folhasoltas
Domingo, Outubro 25, 2009
Morre lentamente
Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
Não arrisca vestir uma cor nova,
Não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte

Ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
Não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!


Pablo Neruda
posted by digoeu @ 09:59   2 comments
Sábado, Outubro 24, 2009
Da inveja
Personagem 1 - Fico sempre espantada quando vejo alguém preocupar-se com a moda. Algumas mulheres, vejam lá, dão-se mesmo ao luxo de combinar a cor da roupa com a dos acessórios. Este ano, como se usa o roxo, há colegas que chegam a combinar a carteira, os brincos e até os anéis (risinhos histéricos). Não sei como têm tempo para essas ninharias.
Personagem 2 - Por acaso, o tom lilás e o tom rosa já se usavam no ano passado, sabia? Além disso, é uma cor de que gosto particularmente e por isso tenho alguma roupa nesses tons.
Personagem 1 - Ah!!! Não sabia que já se tinha usado o roxo o ano passado… Não dou grande importância à moda…
Personagem 2 (aparte) - E reparar obsessivamente nos outros não será uma perda mais inútil de tempo?!”

Excerto do livro (ainda por escrever) “Prefiro os inimigos aos amigalhaços”


A inveja é uma coisa muito feia. E ridícula também.
As pessoas invejosas não nos merecem a menor confiança. Há nelas um misto de rancor, pequenez e, acima de tudo, uma incontrolável tendência a ‘guetizar’ os outros através de uma visão baça, preconceituosa, tosca.
Nesta perspectiva, o melhor a fazer quando nos deparamos com este tipo de criaturas low profile - frustradas, chatas, muito chatas, sempre prontas a rasteirar os outros – é enfrentá-las ou ignorá-las. Bom, podemos ainda envenená-las com raticida, sem o mínimo sentimento de culpa, claro, mas corremos o risco de existir um qualquer plano de contingência que, ao invés de as eliminar, as multiplique.
Os invejosos desatinam sempre que se dão conta de que ao seu lado existe alguém que ocupa mais espaço no coração dos outros. Sufoca-os a “sorte” de quem se lhes atravessa no caminho e nutrem um profundo desprezo pelos que não pertencem à sua espécie. As medalhas deveriam ser-lhes sempre entregues já que, na opinião destes complexados, o pódio e a glória lhes pertencem desde que nasceram.
O invejoso vive permanentemente entre parêntesis, olhando de lado tudo o que não seja à sua imagem e semelhança. Dedica-se a vigiar as parvoíces - segundo ele - dos que o cercam. Critica o que não tem mas gostaria de ter. Passa o tempo a descobrir defeitos nos outros porque não encontra mais nenhuma válvula de escape para a sua fragilidade. Para a sua solidão.
Em suma, a inveja é um naufrágio existencial. Intolerante (e intolerável). Cruel. E tão sem graça.


A.R.
posted by digoeu @ 17:00   1 comments
Domingo, Outubro 18, 2009
Tântalo


Todas as noites
voo ao teu encontro
- os que amam
acabam sempre por voltar -
sabendo que não te vou encontrar.

Sou como um búzio
ecoando a inalcansável voz do mar.

A.R.
posted by digoeu @ 09:28   1 comments
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
"Já murcharam tua festa, pá"
Mais uma eleição.
Os mesmos vencedores. Todos, afinal.
Os mesmos discursos, o mesmo lusco-fusco da charlatanice, do conluio, da pouca-vergonha.
Sempre a mesma flacidez na vontade de mudar. Sempre o eterno fascínio pelo popularucho, pelo “porreiro, pá”.
Estamos quase a atingir o pelotão da frente, dizem (nos) - basta olhar para o proliferar dos preciosismos tecnológicos - mas sempre iguais: decadentes, enferrujados, adeptos fervorosos do terceiro-mundismo.
Ontem, mais uma vez, os políticos dançaram o vira – ora agora viras tu, ora agora viro eu; viras tu mais eu”. O país, esse, não virou… a página. Continua a ler a da necrologia.
Contra a mesmíssima coisa, não há votos que cheguem. Nem resistência moral.
Mas é sempre uma festa.

A.R.
posted by digoeu @ 17:37   0 comments
Segunda-feira, Outubro 05, 2009
Marés

Quando as tuas mãos,
incendiadas de mil sedes ,
rasgam astros e se embebedam
no mosto súplice do meu corpo,
todas as cores se fundem
no ébrio fogo dos sentidos.


A.R.
posted by digoeu @ 09:50  
Sábado, Outubro 03, 2009
Reciclagem


Não te sonhei assim.
Caprichoso. Esbatido.
Olhando os que te cercam quais salpicos
caricatos. Sem história. Sem rasto.

Se o génio da lâmpada existisse,
pedir-lhe-ia que completasse,
fenda a fenda, o teu coração.
Com mel. Com ternura que nunca se cala.
Com a genuína emoção de um violoncelo
soando como uma lágrima.

Poderias, então, entrar no coração dos outros.
Entrar no meu coração.
Cheio da serena certeza de que quem dá,
sempre colhe.

A.R
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posted by digoeu @ 21:27  
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