascem do rio, trazendo a impressão húmida do litoral, acende um cigarro, para que o calor do lume te reconforte as mãos, avança pelo passeio, enquanto o frio te deixar, e ouve o canto da água por baixo de terra: correntes no limite entre o gelo e o fogo, uma evaporação de humores, como se as almas lutassem em busca de saída, e, no fumo de uma memória de mesa antiga, tu e essa que amaste, trocando as frases matinais do re- encontro. Vidros embaciados pelas lágrimas da ruptura, perguntas sem resposta, a casa de luzes apagadas, como se estivesse vazia - e como se não soubesses que os destinos se decidem por cima de nós, onde em cada instante um deus cansado nos desfaz as inúteis promessas de eternidade.
Há dentro de ti, pai, o espaço mais verde, o lago mais azul, o ninho mais enraizado, a generosidade mais delicada, mais paciente e a lealdade dos que sabem amar para sempre com a serenidade doce de um ramo de alfazema. Contigo aprendi que as coisas importantes são, frequentemente, as ocultas, as não reveladas, singelas e presentes, novelos de magia aonde se resguardam tempos de prodígio redentor. Legaste-me o teu amor, a tua capacidade de sonhar e até as lágrimas que contiveste nos momentos de sobressalto e névoa. Em troca, pai, dei-te o temor de quem nunca ousou partir, o peso das minhas derrocadas, o remorso de não ter querido ouvir-te como devia. Sabe, porém, que sempre sinto - e sentirei - a tua mão pousada no meu ombro e a tua voz dizendo: gasta o coração mas não a vida.
O desejo é nota ofuscante no tumulto do corpo, é vertigem, combustão de sentidos nas raízes do sangue que, delirante, incendeia o caminho que me leva até ti.