folhasoltas
Quarta-feira, Julho 29, 2009
O AMOR ETERNO


E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
húmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.

Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"
posted by Angel @ 15:03   2 comments
Domingo, Julho 12, 2009
Feliz Aniversário


Há dentro de ti, pai, o espaço mais verde,
o lago mais azul, o ninho mais enraizado,
a generosidade mais delicada, mais paciente
e a lealdade dos que sabem amar para sempre
com a serenidade doce de um ramo de alfazema.
Contigo aprendi que as coisas importantes são,
frequentemente, as ocultas, as não reveladas,
singelas e presentes, novelos de magia aonde
se resguardam tempos de prodígio redentor.
Legaste-me o teu amor, a tua capacidade de sonhar
e até as lágrimas que contiveste nos momentos
de sobressalto e névoa. Em troca, pai, dei-te o
temor de quem nunca ousou partir, o peso das
minhas derrocadas, o remorso de não ter querido
ouvir-te como devia. Sabe, porém, que sempre sinto -
e sentirei - a tua mão pousada no meu ombro e a
tua voz dizendo: gasta o coração mas não a vida.


A.R.
posted by digoeu @ 12:37   5 comments
Sexta-feira, Julho 03, 2009
Aconchego

Se pudesse,
registaria o amor
- linfa corrrendo bem
no centro da doçura -
como a única lei
da Humanidade.


A.R.
posted by digoeu @ 08:49   5 comments
Quarta-feira, Julho 01, 2009
Desejo

O desejo é nota ofuscante
no tumulto do corpo,
é vertigem,
combustão de sentidos
nas raízes do sangue
que, delirante,
incendeia o caminho
que me leva até ti.


A.R.
posted by digoeu @ 08:02   3 comments
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